O grande Sonho

Para edificar as almas.

“Dom Bosco encontrava-se em Lanzo Torinese, no colégio Salesiano.

Era noite de 6 de dezembro. Eis o que ele próprio narrou:

“Pareceu-me em dado momento encontrar-me sobre uma pequena elevação de terra, à borda de imensa planície, cujos limites a vista não podia atingir. Era toda azul, como o mar em calmaria. Mas não era o mar. Parecia imenso cristal reluzente e muito terso. A planície dividia-se em vastíssimos jardins de inenarrável beleza… No meio do jardim elevavam-se edifícios magníficos, vastos, harmoniosos e em perfeita ordem. Pensava comigo mesmo: Oh, se possuísse uma só dessas casas para meus jovens!…

Eis que se difunde pelos ares uma música extremamente suave… Pareciam-me cem mil instrumentos de uma orquestra paradisíaca… E um coro infinito de pessoas cantava: ‘Honra e Glória a Deus, Pai Onipotente, Criador do Mundo…’.

Enquanto ouvia aquela melodia divina, meus olhos descortinaram uma numerosa turba de jovens. Conhecia alguns: eram os meus alunos do Oratório. Mas os outros, numerosos como as estrelas do céu, não os vira nunca. O imenso cortejo vinha em minha direção, tendo à frente de todos Domingos Sávio.

O cortejo para, cessa a música. Brilhou um raio de luz muito viva. Domingos aproximou-se tanto que se houvesse estendido uma das mãos poderia tocá-lo. Olhava-me em silêncio e sorria.

Como estava bonito! Uma túnica candidíssima descia-lhe até os pés, toda entretecida de ouro e de diamantes. Ampla faixa vermelha cingia-lhe os flancos. No pescoço, uma jóia de valor inestimável: um ramalhete de flores formado de pedras preciosas. As flores resplandeciam de luz tão viva que rivalizavam com uma manhã de primavera. Seu rosto estava tão iluminado que era difícil fixá-lo. Parecia um anjo.

Pensava com meus botões: que significa tudo isso? Como é que vim parar neste lugar? Mas Domingos sorriu e me disse:

– Por que está tão calado?… Por que não fala?

Balbuciei:

– Não sei o que dizer… Você é Domingos Sávio?

– Sim, sou eu. Não me reconheces mais?

– E como é que você está aqui?

– Vim para falar-lhe – respondeu afetuosamente Domingos – Lembra quantas vezes conversamos na terra? Quantos sinais de amizade e bondade o senhor me deu! E eu, também, quanta confiança depositava no senhor! Por que está assim tão assustado? Por que treme? Vamos, pergunte alguma coisa.

Criei coragem e perguntei:

-Onde estamos?

– Estamos no lugar da felicidade.

– Então isto é o paraíso?

– Oh, não! – sorriu Domingos. – Aqui não se gozam os bens eternos, mas somente os bens naturais amplificados pelo poder de Deus.

– E o que é que vocês gozam no céu?

– Impossível dizer! Ninguém pode saber antes de unir-se a Deus na vida futura. Goza-se Deus! Eis tudo!

Sentia-me agora mais encorajado, e perguntei a Domingos:

-Por que tem uma veste tão branca e bonita?

Domingos não respondeu, mas o coro recomeçou a cantar estas palavras:

‘Estes são os que cingiram os flancos com a mortificação e lavaram sua veste no Sangue do Cordeiro… ’.

E por que – perguntei, ao findar o canto – por que você está cingido com essa faixa vermelha?

Também desta feita Domingos não respondeu, mas ouvi cantar:

‘São os que conservaram a pureza e acompanham o Cordeiro divino aonde quer que Ele vá!’.

Compreendi então que aquela faixa vermelha, cor de sangue, era o símbolo dos enormes sacrifícios, dos violentos esforços e como que do martírio sofrido para conservar a virtude da pureza. Significava que para manter-se casto à presença de Deus, Domingos estava disposto a dar a própria vida. Era também o símbolo das penitências que purificam a alma dos pecados…

– Diga-me, Domingos – continuei -, por que você está à frente deste grande cortejo?

