Teologia sagrada, teologia natural e o tipo de subordinação das ciências humanas a ambas

Sidney Silveira
Afirmou-se noutro texto que, de acordo com o grau de abstração de determinada ciência e, sobretudo, em razão do fato de ela buscar os seus princípios em outra, é estabelecida uma subalternação ou ordenação. Neste contexto, conforme frisa a escola tomista da melhor cepa (Cardeal Caetano, João de S. Tomás, Santiago Ramírez, Garrigou-Lagrange, G. Manser, etc.), a física ordena-se à matemática e esta, à metafísica, etc. Pois muito bem: como foi dito também que a metafísica é subalternada à teologia, cabe fazer alguns esclarecimentos, que me ocorreram após uma frutuosa conversa com o meu querido amigo e companheiro de blog, Carlos Nougué.

Na verdade, quando se frisa que a metafísica se ordena à teologia, é preciso fazer algumas distinções importantes, para que as coisas não fiquem nas brumas da obscuridade. Em primeiro lugar, destaque-se que toda ciência possui um tríplice objeto:
> Material;
> Formal-terminativo; e
> Formal-motivo.
Objeto material é tudo aquilo que, de alguma forma, cai sob a consideração da ciência. Lancemos mão de um exemplo afirmando que o objeto material da visão são todas as coisas que o olho vê: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Por sua vez, o objeto material da física (que aborda o ente na perspectiva do movimento) são todas as coisas que se movem: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Portanto, um mesmo objeto material pode ser comum a ciências distintas.
Objeto formal-terminativo é aquela formalidade ou perfeição que a ciência considera e estuda em todos os seus objetos materiais. No caso da visão, para prosseguirmos no exemplo, podemos dizer que é a cor (e também a forma) das coisas vistas: a do cavalo, a do céu, a da pedra, etc. No caso da física, é a consideração do motor das coisas que se movem e movem umas às outras: o cavalo, o céu, a pedra, etc. E, assim como acontece no caso do objeto material, frise-se que o mesmo objeto formal-terminativo pode ser considerado por diferentes ciências. Santo Tomás dá o exemplo disto no começo da Suma (I q.1, a.1, ad. 2), quando aponta que o fato de a terra ser redonda pode ser demonstrado por ciências como a astronomia e a física.
Objeto formal-motivo, por fim, é o meio a partir do qual uma ciência considera o seu objeto formal-terminativo. No caso do olho, é a luz pela qual a cor e a forma das coisas vistas são percebidas. No caso da física, é o movimento enquanto orientado a um fim (via ad terminum), que nos entes naturais é o primeiro na intenção e o último na realização*. Esse termo final é propriamente a razão de ser (ratio essendi) de o motor mover as coisas movidas. Vale registrar que o objeto formal-motivo, ao contrário dos outros dois, jamais pode ser compartilhável por duas ou mais ciências, pois, se o fosse, na verdade essas ciências transformar-se-iam numa só.
Assim, como afirma Santiago Ramírez em alguns de seus escritos, o objeto que especifica uma ciência é propriamente o formal-motivo ou, então, o objeto formal-terminativo enquanto afetado pelo formal-motivo.
Pois muito bem: qual seria o objeto formal-terminativo da teologia? O Angélico Doutor responde que é Deus, mas não sob a razão comum de ser, de bondade, de verdade, de unidade, etc., mas sim sob a razão própria de Divindade. Ou seja: sub ratione deitatis. É Deus em si mesmo, ou, se se preferir, todos os atributos de Deus que só podem ser conhecidos pelo homem graças à Revelação. Por esta razão é a teologia o hábito intelectivo pelo qual se estuda Deus em sua recôndita e íntima realidade. E qual seria, por sua vez, o objeto formal-motivo da sagrada teologia? Nenhum outro senão a Revelação mesma, responde Santo Tomás. Neste contexto, a sagrada teologia se distingue radicalmente da teologia natural ou teodicéia, dado que esta última procede dos princípios informados pela razão, enquanto a teologia sagrada parte dos princípios que lhe subministra a fé.
