TEOLOGIA DOGMÁTICA, Ludwig Ott – (I)

O AVS tem a alegria de traduzir um excelente livro de Teologia Dogmática. Seu original em espanhol pode ser encontrado em nossa biblioteca digital.
Bom proveito!
INTRODUÇÃO À TEOLOGIA DOGMÁTICA
NOÇÃO E OBJETO DA TEOLOGIA

1. Noção

O termo teologia significa etimologicamente «tratado de Deus» (lógos perí theou, «de divinitate ratio sive sermo» (SANTO AGOSTINHO, De Civ. Dei VIII 1). Teologia é, portanto, a ciência ou estudo acerca de Deus.


2. Objeto

O objeto material primeiro da teologia é Deus; o secundário, as coisas criadas assim que se encontram em relação com Deus : «Omnia pertractantur in sacra doutrina sub ratione Dei, vel quia sunt ipse Deus, vel quia habent ordinem ad Deum ut ad principium et finem» (S.Th. I, I, 7).

Em relação ao objeto formal, é necessário distinguir entre a teologia natural e a sobrenatural. A teologia natural, iniciada por Platão (denominada theologia naturalis por Santo Agostinho, seguindo a expressão de Varrón, e que do século XIX foi chamada também teodicéia), constitui o ponto culminante da filosofia e pode definir-se como a exposição científica das verdades acerca de Deus, assim que estas são conhecíveis pela luz da razão natural. De outro modo, a teologia sobrenatural é a exposição científica das verdades a respeito de Deus, assim que estas são conhecíveis pela luz da revelação divina. O objeto formal da teologia natural é Deus, tal como lhe conhecemos pela luz da razão natural através das coisas criadas; o objeto formal da teologia sobrenatural é Deus, tal como lhe conhecemos pela fé mediante a luz da revelação (cf. SÃO AGOSTINHO, De Civ. Dei VI 5; S.Th. I, Q.1, ad 2).

A teologia natural e a sobrenatural se distinguem entre si: pelo princípio cognitivo (a razão natural — a razão iluminada pela fé), por meio do conhecimento (as coisas criadas — a revelação divina) e pelo objeto formal (Deus uno – Deus uno e trino).

PRINCÍPIO COGNITIVO
MEDIANTE
OBJETO FORMAL
TEODICÉIA
As coisas criadas.
A razão natural.
DEUS UNO.
TEOLOGIA SOBRENATURAL
A revelação divina
A revelação.
DEUS UNO E TRINO.
§ 2. A TEOLOGIA COMO CIÊNCIA

1. Caráter científico da teologia

a) Segundo a doutrina de Santo Tomás, a teologia é verdadeira ciência, porque parte de verdades fundamentais absolutamente certas (principia), as verdades reveladas; extrai delas, mediante um método de argumentação estritamente científico, novos conhecimentos, as conclusões teológicas (conclusões); e as reúne todas em um sistema organizado.

Não obstante, a teologia é uma ciência subordinada (scientia subalternata), porque seus princípios não são intrinsecamente evidentes para nós, mas sim os recebe de uma ciência superior, do saber de Deus comunicado por revelação ; S.th. t 1, 2: «Sacra doutrina est scientia, quia procedit ex-principiis notis lumine superioris scientiae, quae scilicet est scientia Dei et beatorum».

