Por que o silêncio durante o Cânon?

Josef Ratzinger celebrando na FSSP


Por Pe. Hubert Bizard, FSSP

Bernanos escreve que o mundo moderno é uma conspiração organizada e ávida contra todo tipo de vida interior. É verdade que é particularmente difícil, como todos já experimentaram, não ser quase constantemente solicitado por este mundo que nos envolve; propagandas, barulhos de toda sorte; se você vai ao dentista, ou fazer compras, ou à garagem de um estacionamento, parece que sempre deve haver uma televisão ou um rádio ligado; “ruído de fundo”. Como é que, sob essas condições, estamos ao menos um pouquinho aptos para nos recolhermos e escutarmos aquele que bate, como dizem as Escrituras, à porta de nosso coração? Este barulho ambiente tem se tornado tão familiar que, para muitos, o silêncio é quase insuportável.

Entre os fiéis que participam de uma Missa de acordo com o Missal tradicional pela primeira vez, você encontrará alguns que ficarão imediatamente cativados e conquistados pelas santas e sagradas cerimônias que são realizadas diante de seus olhos.
Outros, contudo, ficarão desconcertados. Certamente esta liturgia é bela e digna, eles prontamente dirão, mas por que o silêncio durante o Canon? Esses pouco minutos parecem-lhes tão longos e às vezes tão vazios. Por essa razão parece ser uma boa idéia fazer alguns comentários nesta matéria.

É verdade que, historicamente, o Canon foi originalmente rezado em voz alta nos primeiros séculos e até, às vezes, cantado. Mas parece, contudo, que antes do séc. VI tornou-se um costume, em alguns lugares, rezar o Canon em voz baixa. Se o Cardeal Bona em seus estudos considera que o uso “comum” do Canon em voz baixa data do séc. VI, Bento XIV pensa que o costume é muito mais antigo, e explica-o por esta disciplina do “arcano”, em uso nos primeiros séculos, que consistia em manter em segredo os Mistérios da Fé, pelo menos para os não-iniciados, a fim de não os expor ao ridículo. Dom Vandeur, em “A Santa Missa: nota na liturgia”, escreve: “ninguém pode negar que no séc. II a Oração Eucarística era rezada em voz alta. No séc. V, no tempo do papa Inocêncio I (401-417), parece que o oposto já era norma em Roma. No séc. VI, era a prática no Oriente, desde quando o Imperador Justiniano, em 565, ordenou aos bispos e presbíteros a que realizassem a divina oblação… de modo que se pudesse ouvir pelos fiéis. Houve então uma reação. Foi neste tempo que apareceram cortinas ao redor dos altares nas basílicas, um Ciborium ou baldaquino pendente sobre ele, prova manifesta do “segredo” que envolvia o Santíssimo Mistério… é certo que no séc. IX, o Canon, no Oriente e na liturgia Carolíngia, não era rezado em voz baixa. A regra geral que é dada pelos antigos liturgistas é que se acreditava que as palavras de tão grande mistério estavam sendo degradadas e que o povo não mais guardava o respeito suficiente por elas. O Sagrado Concílio de Trento excomungou qualquer pessoa que dissesse que o Rito da Igreja Romana com o qual se pronuncia em voz baixa parte do Canon e as palavras da Consagração é condenado.

Se alguém viu (talvez com razão) na recitação do Canon em silêncio uma certa partida prática, permitindo o sacerdote começar a oração do Canon sem esperar o Sanctusterminar de ser cantado, a maioria dos autores de comentários da Idade Média viram nisso uma razão inteiramente simbólica. O próprio São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (Iia, q83, a4, ad5) fala de orações do povo, dos ministros e, por fim, as reservadas ao padre apenas, como são as do Ofertório e da Consagração. E é por isso, diz ele, que são ditas em segredo. Mas São Tomás observa que há aquelas às quais os fiéis são convidados a se unir à oração do sacerdote, como o Dominus vobiscum (e o Orate fratres) antes do prefácio, ao qual são convidados a responder, como é o caso do Per omnia sæcula sæculorum ao fim do Canon, o qual pede, em certo grau, o consentimento dos fiéis pelo seuAmen e permite a eles que tomem como própria a oração do sacerdote. Pe. Lebrun, no séc. XVIII, em sua Explicação da Santa Missa, escreve que sempre se fez esta resposta om ardor; e São Jerônimo nos conta que se podia ouvir este Amen ecoar em toda parte da Igreja, como um trovão. Os fiéis dão seu consentimento a tudo que o padre pediu a Deus em segredo; e deveriam estar persuadidos de que, diz Teodoreto, respondendo com oAmen eles tomam parte nas orações que o padre fez sozinho.

