Sobre a morte de meu Bispo Emérito

Por Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Desejo escrever melhor em outra ocasião, mas não quero deixar este momento em branco. No sábado passado, 8 de janeiro, por volta das 9 horas, faleceu Dom Manoel Pestana Filho, em Santos (SP). A Providência Divina quis que ele morresse na mesma cidade onde nascera e fora ordenado Bispo.

Estava lá de viagem, em visita a seus familiares e amigos. Faleceu no convento das irmãs da Toca de Assis, antes que pudesse retornar a sua casa em Anápolis (GO). O motivo da morte parece ter sido um enfarto.

Bispo Diocesano de Anápolis de 1979 a 2004, Dom Manoel conseguiu atrair a sua diocese do Centro-Oeste brasileiro gente de toda a parte. Ouvia-se dizer que lá havia um Bispo corajoso, fiel ao Magistério, obediente à Igreja. Fora apelidado “um novo Atanásio” por Dom Marcos Barbosa, monge beneditino do Rio de Janeiro.

Da Alemanha, os cônegos regulares da recém-restaurada Ordem da Santa Cruz vieram para Anápolis onde fundaram o “Institutum Sapientiae“, com o carisma específico de se dedicar a formação do clero. Era lá que os seminaristas diocesanos (inclusive eu) tinham suas aulas.

Quanto ao seminário, Dom Manoel empenhou-se pessoalmente em construí-lo. As primeiras instalações foram sua própria residência episcopal. O corpo docente era constituído (quase?) exclusivamente pelo Bispo, até que os cônegos regulares viessem ajudá-lo.

Quando, atraído por sua fama, transferi-me da Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde estudava, para a Diocese de Anápolis, em 1989, o seminário Imaculado de Maria funcionava, não mais na casa episcopal, mas em outro lugar provisório: a “casa do sacerdote e das vocações sacerdotais”, projetada para servir de abrigo a padres idosos. Somente bem mais tarde, em 2004, seria inaugurado o prédio definitivo que hoje abriga os seminaristas.

Para falar a verdade, quando cheguei, percebi que a Diocese de Anápolis não tinha nada de mais. Era simplesmente uma diocese católica. No seminário rezava-se o terço, fazia-se adoração eucarística e leitura espiritual. Falava-se de Nossa Senhora com a familiaridade de filhos, sem aquele temor constante de evitar eventuais “exageros”. Na faculdade, estudava-se a filosofia tomista e a teologia católica. Grande apreço era dado aos documentos do Concílio Vaticano II, que serviram de base para diversas das disciplinas que estudei. Quanto à liturgia, encorajava-se recitar o “Novus Ordo Missae“, do Papa Paulo VI.

Nunca vi uma ordem de Dom Manoel obrigando os padres a vestirem batina. No entanto, nós o imitávamos espontaneamente. Sua mais eloquente pregação era o exemplo.

Ao contrário do que falsamente foi depois atribuído a ele, Dom Manoel tinha um espírito muito aberto. Desejava a unidade, mas não exigia a uniformidade. Respeitava o carisma que o Espírito Santo suscitava em cada pessoa, em cada grupo, em cada movimento, em cada comunidade.

Nunca o vi orando em voz alta e de mãos levantadas. No entanto, ele se dava muito bem com os membros da Renovação Carismática Católica (RCC), desde fossem fiéis a fé e à moral católicas. Quando se falava dos abusos da RCC, ele replicava dizendo que cabia aos padres vigiar para corrigi-los. “Mas – dizia ele sempre – não devemos apagar a mecha que ainda fumega“.

Todas as vezes em que presenciei Dom Manoel celebrar, fosse em público, fosse em privado, na capela de sua residência, ele usou o “Novus Ordo Missae” (forma ordinária). No entanto, ela não se importava se em sua Diocese algum sacerdote quisesse celebrar a Missa de São Pio VI (forma extraordinária). Nem recusava algum convite de celebrá-la se alguém lhe pedisse.

Ele gostava de repetir um adágio de autoria, se não me engano, do grande reformador São Carlos Borromeu: “omnia videre, multa tollerare, pauca corrigere” (ver tudo, tolerar muitas coisas, corrigir poucas). As poucas coisas que ele se sentiu obrigado a corrigir custaram-lhe uma violenta perseguição. Uma delas foi a introdução da confissão auricular e individual, tal como prescreve o Direito Canônico. Conta-se que, recém-chegado à Diocese, ao anunciar que na Catedral havia padres prontos para ouvir confissões, ele foi alvo de uma grande vaia. Após essa humilhação pública, os que restaram dirigiram-se aos sacerdote a fim de se confessarem.

Suas refeições eram sempre simples. Bondosamente ele dividia sua mesa com qualquer visitante, até o mais ocasional. Às sextas-feiras, ele dava folga à cozinheira. Era o seu dia de jejum. Certa vez, almoçando em sua casa, fiquei sabendo que ele próprio preparara o delicioso “estrogonofe de atum” que estava sendo servido.

Sua disponibilidade contínua para com o povo, fazia com que ele não encontrasse tempo para escrever livros. Escreveu numerosos (e inflamados) artigos, entre os quais aquele que em 1987 valeu-lhe o título de “novo Atanásio” dado por Dom Marcos Barbosa. Mas não se dava o direito de concentrar-se para escrever do início ao fim uma obra longa. A única exceção foi seu livro “Igreja doméstica”, sobre o matrimônio e a família, publicado em 1980.

Embora sempre estivesse risonho e bem humorado, havia certas coisas que o enchiam daquela ira santa que experimentou Jesus diante dos vendilhões no Templo. Uma delas era o aborto. Outra era o atentado à inocência das crianças. A família era tema recorrente em suas pregações. Não conseguia conceber um apostolado que não fosse centrado na união perpétua de vida e de amor entre um homem e uma mulher, com abertura à geração e educação da prole.

