Os desejos

Todos sabem que não se deve desejar nada de mal, porque o desejo de uma coisa ilícita torna o coração mau. Mas eu acrescento que não se deve desejar nada que é perigoso para a alma, como bailes, jogos e outros divertimentos, honras e cargos importantes, visões e êxtases; tudo isso traz muita vaidade consigo e é sujeito a muitos perigos e ilusões. Não desejes também as coisas que ainda estão para vir num futuro remoto, como fazem muitos, dissipando e cansando inutilmente o coração e expondo-o continuamente a muitas inquietações. Se um jovem ambiciona ardentemente ocupar um cargo precocemente, de que lhe poderá servir este desejo? Se uma mulher casada deseja entrar no convento: a que propósito? Se pretendo comprar a propriedade de outrem antes que ele queira me ceder, não é isto perder o meu tempo? Se, estando doente, desejo pregar, celebrar Missa ou visitar enfermos ou fazer exercícios dos que que tem saúde, não são estes desejos vãos, posto que nada disso está em meu poder? Entretanto estes desejos inúteis ocupam o lugar doutros que deveria ter e que Deus manda que se efetuem, como os de ser paciente, mortificando, obediente e manso em meus sofrimentos. Mas em geral os nossos desejos se parecem com os das mulheres doentes, que no outono desejam cerejas frescas e uvas novas na primavera.
Não aprovo absolutamente que uma pessoa ande a aspirar a um gênero de vida incompatível com os seus deveres, ou exercícios inconvenientes ao seu estado, porque as pretensões vãs dissipam o coração, atenuando-lhe as forças para os exercícios necessários. Eu perderia meu tempo, se me pusesse a desejar a solidão dos Cartuchos e esta aspiração tomaria o lugar da que eu deveria ter, de preencher bem os meus deveres atuais. Tão pouco quisera que desejasses ter maior engenho, porque são desejos frívolos e estariam em lugar daquele que todos devem ter, de cultivar o seu assim como é; ou, enfim, que desejasses meios que se não possuem de servir a Deus, em vez de empregar fielmente os que se têm à mão. Tudo isso há de se entender dos desejos que se apossam do coração, porque os simples e passageiros não prejudicam muito, visto não serem permanentes.
Quanto às cruzes, é bom desejá-las somente na proporção e sob a condição de que saibas suportar bem aquelas que tens. É um absurdo desejar o martírio e não poder suportar uma pequenina injúria. O inimigo nos engana muitas vezes, inspirando-nos desejos para coisa grandes que estão ainda longe ou mesmo nunca se hão de realizar, afim de afastar o nosso coração das presentes, que, por menores que sejam, seriam para nós uma fonte abundante de virtudes e merecimentos. Combatemos na mente os monstros da África e nos deixamos matar pelas pequeninas serpentes que rastejam no caminho, por não lhes prestar a atenção necessária.
Não desejes também ter tentações, que isto seria temeridade; mas prepara-te para resistir-lhes vigorosamente, quando vierem.
A variedade e a quantidade das iguarias sobrecarregam o estômago e, se é fraco, o arruinam; do mesmo modo a quantidade de desejos para coisas espirituais embaraçam sempre o coração e, se são de coisas mundanas, o corrompem inteiramente.
Nossa alma, uma vez purificada de suas más inclinações, sente um grande anelo de coisas espirituais; anseia por mil espécies de exercícios de piedade, de mortificação, de penitência, de caridade, de humildade, de oração. Esta fome espiritual é uma sinal muito bom; mas na convalescença de uma doença é preciso examinar-se se se pode digerir tudo o que se apetece. Discerne, pois, e escolhe os teus desejos, segundo o conselho de teu diretor espiritual, e procura aqueles que ele aprovar; fazendo assim, Deus te enviará outros oportunamente, quando forem úteis para o teu adiantamento espiritual. Não digo que se perca alguma espécie de desejos bons, mas que sejam regulados e que se deixe amadurecer no coração os que ainda estão de vez, aplicando a pôr em prática os que já estão maduros. Há de se entender isto mesmo dos desejos de coisas mundanas, porque não há outro meio de se livrar do desassossego e inquietação.
Tirado do livro de São Francisco de Sales, Filotéia, páginas 296-299.
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