A escolástica se dedicou exclusivamente ao estudo da teologia especulativa. O florescimento da investigação histórica a começos da idade moderna ampliou o conceito de ciência, e esta ampliação aplicou-se também na teologia positiva. Por ciência em sentido objetivo se entende hoje em dia um sistema de conhecimentos metodicamente elaborados a respeito de um objeto que guarde unidade. A teologia possui um objeto homogêneo, serve-se de um procedimento metódico de acordo com o seu objeto e reúne os resultados obtidos em um sistema organizado. A sujeição à autoridade de Deus e da Igreja, não diminui absolutamente o caráter científico da teologia, pois tal autoridade pertence à substância mesma da verdade revelada por Deus e depositada nas mãos da Igreja, e, portanto, não é possível separá-la do objeto da teologia.

b) A teologia se eleva por cima das outras ciências pela excelência de seu objeto, pela suprema certeza de seus conhecimentos, que se fundam no saber infalível de Deus, e por sua ordenação direta ao supremo fim do homem (cf. S.Th. 1,1, Q.5).

c) A teologia, segundo Santo Tomás, é ciência especulativa e prática ao mesmo tempo, pois por uma parte estuda a Deus, verdade suprema, e a todas as criaturas em suas relações com Deus, e por outra estuda também, sempre à luz da verdade divina, a conduta moral do homem em ordem a seu fim último sobrenatural. A parte especulativa possui a primazia, pois a ciência teológica aspira acima de tudo a conhecer a verdade divina, e também porque o último fim da conduta moral consiste no perfeito conhecimento de Deus (S.Th. 11, 4).

A escola franciscana medieval estima que a teologia seja uma ciência prática ou afetiva, porque os conhecimentos teológicos movem por sua mesma natureza o afeto. O fim primitivo da teologia é a perfeição moral do homem: cui boni flamas» (BOAVENTURA, Proemium in IV livros Sent., Q. 3).

A razão última desta diversa apreciação do problema radica na distinta estimativa das potências da alma. Santo Tomás e sua escola reconhecem com o Aristóteles a primazia do intelecto; a escola franciscana, em troca, decide-se com Santo Agostinho pela primazia da vontade.

d) A teologia é sabedoria, pois estuda a causa profundíssima e última de todas as coisas. É a suprema sabedoria, porque considera essa última causa à luz da verdade revelada pelo mesmo saber de Deus (cf. S.Th. I, I, Q.6).

2. A ciência da fé

A teologia é ciência da . Pressupõe, pois, a fé em sentido objetivo (fides quae creditur) e em sentido subjetivo (fides qua creditur). A teologia compartilha com a fé as fontes de seus conhecimentos, que são: a Sagrada Escritura e a tradição (regra remota de fé) e as declarações do Magistério da Igreja (regra próxima de fé). Mas a teologia, assim enquanto ciência da fé, possui também um princípio cognitivo especial, ou seja, a razão humana, por meio da qual procura penetrar e compreender o quanto é possível o conteúdo e a conexão do sistema de verdades sobrenaturais. Santo Agostinho expressa este mesmo pensamento nestas palavras: Crede ut intelligas (Sermo 43, 7, 9); Santo Anselmo de Cantuária expressa-se também da seguinte maneira: [A teologia é] fides quaerens intellectune (Proslogion, Proemio), e: Credo ut intelligam (Proslógion 1); Ricardo de São Vitor disse estas palavras: «Properemus de fide ad cognitionem. Satagamus, in quantum possumus, ut intelligamus quod credimus» (De Trinitate, Prólogo).

3. Divisão

A teologia é uma só ciência, pois não possui mais que um só objeto formal : Deus e as criaturas assim que são objeto da revelação divina. Como a revelação é uma participação do saber divino, a teologia, como afirma Santo Tomam, é em certa maneira uma gravação do saber divino, único e absolutamente simples, na mente criada do homem (S.Th. 11, 3).

Segundo os diversos fins que se proponha, a ciência teológica, sendo uma sozinha, pode dividir-se nos seguintes ramos ou especialidades:

a) Teologia dogmática, incluindo também a teologia fundamental que serve de apóie ao dogma.
b) Teologia histórico-bíblica: Introdução à Sagrada Escritura, hermenêutica, exegese; história eclesiástica, história dos dogmas, história da liturgia, história do direito canônico, patrologia.
c) Teologia prática: Teologia moral, direito canônico, teologia pastoral com a catequética e a homilética.
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