Foi ele que em pessoa resolveu fundar em Anápolis o movimento Pró-Vida em 1989, quando recebeu em sua diocese a visita de um grupo de militantes da “Human Life International” (HLI) dos Estados Unidos, acompanhados de Mons. Ney Sá Earp, grande líder pró-vida do Rio de Janeiro. O Pró-Vida de Anápolis funcionou de início na própria Cúria Diocesana, dirigido pessoalmente por ele, juntamente com alguns leigos. De lá saíam os que iam aconselhar gestantes, dar palestras em escolas e fazer manifestações contra o aborto. Ele próprio introduziu o costume de se fazer, em cada dia 28 de dezembro, a Marcha dos Santos Inocentes, na qual crianças atravessavam as ruas da cidade enquanto adultos falavam ao megafone contra o aborto.

Quando, assustado pelo perigo da iminente legalização do aborto no Brasil, sugeri a Dom Manoel que organizássemos uma caravana a Brasília, a resposta foi um “sim” entusiástico. Em 16 de agosto de 1996, ele se dirigia à Praça dos Três Poderes juntamente com cerca de 3000 pessoas portando faixas e cartazes pró-vida. Naquele ano e no ano seguinte, estava em pauta o perigoso Projeto de Lei 20/91, que pretendia obrigar o SUS a praticar aborto. Quase toda semana tínhamos que ir a Brasília em ônibus fretados para impedir a aprovação do projeto. Conosco estava sempre Dom Manoel, que deixava de lado todos os seus afazeres na Cúria Diocesana.

O grande legado de Dom Manoel foi a criação do Pró-Vida de Anápolis, que foi registrado em cartório, com personalidade jurídica, somente em 1997, e subsiste até hoje. No Estatuto, ele fez questão de incluir a defesa da família ao lado da defesa da vida. E entre os objetivos, colocou a formação para a castidade.

Os que se consideram adeptos do progresso, deveriam ter conhecido a figura desse Bispo. Era fascinado pelas novas tecnologias a serviço da evangelização: rádio, televisão, cinema, Internet. Tinha o sonho de criar uma emissora de rádio e uma de televisão na Diocese. Prestigiou pessoalmente a inauguração da Rede Vida, que ele via como uma grande esperança de penetração do Evangelho nos lares católicos. Mesmo antes que a Internet chegasse ao Brasil, ele já procurava fazer os seminaristas se familiarizarem com o recurso à informática. Em 1996, ele aprovou com entusiasmo o sítio do Pró-Vida de Anápolis, uma das primeiras páginas a entrar no ar em defesa da vida e da família. Tudo que era inovação, desde que não ferisse o imutável depósito da fé, era bem-vindo.

A paixão de Dom Manoel pelos livros se manifesta em sua colossal biblioteca, que foi colecionando ao longo dos anos. Depois de se tornar emérito, em 2004, foi difícil terminar de catalogar toda aquela multidão de obras. Ele, porém, não se dava por satisfeito, e estava sempre comprando “coisas novas e velhas”: livros recém-editados ou preciosidades vendidas no “sebo”.

Sempre com uma saúde debilitada, há muitos anos ele se dizia “moribundo em precário estado de conservação”. Já havia sido levado várias vezes à UTI e recebido outras tantas vezes a Unção dos Enfermos. Ultimamente fora bem sucedido em uma cirurgia nos joelhos, que fez com que pudesse andar (embora com o auxílio de uma bengala) sem necessidade da cadeira de rodas. Não esperávamos que ele morresse no dia 8, antes de retornar a nós. Mas, pensando bem, há muito não deveríamos nos surpreender com uma eventual (embora triste) notícia de sua morte.

Há poucos meses, em visita a sua casa, eu lhe falara do plano de ele terminar seus dias em uma nova sede do Pró-Vida de Anápolis, que seria construída em um terreno a ele doado em 1989. Ele ficou muito entusiasmado. Respondeu sorrindo e batendo as mãos. Deus porém preparava para ele uma casa melhor. E em um prazo menor.

Uma das coisas que deve ter acelerado sua morte foi sua angústia (mortal?) pela situação política do Brasil. Ele se afligia sobremaneira ao ver nosso país ser invadido e dominado pelo terrorismo vermelho, que não poupa o respeito à vida nem à família. Nestas últimas eleições, ele lançou um apelo ardente a seus irmãos no episcopado (http://www.providaanapolis.org.br/apelard.htm). Sua voz encontrou eco em alguns Bispos, em especial os do Regional Sul 1, que se coligaram para denunciar o plano do PT de implantar a cultura da morte no país. Quando foi anunciada a vitória de Dilma, ele se abalou sobremaneira. No entanto, escreveu-me recomendando coragem, uma vez que “uma batalha perdida não é uma guerra desperdiçada”. E ainda: “Deus não exige de nós a vitória, mas a luta”.

A morte de Dom Manoel está longe de ser um sossego para os promotores do aborto. Ao contrário: à semelhança do grão de trigo, que só dá frutos quando morre, da morte desse Bispo devemos esperar grandes frutos para nossa terra. Ele morreu como vítima, oferecida com Cristo em nosso favor. Agora, ganhamos um intercessor junto ao Pai.

A Dom Manoel, sepultado na Catedral ontem, minha saudade, minha gratidão e minha admiração. Mas sobretudo meu amor.

Lembre-se de nós, que gememos e choramos neste vale de lágrimas.

Permita-me repetir a jaculatória que o senhor mesmo nos ensinou:

“Coração Imaculado de Maria, livrai-nos da maldição do aborto”.

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