As relações entre a inteligência e a vontade (V)



Sidney Silveira


Pelo que foi dito até aqui nos textos desta série, depreende-se que a inteligência move a vontade primordialmente, fornecendo a ela o seu insumo fundamental, a ratio de bem. Em suma, o que o querer apetece em cada um dos seus atos é a forma intelectiva de um bem. Ademais, a superioridade absoluta da inteligência provém, entre vários outros fatores, da precedência ontológica do seu objeto formal próprio (a ratio entis) em relação ao da vontade (a ratio boni).


Caminhemos com um exemplo: estudiosos reúnem-se toda semana para aprender filosofia tomista, e, sem dúvida, cada uma das pessoas do grupo vai às aulas porque quer, e, neste caso, o império da vontade fez valer a sua força, movendo as outras potências da alma à consecução do fim (ir efetivamente às aulas); mas só o fez porque a inteligência já havia informado que aprender filosofia tomista é bom em sentido geral (in comuni).


Vejamos o que diz o Aquinate, em dois textos de uma mesma questão daSuma:
“Pode-se considerar a inteligência sob dois aspectos: quando conhece o ente e a verdade universal ou enquanto potência particular aplicada a determinado ato. Ora, também a vontade admite essa dupla consideração: em razão da universalidade do seu objeto, por apetecer o bem em sentido geral (bono in comuni) ou enquanto potência da alma com determinada atividade. Se, pois, comparamos a inteligência à vontade em razão da universalidade de seus respectivos objetos, a inteligência é, em sentido absoluto, mais excelente e nobre que a vontade (intellectus est simpliciter altior et nobilior voluntate). Isto porque, sob a razão de ente e de verdade, o que a inteligência apreende contém a própria vontade, com o seu ato e o seu objeto próprios. Por isso a inteligência conhece a vontade, seu ato e seu objeto da mesma forma como conhece os demais objetos inteligíveis particulares”. (Suma Teológica, I, q. 83, a.4, ad.1.)


E por outra:
“Há duas maneiras de causar o movimento. Uma é ao modo de fim, e assim dizemos que o fim move o agente. Deste modo o entendimento move a vontade, pois o bem conhecido é o objeto desta. E move-a à maneira de fim. Outro modo é como causa eficiente (…). Desta maneira a vontade move o entendimento e todas as demais potências da alma (…). A razão disto é porque em toda série ordenada de potências ativas, a que se dirige ao mais universal move as demais que se referem a fins particulares, o que se observa tanto na ordem natural, como na ordem política . (…) Pois muito bem, o objeto da vontade é o bem e o fim em sentido amplo (in comuni), ao passo que cada uma das potências se ordena ao fim particular que lhe é próprio e conveniente, como por exemplo a vista [se ordena] à percepção das cores [e das formas, etc.] e a inteligência, ao conhecimento da verdade. Portanto, a vontade move, ao modo de causa eficiente, todas as potências da alma a executar os seus respectivos atos, exceptuando-se as potências vegetativas, que não estão submetidas ao nosso arbítrio”. (Suma Teológica, I, q. 83, a.4, resp.)


Nestas passagens observa-se o absoluto equilíbrio de Santo Tomás, que evita os escolhos do voluntarismo — que predominará na filosofia ocidental, após os desvios de Duns Scot — e do intelectualismo, de que alguns maus entendendores o acusaram. Em resumo: a inteligência é superior à vontade em sentido absoluto (simpliticer), enquanto a vontade pode sê-lo em sentido relativo (secundum quid); mas, mesmo neste último caso, a vontade depende da inteligência para que o seu ato formal próprio (o querer) se realize, pois qualquer objeto, para ser apetecido, precisa antes ser conhecido.
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