As três idades da vida interior – II



INTRODUÇÃO

I. O único necessário.- II. A questão do único necessário em nossa época.- III. Objeto desta obra.- IV. Objeto da teologia ascética e mística.- V. Método da teologia e mística.- VI. Como compreender a distinção entre a ascética e a mística.- VII. Divisão desta obra.
Temo-nos proposto nesta obra fazer a síntese de outras duas anteriores: Perfección cristiana y contemplación, El amor de Dios y la Cruz de Jesús; nas que estudamos, conduzidos pelos princípios de Santo Tomás, os principais problemas da vida espiritual e em particular um que tema apresentado de forma mais explícita nestes últimos anos: A contemplação infusa dos mistérios da fé e a união com DEUS que dela resulta, é uma graça extraordinária, ou se encontra, pelo contrário, adornada na via normal da santidade?
Quiséramos voltar a tratar neste livro destas questões de uma maneira mais simples e por sua vez mais elevada, com a perspectiva necessária para compreender melhor a subordinação que todos os assuntos da vida interior guardam à união com DEUS.
Para conseguir este fim, consideramos em primeiro lugar os fundamentos da vida interior; depois a separação dos obstáculos, o progresso da alma da alma purificada e esclarecida pela luz do ESPÍRITO SANTO, a docilidade que ela deve mostrar com este Divino ESPÍRITO, e finalmente a união com DEUS, as quais conduzem esta docilidade, o espírito de oração e a cruz levada com paciência, agradecimento e amor.
Ao modo de introdução, recordemos sumariamente em que consiste a única coisa necessária a todo cristão, e a forma como esta questão se estabelece urgentemente no momento presente.
I. A ÚNICA COISA NECESSÁRIA
A vida interior, como qualquer um pode facilmente compreendê-lo, é uma forma elevada da conversa íntima que cada um tem consigo mesmo, enquanto se concentra em si, ainda que seja no meio do tumulto das ruas de uma grande cidade. Desde o momento que cesse de conversar com seus semelhantes, o homem conversa interiormente consigo mesmo acerca de qualquer questão que o preocupa. Esta conversa varia muito segundo as diversas épocas da vida; a do ancião não é a mesma que a de um jovem; também é muito diferente segundo o qual o homem seja bom ou mau.
Enquanto o homem busca com seriedade a verdade e o bem, esta conversa íntima consigo mesmo tende a converter-se em uma conversa com DEUS, e pouco a pouco, em vez de buscar-se em todas as coisas a si mesmo, no lugar de tender, consciente ou inconscientemente, a construir-se o centro de tudo que há, tende a busca a DEUS em tudo e substituir o egoísmo pelo amor de DEUS e pelo amor das almas em DEUS. E esta é precisamente a vida interior; ninguém que descure com sinceridade deixará de reconhecer que assim o é.
A única coisa necessária de que falava JESUS[1] a Marta e Maria consistem em dar ouvidos à palavra de DEUS e em viver segundo ela.
A vida interior assim compreendida é em nós algo muito mais profundo e necessário que a vida intelectual ou o cultivo das ciências, mais que a vida artística e a literária, mais que a vida social e política. Não é difícil, infelizmente, encontrar com grandes sábios, matemáticos, físicos, astrônomos, que não possuem em si nenhuma vida interior, estes se entregam aos estudos da ciência como se DEUS não existisse; em seus momentos de concentração não conversam de maneira alguma com ELE. Eles não têm nos momentos de solidão, nenhuma conversa íntima com Ele. Suas vidas parecem, sob certos aspectos, ser a procura da verdade e do bem em certo domínio mais ou menos restrito, mas elas são tão mescladas de amor-próprio e de orgulho intelectual, que nos perguntamos se darão frutos para a eternidade. Muitos artistas, literatos e políticos não ultrapassam esse nível de atividade puramente humana que é, em suma, exterior e superficial. Poder-se-ia afirmar que o fundo de suas almas vive de um bem superior a eles mesmos? A resposta parece negativa.
Isso demonstra que a vida interior, ou a vida da alma com DEUS, há de ser chamada com toda razão a única coisa necessária, pois é através dela que tendemos para o nosso fim último, e por ela nos é assegurada nossa salvação, a qual não se deve separar muito da progressiva santificação, porque esta é a própria via da salvação.