Pius Parsch escreveu mais recentemente que a Igreja está guardada no silêncio a fim de expressar o mistério do ato sacrifical. É importante entender que esta oração do Canon é o que chamamos de Grande Oração. O prefácio tendo sido completado, escreve Dom Guéranger, o Sanctus ressoa e, então, o padre está numa nuvem. Não deveremos ouvi-lo novamente até que se conclua a grande oração… é o que poderíamos chamar de “Missa por excelência”. Aqui estamos no domínio que é propriamente sacerdotal, no qual os fiéis não são capazes de fazer nada a não ser (e é o privilégio do caráter batismal que nos permite isso) se associarem [a ele]. Jungmann, em sua Explicação da Missa Romana (Missarum Solemnia) escreve: Aqui estamos no momento em que o sacerdote entra sozinho no santuário. Até aqui, a multidão apertada ao seu redor, acompanhando-o nos cantos, especialmente durante a ante-missa. Os cantos, então, tornam-se menos frequentes e, tendo começado a se erguer vigorosamente a Grande Oração, depois do Sanctus, mantém-se o silêncio. Reina um sagrado silêncio; o silêncio é uma digna preparação para a chegada de Deus. Semelhante ao Sumo Pontífice no antigo testamento, que tinha o direito de, sozinho, uma vez no ano, entrar no Santo dos Santos com o sangue das vítimas (Hb 9,7), o celebrante se separa agora do povo e avança rumo ao Deus de santidade a fim de oferecer sozinho o sacrifício.

Compreendamos bem que este silêncio é uma medida de interioridade, de sagrado, e que nos é um meio privilegiado de entrar no coração deste mistério da Missa.  Ele produz em nós a estima pelo silêncio, esta admirável e indispensável condição da alma, diz o Papa Paulo VI. Mesmo lidas em voz alta, poderia o valor destas diviníssimas orações, tendo um poder que nem os anjos têm, ser apropriadamente compreendido? Isto não as vulgariza um pouco e, assim, vulgariza o mistério, expondo-o à nossa incompreensão? Há momentos em que o silêncio é mais eloquente que qualquer palavra. Esta recitação em voz alta pode às vezes tornar-se um obstáculo, à meditação devida ao Mistério que está sendo acompanhado, por força da atenção às palavras (ainda mais se forem ditas em tom narrativo); as palavras do Canon também correm o risco de tornar-se uma barreira para alguns, impedindo-os de penetrar no Mistério. Não foi o Papa Pio XII, em sua encíclicaMediator Dei, que comentou sobre a liturgia que um grande número de cristãos não está apto, com efeito, a usar o Missal Romano, mesmo se estivesse escrito em vernáculo, e que nem todos são capazes de compreender propriamente, como deveriam, os ritos e fórmulas litúrgicas? O temperamento, o caráter e o espírito dos homens são tão variados e tão diferentes que não é possível para todos ser dirigidos e guiados da mesma maneira pelas orações, cantos e ações comuns.

Adoração, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica, é aquela “homenagem do espírito ao ‘Rei da Glória’, silêncio respeitoso na presença do Deus infinito em grandeza”. [Ora,] não se requer um silêncio respeitoso para este momento supremo [do Canon]?

Monsenhor Bugnini que também trabalhou ativamente nesta reforma litúrgica conta, em seu livro (A Reforma da Liturgia), da evolução de nossa Grande Oração: nós começamos com a prática da recitação do Canon em voz alta (a fim de não ‘privar’ os fiéis do coração da Missa); então, quando esta oração é dita em voz alta… seria melhor que fosse compreensível, em vernáculo, então. Mas desde que o antiquíssimo estilo do Canon não é assim tão fácil e “adaptado”, o melhor é proceder com novas Orações Eucarísticas, mais no estilo dos dias atuais.

Se é certo que é preciso sempre pôr um esforço para penetrar melhor os sagrados mistérios e participar melhor neles, como é desejo dos Papas, devemos compreender, como nos lembra Pio XII em sua encíclica Mediator Dei, que a participação principal dos fiéis no Santo Sacrifício da Missa consiste em oferecer-se com a Vítima Divina, sendo por isso apresentado pelo sacerdote em sua patena no momento do Ofertório. A Santa Missa é um ato divino!

Como os apóstolos, que pediram a Jesus que lhes ensinasse a rezar, devemos pedir a Deus, pela Virgem Bem-aventurada, que nos ensine sempre a como assistir e participar melhor do Santo Sacrifício. Presente aos pés da Cruz, ela está novamente aos pés do altar. E devemos também pedir ao nosso Anjo da Guarda, que também está presente junto do altar, para que nos ensine a nos associarmos aos seus louvores.

O Catecismo da Igreja Católica nos diz que, “no silêncio, insuportável para o ‘homem exterior’, o Pai nos pronuncia seu Verbo Encarnado, que sofreu, morreu e ressurgiu; no silêncio o Espírito de adoção nos faz partilharmos da oração de Jesus”.

Terminemos com estas palavras do Livro da Sabedoria, as quais a Igreja utiliza no Introito da Missa do Domingo na Oitava de Natal, em relação à chegada do Filho de Deus à Terra:Dum medium silentium tenerent omnia, et nox in suo curso medium iter haberet, omnipotens sermo tuus Domine, de caelis a regalibus sedibus venit.

Enquanto todas as coisas estavam num quieto silêncio, e a noite estava no meio de seu curso, vosso Verbo onipotente, ó Senhor, desceu dos céus num trono real.

O silêncio é a consumação do ato de louvor. – Dom Delatte

*****

Traduzido por Luís Augusto – membro da ARS
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