As três idades da vida interior – III



VI. COMO CONCEBER A DISTINÇÃO E AS RELAÇÕES ENTRE A ASCÉTICA E A MÍSTICA

Convém recordar aqui a divisão da teologia ascética e mística geralmente admitida até o século XVIII, e em seguida a modificação introduzida nesta época por Scaramelli e os que lhe seguiram. Assim se compreenderá melhor a razão que nos faz voltar, com muitos teólogos contemporâneos, à divisão que julgamos verdadeiramente tradicional e conforme aos princípios dos grandes mestres.

Geralmente, até o século XVIII, com o título de Teologia Mística se tratava de todas as questões que se expõem hoje em ascética e em mística.


Encontramos um exemplo desta divisão, geralmente admitida antigamente, na obra da Vallgornera: Mystica Theologia divi Thomae (1662). Segue de perto ao carmelita Felipe da Santíssima Trindade, comparando a divisão dada por este com a dos autores anteriores e com certos textos característicos de São João da Cruz acerca da época em que aparecem geralmente as purificações passivas dos sentidos e do espírito. Divide em três partes seu tratado destinado às almas comtemplativas.

Isto se vê patente nos títulos das obras escritas pelo B. Bartolomeu dos Mártires, O. P., Felipe da Santíssima Trindade, O. C. D., Antonio do Espírito Santo, O. C. D., T. Vallgornera, O. P., Schram O. S. B., etc. Todos estes autores, com o título de Teologia Mística, trataram da via purgativa dos principiantes, da via iluminativa dos aproveitados e da via unitiva dos perfeitos; e em uma e outra das duas últimas partes, falaram da contemplação infusa e das graças extraordinárias que às vezes a acompanham, ou seja, das visões, revelações, etc. Estes mesmos autores tratam ordinariamente, em suas introduções, da teologia mística experimental, ou seja da mesma contemplação infusa, porque seus tratados foram ordenados a tratar dela e da união íntima com Deus que dela resulta.


Encontramos um exemplo desta divisão, geralmente admitida até então, na obra de Vallgornera: Mystica Theologia divi Thomae (1662). Segue de perto o carmelita Felipe da SANTÍSSIMA TRINDADE, comparando a divisão dada por este com à dos autores anteriores e com certos textos característicos de São  João da Cruz acerca do momento em que aparecem, geralmente, as purificações passivas dos sentidos e do espírito¹. Divide em três partes seu tratado destinado às almas contemplativas.


1°. Da via purgativa, própria dos principiantes; nela trata da purificação ativa dos sentidos externos e internos, das paixões, da inteligência e da vontade por mortificação, a meditação, a oração, enfim, da purificação passiva dos sentidos, que é como uma segunda conversão com a qual começa a contemplação infusa; é a transição para a via iluminativa.


Se aqui citarmos ao Vallgornera mais que ao Felipe da SANTÍSSIMA TRINDADE, é porque a divisão de que tratamos está no primeiro mais clara que no segundo. Enquanto ao mérito destes autores, o do segundo é muito superior. Vallgornera o copiou com muito frequência, o mesmo que copiou as mais belas páginas de João de Santo Tomás, sobre os dons do ESPÍRITO SANTO. Neste  sentido a obra de Vallgornera é superior, já que soube copiar excelentes páginas dos melhores autores.


Este último ponto é capital nesta divisão, e está muito de acordo com dois dos mais importantes textos de São João da Cruz (Noite escura, 1. I, c. VIII): “A sensitiva (purificação) é comum e ocorre em muitos, e estes são os principiantes.” (Noite escura, 1, c. XIV): “Saiu a alma a iniciar o caminho e a direção do espírito, que é a dos adiantados, que por outro nome chamam de via iluminativa ou de contemplação infusa, com que DEUS por si mesmo vai apascentando e refrigerando a alma, sem discurso nem ajuda ativa da alma mesma”. Esta última começa, segundo São João da Cruz, pela purificação passiva dos sentidos, e marca assim a transição de uma para outra¹. Vallgornera segue fielmente esta doutrina tanto aqui como no que segue.


2°. Da via iluminativa, própria dos adiantados; donde, depois de um capítulo preliminar acerca das divisões da contemplação, trata dos dons do ESPÍRITO SANTO, da contemplação infusa que procede sobretudo, dos dons de inteligência e de sabedoria, e que há de ser desejada por todas as almas interiores², como moralmente necessária para a perfeição da vida cristã.


Esta segunda parte da obra, depois de alguns artigos relativos às graças extraordinárias (visões, revelações, locuções interiores), conclui-se por um capítulo de nove artigos relativos à purificação passiva do espírito que marca, assinala a transição para a via unitiva. Exatamente como o havia dito São João da Cruz (Noite escura, 1, II, c. II, XI).


3°. Da via unitiva, própria dos perfeitos, donde se trata da íntima união da alma contemplativa com DEUS, e de seus graus até a união transformante.


Vallgornera considerava esta divisão como tradicional, tudo conforme a doutrina dos Padres, os princípios de Santo Tomás e aos ensinamentos dos maiores místicos que escreveram sobre as três idades ou etapas da vida espiritual, notando como se efetua geralmente a transição da vida dos principiantes à dos adiantados.
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¹ Outro dominicano JUAN MARÍA DI LAURO, em sua Theologia mystica, Nápoles, 1743, divide sua obra da mesma forma, colocando no mesmo lugar a purificação passiva dos sentidos como transição para a via iluminativa (pág. 113), e a purificação passiva do espírito como disposição para a via unitiva perfeita (pág. 303), segundo a doutrina de São João da Cruz.

² Felipe da SS. TRINDADE teria afirmado antes que Vallgornera, e nos mesmos termos, ao falar da contemplação infusa; a mesma marca encontramos nos carmelitas Antonio do ESPÍRITO SANTO, José do ESPÍRITO SANTO e nos outros que citaremos em seu devido tempo.

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