Pode-se dizer que muitos pensam assim: no fim das contas, basta com que eu me salve; e não é necessário ser um santo. Que não seja necessário ser um santo que realize milagres, e cuja santidade seja oficialmente reconhecida pela Igreja, o que é evidente; mas para ir ao céu é preciso empreender o caminho da salvação, e este não é outro que o próprio caminho da santidade: Ninguém entra no céu sem essa santidade que consiste em estar puro de toda falta; toda falta, mesmo venial, deve ser apagada, e a pena devida ao pecado deve ser suportada ou remitida, para que uma alma goze para sempre da visão de DEUS, O veja como Ele se vê e O ame como ELE se ama. Se uma alma entrasse no céu antes da remissão total de suas faltas, não poderia ficar lá, e ela mesma espontaneamente se precipitaria no purgatório para ser purificada.
A vida interior do justo que tende para DEUS e que vive d’ELE és certamente a única coisa necessária; para ser santo não é necessário o ter recebido uma cultura intelectual ou possuir uma grande atividade exterior; basta viver profundamente de DEUS. Isto é o que observamos entre os santos da Igreja primitiva, muitos dos quais eram gente humilde e até escravos; isto é o que vemos num São Francisco, num São Bento José Labre, num Cura d’Ars e em tantos outros.
Todos compreenderam profundamente esta palavra do Salvador: “De que serve ao homem ganhar o universo se ele vem a perder sua alma?” (Mt. XVI, 26). Se se sacrificam tantas coisas para salvar a vida do corpo, que no final há de morrer, que não deveríamos sacrificar para salvar a vida da alma, que deve durar eternamente? O homem não deve amar mais a alma do que o corpo? “Que dará um homem em troca de sua alma?”, acrescenta o Salvador (ibid.). Unum est necessarium, diz também JESUS (Luc X, 42): uma só coisa é necessária, escutar a palavra de Deus e viver segundo ela para salvar a alma. Está aí a melhor parte, que não poderia ser tirada da alma fiel, ainda que ela perdesse todo o resto.
II. A ÚNICA COISA NECESSÁRIA EM NOSSA ÉPOCA
O que acabamos de expor é verdade em todos os tempos, mas a questão da vida interior se estabelece, hoje, de uma maneira mais urgente que em outras épocas menos turvas que a nossa.
A razão é que muitos homens tem se afastado de DEUS e mais, planejam organizar a vida intelectual e a vida social sem ELE. Em conseqüência, os grandes problemas que sempre tem preocupado a humanidade tem tido um novo rumo, trágico às vezes. Querer prescindir de DEUS causa primeira e fim último, conduz ao abismo; e não somente conduz ao abismo, senão que também à miséria física e moral que é pior que o nada. Em conseqüência, os grandes problemas se agravam até a exasperação; e não podemos compreender minimamente que é imprescindível estabelecer novamente o problema religioso e estabelecê-lo desde seus princípios, suas raízes. Uma ou outra: ou um se pronuncia por DEUS ou contra DEUS; este é o problema da vida interior em sua essência mesma. “Qui non est mecum, contra me est“, disse o Salvador (Mat., XII, 30).
É assim como as grandes tendências modernas, científicas ou sociais, apesar dos conflitos surgidos entre elas, e apesar dos seus contrários desígnios, representantes, convergem, queira-se ou não, até a questão fundamental das relações íntimas do homem com DEUS.
A este resultado se chega através de múltiplos desvios. Quando o homem não quer submeter-se aos seus graves deveres religiosos para com Aquele que o criou e é seu Fim Último, e sendo-lhe, de certa maneira, impossível prescindir da religião, se cria uma religião a seu capricho e desejo; põe, por exemplo, sua religião na ciência, ou no culto da justiça social, ou em qualquer ideal humano que acaba por considerar como uma religião, ou uma mística que substitui o ideal superior que abandonou. Volta desta maneira a espada da Realidade suprema, e se estabelece uma multidão de problemas, aos quais não é possível encontrar uma solução senão voltando-se ao problema fundamental das relações íntimas da alma com DEUS.
Qualquer um já ouviu muitas vezes dizer acerca disto – em nossos dias, a ciência pretende passar a ser uma religião; desta maneira o socialismo e o comunismo pretendem ser uma moral científica e se apresentam como um culto apaixonado da justiça. E por esse caminho se esforçam em cativar os espíritos e os corações.
