O mistério da Igreja: FÉ E TEOLOGIA

Por Padre Murilo Teixeira Leite-Penido


A cultura religiosa


Só faz o mal quem ignora, sentenciava Sócrates, pelo que o sébio deveria ter por principal cuidado espancar as trevas intelectuais; com a luz a refulgir, reinaria, por via de consequência, a virtude. Ideal racionalista, que atravessou os séculos e anima ainda o sonho pueril e perigoso do cientificismo; sob forma aliás decaída, pois que Sócrates pelo menos ensinava moral, enquanto ao ingênuo cientificista se lhe afigura regenerar o mundo espargindo cultura – como se a barbárie científica não fosse uma realidade!

A quem não vive perdido na utopia, mostram os fatos a possibilidade de percebermos claramente a verdade moral, desobedecendo-lhe todavia. Não apenas inteligência, senão ainda vontade livre, tal é o homem. Conheça embora os preceitos da ética e lhes admita a validez, pode ainda contraí-los, pecar. Para não falar em Ovídio, já o experimentava S. Paulo: “O querer está em mim, mas não consigo realizar o bem; porque não faço o bem que desejo, mas o mal qu enão quero, esse faço” (Rm 7, 18-19).

Afagaria pois perigosa ilusão, quem cuidasse que a instrução religiosa por si só haveria de gerar católicos sem jaça. Aí está a triste e cotidiana experiência a patentear como profundo conhecimento do dogma e da moral é compatível com medíocre vida cristã. Todos nós já encontramos católicos esclarecidos que prevaricam quanto podem. De ordinário, culpam-se os métodos catequéticos, a pedagogia cristã. Revela esta crítica profunda ilusão. A força de agir sobre a matéria bruta com resultados infalíveis, imaginamos poder atingir igual “eficiência” no trato com os homens. Esquecemos que estes não são máquinas, mas sim pessoas livres. O  pedagogo, ainda quando logra – rara vez – penetrar além da superfície do eu, vê escapar-lhe a região tenebrosa onde se entricheira, inviolável, o livre arbítrio, com seu terrível poder de resistir ao mesmo DEUS. Porventura não era JESUS o Sumo Pedagogo? Não formou os Doze com zelo clarividente e indefesso, ensinando-lhes as mais sublimes doutrinas, obrando diante deles os mais estupendos milagres, arrastando-os pelos mais comovedores exemplos, seduzindo-os pela magia de Sua personalidade? Não obstante, houve entre os Doze um traidor. Judas deveria ter exterminado para sempre o socratismo.

Poderíamos, é verdade, tentar enfraquecer ou mesmo destruir o poder do livre arbítrio, à semelhança dos totalitários, procurando transformar os homens em autômatos. Mas seria a negação mesma do cristianismo. Cristo não quer escravos, mas ser livremente servido. Para este serviço, não basta a instrução religiosa; deve haver escolha pessoalíssima.

Sem embargo, ilusão pior ainda seria enveredar pelo caminho oposto, e imaginar que a ignorância religiosa faria brotar santos. De novo, vem a experiência mostrar que homens sem conta se afastam da religião, por não a conhecerem ou conhecerem-na mal. Ignoram que verdades a Igreja propõe à nossa crença, ou tomam por dogma o que jamais foi definido, ou não são incapazes de responder à mais comezinha objeção dos incrédulos, ou ainda parece-lhes o Credo, repelente amontoado de asserções ininteligíveis e sem relação com a vida real.

Incontáveis formas pode revestir a ignorância religiosa. Todas são danosas. E para nos restringir ao problema brasileiro, é fato que o desconhecimento da religião se nos antolha como fonte de deploráveis superstições populares. Descobrimo-lo também – pelo menos em parte – ao investigarmos a origem do pior perigo espiritual que nos ameaça: o espiritismo.

Chegada a hora de passar deste mundo ao PAI, CRISTO JESUS ordenou aos apóstolos: “Ide, ensinai a todas as gentes” (Mt 28, 19). “E eles, tendo partido, pregaram por toda a parte” (Mc 16, 20). Fiel ao preceito do Senhor e ao exemplo dos apóstolos, a Igreja sempre considerou a doutrinação como uma das suas missões essenciais. Tem presentes as interrogações de S. Paulo: ” Todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão n’Aquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não há quem lhes pregue?” (Rm 10, 13-15).

