ANTROPOLOGIA TOMISTA (II)


2.1. Psicologia:

Por psicologia entende-se aqui a ciência da alma, sua natureza, ou seja, a alma considerada em si mesma e não suas afecções, distúrbios operativos, cuja investigação pertence à psicanálise.

(a) Definição de alma: no contexto tomista, define-se alma do seguinte modo: ‘a alma é ato e perfeição do corpo’ [De Subs. sep., c.16]; ‘a alma é o ato do corpo, porque a alma separada não é vivente em ato’ [De unit. intel., c. 1].

(b) Origem: acerca de sua origem afirma que é herética a doutrina que estabelece que a alma humana é induzida do sêmen [STh I q118 a2 sol]. Daí que para Tomás ela não pode ser produzida, senão por criação [STh I q90 a2 sol; In II Sent d1 q1 a4 sol; CG II c87; De Ver q27 a3 ad9; De Spirit creat a2 ad8; Quodl IX q5 a1; CTh I c93]. Deus é o criador da alma, mas isso não significa que ela seja parte ou induzida do ser de Deus [STh I q90 a1 sol]. Assim, ainda que não seja necessária a criação da alma se disposta a matéria, já que Deus pode não criá-la, mesmo que se disponha a matéria, será condição para a infusão instantânea da alma no corpo, a disposição simultânea do corpo [De nat mat c2 n374]. E é pautado nisso que se aplicará a teoria da animação simultânea na concepção dos homens. O Aquinate estabelece, retomando a tese de Agostinho que a alma «Deus a cria, infundindo e a infunde, criando no corpo» [In II Sent d3 q1 a4 ad1]. A alma humana – que é simultaneamente sensitiva e nutritiva – é criada por Deus no final do processo da geração humana, depois da corrupção da última forma substancial pré-existente na matéria do sêmen dos pais, que é a forma de corporeidade [STh I q118 a2 sol]. O princípio da infusão da alma no corpo não se dá no início da geração, mas no final da geração do corpo, quando da disposição simultânea da matéria dos progenitores, espermatozóide e óvulo. Esta ‘disposição’ se refere à união, organização e preparação da mescla da matéria dos progenitores. Neste instante inicia-se a formação do embrião que, a partir de então, vai aos poucos se aperfeiçoando, se completando. Esta mesma ‘disposição’ indica também a disposição inicial da matéria, ou seja, a conflagração inicial do material genético herdado dos pais, cujo término se dá somente com a disposição ou geração final do corpo, em que nada faltaria para a recepção da alma. É bem verdade que nos Comentários do Livro de Jó Tomás de Aquino deixa bem claro que a animação somente se realizaria depois de toda divisão orgânica, mas na Suma Teológica oferece a oportunidade de entender da maneira que expomos. A preparação inicial da matéria não constitui para Deus, obrigação que, pautada numa condição necessária dessa matéria, se seguisse a criação e infusão da alma no corpo. E isso, porque em Deus o ato da criação e infusão da alma no corpo são atos sumamente livres, cujas próprias condições são o seu sumo querer, liberdade e poder de fazê-lo, quando livremente o quiser fazer, tendo por fundamento do seu querer, liberdade e poder, somente o seu sumo amor. Resumindo, a infusão da alma [dispositio animae] é simultânea à disposição do corpo [De Pot q3 a9 ad7]. Disso se segue que a alma tem materia in qua, ou seja, matéria em que existe, mas não materia ex qua, isto é, matéria da qual existe. Daí que a multiplicidade dos corpos não pode ser causa da multiplicidade das almas [CG II c81 n1620]. Por isso, a alma humana não recebe o seu ser de Deus, senão no corpo [In II Sent d3 q1 a4 ad1], na materia in qua, não podendo ser criada, pois, antes do corpo, nem mesmo depois [STh I q90 a4 sol; I q91 a4 ad3 y 5; q118 a3 sol; In II Sent d17 q2 a2 sol; CG II c83-84; De Pot q3 a10 sol].