É um fato, no momento presente, que o sábio moderno rende culto escrupuloso ao método científico, de tal forma que parece mais interessado pelo método que pela verdade mesma; se dedicasse semelhante cautela e atenção à sua vida interior, logo chegaria a ser um santo. Mas com freqüência esta religião da ciência se ordena melhor à exaltação do homem que ao Amor de DEUS. Da mesma maneira há de se dizer da atividade social, particularmente tal como se manifesta no socialismo e no comunismo; já que se inspira em uma mística que pretende aspirar a uma transfiguração do homem, negando às vezes, da maneira mais absoluta, os direitos de DEUS.
Isso equivale a dizer que no fundo de todo grande problema se encontra esta grande questão das relações do homem com DEUS. E não há termo médio; há que decidir-se em favor ou contra. Nossa época é um exemplo evidente. A crise econômica mundial do tempo presente nos dá a entender o que os homens podem quando hão querido prescindir-se de DEUS.
Quando pretendem prescindir-se de DEUS, o que é essencial na vida é desprezado. Se a religião não é essencial como algo a ser levado a sério, tem de se buscar em outra coisa algo que seja sério e fundamental. E se o encontra, ou, se pretende encontrá-lo na ciência ou na atividade social. Pretendendo-se realizar atividades aos moldes e sentidos religiosos na investigação da verdade científica ou no estabelecimento da justiça entre as classes e os povos. E depois de algumas considerações vem a dar-se em conta de que se terminou numa imensa catástrofe; e que as relações entre os indivíduos e os problemas são cada dia mais difíceis, ou mesmo impossíveis. É uma coisa evidente, como o disseram Santo Agostinho e Santo Tomás[2], que os mesmos bens materiais, à diferença dos espirituais, não podem pertencer integralmente a muitos ao mesmo tempo. Uma casa, um campo não podem simultaneamente pertencer em sua totalidade a muitos homens, nem o mesmo território a diferentes povos. Daí que o terrível conflito de interesses quando os homens põem, apaixonadamente, seu último fim nestes bens inferiores.
Pelo contrário, gostava de repetir Santo Agostinho, os mesmos bens espirituais podem pertencer simultânea e integralmente a todos e a cada um. Sem diminuir ou perder, podemos possuir reciprocamente, em sua totalidade, a mesma verdade, a mesma virtude e ao mesmo DEUS. Por isso nos disse Nosso Senhor: “Buscai primeiramente o Reino de DEUS e a Sua justiça, e todas as outras coisas se vos acrescentarão” (Mt VI, 33).
E não dar ouvidos a esta lição é trabalhar para a própria ruína. Assim se verifica mais uma vez a palavra do Salmo CXXVI, 1: “Nisi Dominus aedificaverit domum, in vanum laboraverunt qui aedificant eam; nisi Dominus custodierit civitatem, frustra vigilat qui custodit eam”, se DEUS não edifica a casa, em vão trabalharão os que a edificam; se DEUS não guarda a cidade, em vão vigia a sentinela.
Se o que há de essencial e sério na vida se despreza, se deixa de inspirar em nossos deveres para com DEUS e somente nos impulsiona à atividade científica ou social; se o homem se busca constantemente a si mesmo em vez de buscar a DEUS que é o seu fim último, então os fatos não tardam em demonstrar-lhe que se adentrou num caminho impossível que conduz não somente ao nada, mas também à miséria e a um caos insuportável. É necessário voltar a esta palavra do Salvador: O que não está Comigo está contra Mim; e o que não recolhe Comigo, dispersa (Mt, XII, 20). Os fatos o confirmam.
Conclui-se que a religião não pode dar uma resposta eficaz, verdadeiramente realista, aos grandes problemas atuais, enquanto não for uma religião profundamente vivida; a qual não pode fazer uma religião superficial e medíocre, consistente em algumas orações vocais e em algumas cerimônias onde a arte religiosa teria mais lugar que a verdadeira piedade. Portanto, não existe religião profundamente vivida sem esta particular vida interior ou desse diálogo íntimo e freqüente, não somente consigo mesmo, senão com DEUS.
