Ciência: hábito mental da verdade; teologia sagrada: sabedoria suprema (I)

Sidney Silveira
 
Em sentido lato, por ciência entende-se o conhecimento sistemático nalguma matéria. Aristóteles já tinha noção disso ao afirmar que a ciência é o conhecimento certo de uma coisa a partir de suas causas — daí ser ela para o Estagirita propriamente demonstrativa, ou seja: é próprio da ciência demonstrar a verdade. Mas será que, com estas observações, alcançamos verdadeiramente o proprium da ciência?
Lembremos que o próprio é um dos cinco predicáveis (os outros são gênero, espécie, diferença específica e acidentes); e é o próprio que melhor nos dá notícia da essência dos entes, na exata medida em que só conhecemos a essência deles — e imperfeitamente! — a partir de suas operações formais próprias. Não é o caso de enumerar aqui todas as características do predicável próprio e de suas relações com a essência, mas, para o que nos ocupa, interessa-nos definir se o mais próprio da ciência é mesmo ser demonstrativa, ou se há outras propriedades que descortinem melhor a essência disto a que chamamos ciência. Recorramos a Santo Tomás, para ver o que diz.
Para o Aquinate, não obstante toda ciência ser o conhecimento certíssimo de uma coisa, partir de um conjunto de princípios e ter um objeto formal próprio (e de também ser demonstrativa), ela é, antes de tudo, habitus. E o hábito é, no glossário tomista, o intermediário entre a potência e o ato. Aqui, trata-se de uma qualidade adquirida pela alma intelectiva ao atualizar habitualmente determinada ciência. Isto nos encaminha a uma nova definição: a ciência é o conhecimento habitual da verdade*. Ou, se se preferir outra fórmula, a que costumo usar — por meio de uma analogia de atribuição — é a seguinte: a ciência é o hábito mental da verdade.
Advirta-se que não estamos confundindo a essência da ciência (conhecimento) com o seu próprio (o hábito mental desse conhecimento); este deriva daquela, pois, como conceitua Aristóteles (Tópicos, I, 5-6), “próprio é o que, embora não exprima a essência do sujeito, só a ele pertence”. Neste sentido, usemos o exemplo clássico: a risibilidade é propriamente humana, ou seja, é próprio do homem sorrir. Dos animais irracionais e dos anjos só podemos dizer que sorriem por uma de analogia de atribuição extrínseca, mas este é outro assunto.
Definidos os termos, registremos que, segundo Santo Tomás, a teologia sagrada é ciência, e no mais elevado sentido. Ela é habitus; é demonstrativa; tem princípios dos quais parte; e tem um objeto formal próprio: a deidade obscure per fidem cognita. Ou seja: a vida recôndita de Deus que só conhecemos pela fé. Para o homem no atual estado (ferido pelo pecado original), acima dessa teologia há apenas a ciência do próprio Deus e a dos bem-aventurados que conhecem a deidade clare visa, ou seja, pela visão beatífica.
Princípios dos quais parte a ciência teológica

 

Toda ciência deduz as suas conclusões partindo de princípios evidentes. Ora, a ciência teológica parte de princípios não-evidentes (os artigos da fé, que são recusados por muitos). Logo, não é ciência. A esta objeção (Suma, I, q.1, art. 2) Santo Tomás responde que os princípios de qualquer ciência ou são evidentes simpliciter (por si) ou secundum quid (buscados de outra ciência superior. Por ex.: a perspectiva depende dos princípios subministrados pela geometria). No caso da ciência teológica, ela parte de um princípio buscado em uma ciência superior: a de Deus, que conhecemos pela Revelação. Aqui, novamente, vale lembrar a importância do predicável proprium, que tantas equivocidades evita. Em resumo, é próprio de uma ciência não partir apenas de princípios evidentes simpliciter, mas partir de princípios (sejam evidentes ou buscados de outra ciência). Em suma, a primeira premissa do argumento em contrário — a de que os princípios de toda e qualquer ciência são evidentes simpliciter — cai por terra.

(continua)
* Não confundamos este conhecimento habitual com aquilo que hoje muitos chamam de consciência, pois a consciência, como demonstrou de forma apodítica Santo Tomás no De Veritate, é ato e não hábito. É a aplicação de uma ciência a algo determinado (cum alio scientia).
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