(c) Natureza: a alma humana é de natureza espiritual, isto é, não é induzida ou tirada da matéria (traducianismo), materia ex qua, já que a alma não tem matéria da qual tenha sido extraída [In II Sent d17 q2 a1 ad5]. E se a alma não pode ser induzida da potência da matéria, também, não pode ter pré-existido no sêmen dos pais [STh I q118 a2 sol]. Neste sentido, a alma humana não é composta de matéria e forma [STh I q75a5c;De anima, a6,c]. A alma humana, por isso mesmo, é incorruptível [CTh.III,84]. Daí que para Tomás ela não pode ser produzida senão por criação [STh I q90 a2 sol; In II Sent d1 q1 a4 sol; CG II c87; De Ver q27 a3 ad9; De Spirit Creat a2 ad8; Quodl IX q5 a1; CTh I c93]. Ela é forma subsistente, mas não opera separada do corpo com aquilo que lhe é essencial, ou seja, enquanto separada do corpo, ela não possui, em si mesma, toda a perfeição que lhe faz ser a forma que ela é. A alma humana quando está separada não possui tudo o que é necessário para a sua própria operação específica, mas pode subsistir em si mesma, em sua operação própria, que não depende de nenhum órgão corpóreo e subsiste, quando se separa dele [De anima,a1,c]. De tal maneira, que ainda que ela entenda quando separada do corpo, este entendimento não lhe é natural, enquanto resulta de sua operação natural quando está unida ao corpo [De anima,a15,c], do mesmo modo que não entende o que lhe é sobrenatural, como conhecer as substâncias separadas perfeitamente, quando unida ao corpo [De anima,a16,c]. Por isso, a alma separada entende todas as coisas naturais relativamente e, inclusive, algumas coisas singulares [De anima, a20,c], mas não absolutamente [De anima,a18,c]. A alma humana, embora tenha a capacidade de subsistência, ela é forma do corpo humano, devendo a ele se unir [De anima,a8,c], sem que haja qualquer meio, seja essencial ou acidental, na causa desta união substancial [De anima,a9,c], encontrando-se ela como forma do corpo inteiramente em todo o corpo e, em qualquer parte do corpo [De anima,a10,c]. De tal modo que a alma humana não pode existir separada do corpo, sem que antes tenha informado e existido no seu corpo; por isso, ela não existe separada do corpo, segundo o seu ser perfeito e completo; e, por isso, sua potência intelectiva, sendo forma do homem, se realiza no homem [De anima, a3,c]. De fato, a única potência da alma que subsiste separada do corpo é a intelectiva, já que a sensitiva se corrompe com o mesmo [De anima,a19,c]. Sendo forma intelectiva do homem, não há uma única forma para todos os homens [CTh.III,86], senão que cada homem individualmente possui a sua, ou seja, o intelecto individual [CTh,III,85]. Por isso, o intelecto que recebe as espécies sensíveis, ou seja, o intelecto possível, é um em cada homem [De anima,a3,c]. Como já dissemos, a alma humana é de natureza espiritual. Ela possui as funções sensitiva e vegetativa, mas é uma mesma alma racional, sensitiva e vegetativa [De anima,a11,c]. A alma intelectiva é superior em ser, dignidade, nobreza e perfeição à alma de natureza corporal, como a vegetativa e a sensitiva. Mas a intelectiva possui, em si mesma, as perfeições sensitiva e vegetativa, como já foi dito. E é necessário que seja assim, pois se não fosse exigir-se-ia no homem três almas, o que é contra a unidade da forma substancial do homem [CTh.III,90-91]. Mas disso não decorre que a natureza da alma seja a soma das suas potências, porque toda potência requer anteriormente ou concomitantemente um ato; é a própria alma intelectiva o ato do qual emana as suas potências [De anima,a12,c], que se distinguem entre si por seus objetos [De anima,a13,c]. Por isso, a alma de natureza espiritual, possui, em si mesma, a perfeição do ser da alma da natureza corporal, sendo ela mesma, imaterial, incorruptível e imortal [STh Iq75,a6,c;De anima,a14,c].

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