Isto é o que ensinam as últimas encíclicas de S. S. Pio XI. Para responder às aspirações gerais dos povos, naquilo que têm de bom; para as aspirações a justiça e a caridade entre os indivíduos, as classes e os povos, o Pastor supremo escreveu suas Encíclicas sobre CRISTO Rei, sobre sua influência santificadora em todo Seu Corpo Místico, sobre a família, sobre a santidade do matrimônio cristão, sobre as questões sociais, sobre a necessidade da reparação, sobre as missões. Em todas elas se trata do reinado de CRISTO na humanidade. Do que disse, conclui-se que para que conserve a preeminência que deve guardar sobre a atividade científica e sobre a atividade social, a religião, a vida interior, deve ser profunda, deve ser uma verdadeira união com DEUS. Isto é absolutamente necessário.
III. OBJETO DESTA OBRA
Como trataremos aqui da vida interior? Não pensamos ocupar-nos na forma técnica de muitas questões que largamente expõem os teólogos sobre a graça santificante e as virtudes infusas. Temo-las como certas e somente faremos delas menção na medida necessária para compreender o que é a vida espiritual.
Nosso objetivo é convidar as almas a fazerem-se mais interiores e recônditas e a aspirar à união com DEUS. Para conseguir isto é preciso evitar dois perigos.
Com freqüência o espírito que anima a investigação, inclusive nestas matérias, se demora em detalhes de forma tal que o pensamento fica afastado da contemplação das coisas divinas. A maior parte das almas interiores não tem necessidade de muitas dessas investigações indispensáveis ao teólogo; para compreendê-las lhes seria preciso a iniciação filosófica que não possuem, e que em certo sentido as impediria, já que instintivamente e por outra via elas voam bem mais alto, como São Francisco de Assis que via como algo estranho, nos cursos de filosofia de seus religiosos, ocuparem estes em demonstrar a existência de DEUS. Hoje, a especialização às vezes exagerada dos estudos faz com que muitas inteligências fiquem privadas da visão de conjunto necessária para julgar retamente as coisas, inclusive daquelas que caem dentro de sua especialidade, e que não captam nelas as relações que guardam com as demais. O culto do detalhe não deve fazer perder de vista o conjunto. No lugar de espiritualizar-se, o que assim procedera se materializaria, e com pretexto de ciência exata e minuciosa, se afastaria da verdadeira vida interior e da alta sabedoria cristã.
De outra maneira, muitas obras populares em matéria religiosa e não poucos em livros de piedade carecem de sólido fundamento doutrinal. Estas obras populares, em razão da simplificação um tanto material a que está submetida, evita com freqüência o exame de certos problemas fundamentais e difíceis, donde precisamente brotaria a luz, talvez a luz essencial.
A fim de evitar estes dois perigos extremos, seguiremos nós o caminho indicado por Santo Tomás que não foi um escritor popular e que é e será o grande clássico da teologia. Acertou a elevar-se da sabia complexidade de suas primeiras obras, e das Questões disputadas à excelsa simplicidade dos mais formosos e belos artigos da Suma Teológica. E tão bem soube elevar-se que, ao fim de sua vida, absorto na alta contemplação, não pode ditar o fim da Suma Teológica, porque não lhe era possível descer à complexidade de questões e de artigos que inclusive desejava compor.
A demora nos detalhes e a simplificação superficial afastam da contemplação cristã, cada uma a sua maneira, e esta se eleva acima destes desvios como um alto cume até ao qual tendem as almas de oração.
IV. O OBJETO DA TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA
Deixa-se de ver, pelas matérias de que se deve tratar, que a teologia ascética e mística é uma ramificação ou parte da Teologia; uma aplicação da teologia à condução e direção das almas. Há de caminhar, pois guiada pela luz da Revelação, a única que ensina a conhecer em que consiste a vida da graça e a união sobrenatural da alma com DEUS.
Esta parte da teologia é sobretudo um desenvolvimento, um progresso do tratado do amor de DEUS e de dons do ESPÍRITO SANTO, que tem por fim expor as aplicações que deles derivam e conduzir as almas à divina união[3]. De igual modo, a casuística é, em terreno menos elevado, uma aplicação da teologia moral para discernir praticamente o que é obrigatório sob pena de pecado mortal ou venial. A teologia não deve tratar somente dos pecados que se devem evitar, mas também das virtudes que se deve praticar, e da docilidade em seguir as inspirações do ESPÍRITO SANTO. Sob este aspecto, suas aplicações se chamam ascese e mística.