Se em todos os tempos, a Igreja considerou a ignorância religiosa com um grande mal, que será em nossa época de indiferentismo generalizado e do ateísmo militante? Dir-se-ia que a humanidade forceja como nunca para esquecer-se de DEUS, a fim de poder pecar sem remorsos.

De certo, conhecer o catolicismo longe está de ser tudo, porém é o indispensável pré-requisito à prática da religião. Por sermos cristãos, não deixamos de ser homens, ora, comportamento cristão será tão somente aquele que for norteado por uma inteligência iluminada pela verdade cristã.

Aliás, o dogma não é apenas preâmbulo da moral evangélica. Se nossa vontade deve ser servir a DEUS, obedecendo à lei promulgada por CRISTO, nossa inteligência deve por igual servi-LO conhecendo e assimilando a verdade Revelada pelo Senhor.

Membros vivos de CRISTO, como não desejaríamos nos aprofundar no conhecimento dos mistérios de nossa Cabeça? Como fecharíamos os olhos ao afluxo de luz que dimana d’Aquele que é Luz? Pensamento Eterno do PAI, o VERBO não se Incarna para apagar em nós o pensamento, mas para aguçá-lo, fortificá-lo, elevá-lo a um nível que por si só jamais atingiria. Nossa vida cristã não pode ser vida de embotados, senão vida de seres pensantes, divinamente pensantes.

Ensina S.Paulo que pela fé CRISTO habita em nós (Ef 3, 17). Dando-nos a Sua verdade, dá-Se a nós; faz-nos partícipes de Seu divino saber: “DEUS nunca foi visto por pessoa alguma, mas o FILHO Unigênito que está no seio do PAI, esse O fez conhecer” (Jo 1, 18). É um raio do conhecimento recebido pelo FILHO, do PAI, que veio iluminar nossas tenebrosas inteligências.

Seria, pois, desprezar tamanha luz, professar nossa fé como fonógrafos, não nós esforçamos por assimmilá-la através de nossos conceitos humanos. Devemos fazê-lo humildade, porém com santa avidez.

Ora, provoca a um tempo dó e inquietação o desinteresse da maioria dos fiéis por coisas de doutrina, enquanto manifestam insaciável curiosidade por ninharias: a última fita de cinema, o último jogo de futebol, o último conluio político, etc. Se, porventura, essa curiosidade se volta para o campo religioso, irá preocupar-se com as atividades de tal sacerdote, ou as revelações de tal pretensa mística, quando não é por imagens que choram …

Fascinam as bolhas de sabão, e deixam indiferentes as verdades que o mesmo DEUS nos revelou!

Entretanto, se DEUS se dignou de falar, não foi, por certo, para que nos desinteressássemos dessa Sua palavra, ou nos contentássemos de repeti-la sem a entender, mas ao contrário para que a abraçássemos, nela nos aprofundando de sorte que a Verdade, longe de nos quedar inerte e morta na inteligência, nela vivesse.

Quando os Magos chegaram a Jerusalém anunciando o nascimento do Messias, ninguém se preocupou de averiguar o fato – salvo Herodes para eliminar o possível rival. O mesmo ódio parece animar hoje os “sem-DEUS”; será também que o mesmo torpor paraliza nossos corações?

Cabe a uma instrução religiosa bem feita, despertar interesse pela Revelação ou Palavra de DEUS. Por outro lado supérfluo acentuar que instrução, como qualquer outra, se deve adaptar ao desenvolvimento intelectual do discente, a seu grau de adiantamento cultural. Se já temos no Brasil excelentes livros catequéticos de nível primário e secundário, faltam ainda, ao que parece, obras mais alentadas, destinadas a adultos esclarecidos. Donde, entre os espíritos cultos que permaneceram fiéis à religião da infância e adolescência, um ou outro há que sente penoso desequilíbrio entre um saber profano aprofundado, e um saber sagrado que muita vez não vai além do catecismo. A estes foi desejo nosso prestar serviço aferecendo-lhes, com sadio otimismo, uma Iniciação Teológica, em vários volumes.

Mas que vem a ser Teologia? Com latina brevidade responde S. Anselmo: “Fides quarens intellectum“, fé à procura de compreenssão. A resposta, por sua vez, suscita duas novas perguntas: que é a fé? que é a compreenssão da fé?
Advertisements

Deixe seu comentário aqui

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s