Sendo assim, quando se diz que a metafísica se ordena à teologia, como eu fiz no texto aludido, está-se afirmando que esta ordenação é, primeiramente, em relação à teologia natural, e não à teologia sagrada, pois esta última, tendo como objeto a Deus conhecido pela Revelação, não pode subordinar as outras ciências a si, se se consideram apenas os princípios de que estas partem, embora seja a mais digna e nobre de todas as ciências, dado o seu objeto formal — tanto terminativo, como motivo. Em resumo: a sagrada teologia não empresta os seus princípios à metafísica, nem as matemáticas, nem à física, etc. Contudo há mais, como veremos, mas por ora destaque-se o que afirma o Doutor Angélico, tendo em vista todas essas coisas: a sagrada teologia é uma participação da ciência de Deus no homem (Suma, I, q.1, a.3, ad.2).
Outra distinção importante: a teologia natural é a parte mais nobre da metafísica, o cume, por assim, dizer, desta última. Por isso, quando eu disse que ela subordina a si a metafísica, eu o estava fazendo por meio de uma espécie de analogia, na medida em que o conhecimento de Deus a partir dos entes é muito superior ao conhecimento do ente enquanto ente, objeto próprio da metafísica. Em suma, todo estudioso sério de metafísica, a partir de determinado ponto, ordenará as suas pesquisas ao conhecimento natural que é dado ao homem ter de Deus, o Próprio Ser Subsistente.
Refaçamos o caminho. Dissemos acima que a sagrada teologia — infinitamente superior à teologia natural — não subordina a si as demais ciências, se se consideram apenas os princípios destas. Isto porque nenhum matemático parte de um dado de fé para provar o teorema de Pitágoras, e nenhum metafísico o faz para provar que os entes participam do Ser. No entanto, se se consideram não os princípios das ciências, mas os fins, a coisa se inverte totalmente: neste caso, a sagrada teologia subordina a si todas as ciências humanas, porque o seu fim não é outro senão o conhecimento de Deus e de todas as coisas em Deus.
Ora, Deus é o fim último do homem e, portanto, de todo e qualquer conhecimento humano. Portanto, a supremacia da sagrada teologia é absoluta, porque se trata de ciência: a) universalíssima, pois se estende a todas as coisas às quais são aplicáveis os primeiros e universais princípios da razão; b) certíssima, porque demonstra as suas conclusões pela primeira e mais segura causa no plano ontológico; c) suprema, já que demonstra a partir das causas mais elevadas. Por isso Santo Tomás assinala três propriedades importantíssimas da sagrada teologia:
1- Julgar todas as demais ciências, dado que considera as supremas causas ontológicas (Suma, I, q.1, a.6, corpus; etc);
2- Ordenar todas as demais ciências ao seu fim próprio, porque considera o fim último ao qual se devem ordenar todas as coisas, sem exceção, e que lhes deve servir de norte (Suma I, q.1, a.6, corpus; etc);
3- Utilizar todas as demais ciências em seu proveito próprio, pois todas são em relação a ela um meio ou instrumento que deve conduzir ao fim último.
Além disso tudo, à sagrada teologia cabe julgar os princípios e conclusões de todas as ciências, rechaçando como errônea e inadmissível toda conclusão que contrarie ou seja incompatível com os seus ensinamentos, pois Deus não pode de maneira alguma errar.
Noutra oportunidade, quando divulgarmos certo material que está sendo preparado, falaremos de outras propriedades da sagrada teologia, de acordo com Santo Tomás e com o Magistério infalível da Igreja.
* Não é o caso de abordar neste texto a intentio que há nos entes naturais desprovidos de inteligência, como o rio, o sol, a pedra — intentio esta posta por Deus em cada criatura. Isto valeria um curso inteiro, e não desenvolvo aqui a idéia para não mudar de assunto. Infelizmente, cada vez mais a física moderna se restringe ao estudo do movimento em sua perspectiva puramente material-local. 
 
Estava falando exatamente sobre esta distinção entre estudantes de teologia e teólogos com o Sidney por telefone.

Obrigado amigo por este post.

Em CRISTO,
Allan Lopes.

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