A ascese trata sobre tudo da mortificação dos vícios ou defeitos, e da prática das virtudes. A mística ocupa principalmente da docilidade ao ESPÍRITO SANTO, da contemplação infusa dos mistérios da fé, da união com DEUS que a esta segue, e também das graças extraordinárias, como as visões e revelações que acompanham as vezes a contemplação infusa[4].
Acerca da questão de saber se a ascese se subordina essencialmente à mística, a examinaremos perguntando-nos se a contemplação infusa dos mistérios da fé e a união com DEUS que dela procede, é uma graça em si extraordinária, como as visões e as revelações; ou se não é melhor, nos perfeitos, o exercício elevado, mas normal, dos dons do ESPÍRITO SANTO que estão em todos os justos. A resposta a esta questão, largamente discutida em nossos dias, será a conclusão desta obra.
V. O MÉTODO DA TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA
Acerca do método que vamos seguir, nos limitaremos aqui ao essencial[5]. Importa evitar dois desvios contrários, fáceis de compreender. Uns são provenientes do uso exclusivo do método descritivo ou indutivo; outros provenientes do extremo oposto. O emprego quase exclusivo do método descritivo ou indutivo nos levaria a esquecer de que a teologia ascética e mística é um ramo da teologia, e finalmente a considerá-la como uma parte da psicologia experimental. Com isto não faríamos senão reunir os materiais da teologia mística. E seria empobrecê-la e diminuí-la absolutamente, ao esquecermo-nos da luz diretiva. Pois a mística deve ser tratada deixando-se guiar pelos grandes princípios da teologia acerca da vida da graça; desta forma tudo se ilumina, e nos encontramos diante de uma ciência, não diante uma coleção de fenômenos mais ou menos bem descritos. Além disso, se empregarmos quase exclusivamente o método descritivo ficaríamos impressionados pelos sinais mais ou menos sensíveis dos estados místicos, e não pela lei fundamental do progresso da graça cuja sobrenaturalidade essencial é de uma ordem muito elevada para ser objeto da observação. Em conseqüência, correríamos o risco de prestar mais atenção a certas graças extraordinárias e de certo modo exteriores como as visões, as revelações, os estigmas, etc., que ao desenvolvimento normal e elevado da graça santificante, das virtudes infusas e dos dons do ESPÍRITO SANTO. Por esse caminho poderíamos ser levados a confundir o que é extraordinário em si aquilo com o que não é em si de fato, ou seja, aquilo que é elevado, mas normal; a confundir a união íntima com DEUS em suas formas elevadas, com as graças extraordinárias e relativamente inferiores que às vezes a acompanham.
Enfim, o emprego exclusivo do método descritivo poderia conceder a demasiada importância a este fato fácil de comprovar: que a união com DEUS e a contemplação infusa dos mistérios da fé são relativamente raras. O que poderia levar-nos a pensar que nem todas as almas interiores e generosas estão chamadas a ela, nem sequer com uma vocação universal e remota[6]. Não equivaleria isso a duvidar da palavra de Nosso Senhor tantas vezes repetida aqui pelos místicos: Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos?
É preciso guardar-se, por outro lado, de outro desvio proveniente do suo quase exclusive do método teológico dedutivo.
Certos espíritos um tanto simplistas estariam tentados a buscar a solução dos mais difíceis problemas da espiritualidade, partindo da doutrina corrente na teologia acerca das virtudes infusas e dos dons, tal como nos é exposta por Santo Tomás, sem considerar suficientemente as admiráveis descrições feitas por Santa Teresa, São João da Cruz, São Francisco de Sales e outros grandes santos, acerca dos diferentes graus da vida espiritual, particularmente da união mística.
Contudo, é a estes fatos aos que se devem aplicar os princípios; ou melhor dizendo, estes fatos, uma vez bem compreendidos, são os que é preciso esclarecer à luz dos princípios, sobretudo a fim de discernir o que existe neles de verdadeiramente extraordinário, e o que é eminente, mas normal.