– Porque sou embaixador de Deus.

– Então vamos falar de coisas importantes. Que me diz do passado?

– Sua Congregação já fez muito bem no passado. Muitíssimas almas foram salvas. Mas seriam muito mais se o senhor tivesse tido mais fé e mais confiança em Deus.

Gemi suspirando… e disse:

– E do presente, que me diz?

Domingos mostrou-me o magnífico ramalhete de flores que trazia nas mãos. Era feito de rosas, violetas, espigas de trigo, gencianas, lírios e semprevivas. Ofereceu-mo e disse:

– Apresente-o a seus filhos, para que possam oferecer a Nosso Senhor. Faça com que todos o tenham que ninguém fique sem ele!

– Mas, que significa essas flores?

– Não sabe? Entretanto devia saber! A rosa é símbolo da caridade, a violeta da humildade, a genciana da penitência e mortificação, as espigas de trigo da Comunhão freqüente, o lírio da bela virtude, da qual está escrito: serão como Anjos de Deus no céu, a castidade. E a sempreviva significa que todas essas virtudes devem durar sempre: a perseverança.

– Diga-me, Domingos. Você que praticou essas virtudes na terra, que é que mais o consolou na hora da morte?

– O que mais me confortou na hora da morte foi a assistência da poderosa e amável Mãe de Deus! Diga isso a seus filhos. Que não se esqueçam de invocar Nossa Senhora durante toda a vida!…

– E para mim, o que é que você tem a dizer?

– Oh, se soubesse quantas lutas deve ainda travar por Deus!

– E meus jovens? Estão no bom caminho? Diga-me algo para que eu possa ajudá-los.

– Seus jovens podem dividir-se em três categorias. Veja estas três listas.

Olhei. A primeira tinha como título a palavras: invulnerati. Eram os que o demônio não tinha podido ferir, e conservavam ainda intacta a inocência. Eram em grande número, e os vi a todos, presentes e futuros. Caminhavam firmes por um mesmo caminho, apesar de alvejados por setas e golpes de espadas e de lanças provindos de todos os lados. Tais armas, que formavam como uma sebe ao longo dos dois lados da rua, combatiam e molestavam esses jovens, sem entretanto os ferir.

Domingos apresentou-me em seguida a segunda lista. Trazia escrito: vulnerati. Eram os que se achavam na desgraça de Deus, mas agora, novamente de pé, tinham curado as feridas pelo arrependimento e pela confissão. Formavam um número maior que os primeiros. Li a lista e os vi a todos. Muitos caminhavam recurvos e desanimados.

Domingos tinha nas mãos uma terceira lista. Trazia escrito: Lassati in via iniquitatis. Estavam relacionados os nomes de todos os que se encontravam na desgraça de Deus. Queria ler a lista, e estendi a mão. Mas Domingos me disse com energia:

– Não! Aguarde um instante. Se abrir esta folha se exalará um mau cheiro tão forte que nem o senhor nem eu poderíamos suportar. Os Anjos devem retirar-se horrorizados. O Espírito Santo sente asco do cheiro horrível do pecado… Agora tome-a, abra-a, e saiba tirar proveito para seus jovens. Ditas essas palavras, retirou-se, como se quisesse fugir.

Abri a lista. Não li nome algum, mas à simples vista tive presentes todos os indivíduos que nela constavam. Vi-os a todos, e com grande amargura… Vim muitos que são considerados pelos colegas como jovens bons, ótimos até, mas que infelizmente não são tais…

Mas no ato de abrir a olha espalhou-se um mau cheiro insuportável. Assaltou-me logo agudíssima dor de cabeça e uma ânsia de vômito que receava morrer.

Tudo à volta escureceu. Desfez-se a visão celeste. De contínuo um raio cintilou e ribombou um trovão tão forte e terrível que acordei todo assustado. Corri os olhos ao redor e vi apenas meu quarto.

Tudo havia desaparecido”.

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