O emprego excessivo do método dedutivo poderia levar aqui a uma confusão totalmente aposta já assinalada anteriormente. Como, segundo a tradição e segundo Santo Tomás, os sete dons do ESPÍRITO SANTO residem em toda alma no estado de graça, poderia um ver-se inclinado a crer que o estado místico ou a contemplação infusa são mais freqüentes, e se poderia confundir com estes, o que não é senão seu preâmbulo, como a oração afetiva simplificada[7]. E assim um estaria tentado a não considerar, como se merece, alguns fenômenos de certos graus da união mística, como a inibição dos sentidos e os êxtases, e se cairia assim no extremo oposto ao dos partidários exclusivos do método descritivo.
Praticamente e como conseqüências desses dois excessos existem igualmente dois extremos que evitar na direção: fazer que as almas abandonem a via ascética demasiadamente preparada ou demasiadamente tardia. Disso falaremos detalhadamente ao longo deste livro.
Do que foi dito, conclui-se que é preciso unir os dois métodos, indutivo e dedutivo, analítico e sintético.
É absolutamente necessário analisar as noções e os fatos da vida espiritual; em primeiro lugar, analisar as noções de vida interior e de perfeição cristã, de santidade, que nos oferece o Evangelho, para bem compreender o fim ensinado pelo mesmo Salvador a todas as almas interiores, e para compreendê-lo em toda sua grandeza, sem de modo algum diminuí-lo.
Logo, é preciso analisar os fatos: imperfeição dos principiantes, purificação ativa e passiva, diversos graus da união etc., para bem distinguir o que nos é essencial e o que acidental e acessório.
Depois deste trabalho de análise, há de vir à síntese e o demonstrar o que é necessário ou muito útil e conveniente para chegar à plena perfeição da vida cristã, e o que, pelo contrário, é propriamente extraordinário e de forma alguma exigente para a mais elevada santidade[8].


Não poucas destas questões são muito difíceis, seja por causa da elevação do objeto de que se trata, seja em razão das contingências que em sua aplicação saem ao passo, e que dependem ou do temperamento das almas dirigidas, ou da libérrima vontade de Deus, que, por exemplo, concede às vezes a graça da contemplação a alguns principiantes e a retira momentaneamente aos adiantados. Devido a estas múltiplos dificuldades, o estudo da ascética e da mística exige profundo conhecimento de teologia, sobretudo dos tratados da graça, das virtudes infusas, dos dons do Espírito Santo em suas relações com os grandes mistérios da Trindade, da Incarnação, da Redenção e da Eucaristia. Exige deste modo o conhecimento dos grandes autores de obras de espiritualidade, especialmente os assinalados pela Igreja como autoridades nestas questões.


[1] Luc, X, 42.
[2] Cf. SANTO TOMÁS, I, II, q. 28, a. 4, ad 2; III, q. 23, a. 1, ad 3.
[3] Por isso pôde São Francisco de Sales desenvolver, sob o título Tratado do amor de Deus, toda a matéria concernente à ascética e mística.
[4] Trata-se aqui da teologia mística doutrinal; recorde-se que nos séculos XVI e XVII chama-se as vezes “teologia mística” à contemplação infusa.
[5] Na obra ‘Perfección cristiana y contemplación, I, p. 1-40’, temos falado mais minuciosamente  do objeto e método da teologia ascética e mística (método descritivo, método dedutivo, união de ambos), e temos examinado, segundo os diversos autores antigos e modernos, o modo de estabelecer o problema relativo à distinção entre ascética e mística.
[6] Poderia também não se chegar a discutir suficientemente esta vocação universal e remota, da individual e próxima.
[7] Alguns autores, procedendo assim demasiado a priori, têm sustentado que a influência atual dos dons do ESPÍRITO SANTO é necessária para que seja possível ainda o mais insignificante ato (remissus) das virtudes infusas, por exemplo, um ato de fé, do que estivera ausente a mínima penetração e gosto do mistério que se crê.
[8] Para resolver a questão: “É louvável desejar humildemente a contemplação infusa dos mistérios da fé e a união com DEUS que a ela segue?”, é indubitável que não basta conhecer por fora, por sinais, a dita contemplação e união. É preciso conhecer sua natureza, saber se em si mesmas são algo extraordinário ou bem elevado, mas normal. O emprego quase exclusivo do método descritivo nos inclinaria a considerar esta questão acerca da natureza como um assunto quase insondável, do que bastaria dizer algumas palavras ao fim de um tratado. Mas a verdade é que se trata de uma importante questão que merece ser estudada ex profeso (N.d.T. profeso = mestre).
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