Antropologia VI, Final



2.8. Tanatologia:

Por tanatologia entende-se, aqui, a ciência da separação de corpo e alma ou a doutrina tomista acerca da morte.

(aTanatologia tomista? Por tanatologia tomista entende-se, aqui, o conjunto de estudos relativos à morte, à corrupção do corpo e à separação da alma. O Aquinate considera a morte em todos os seus aspectos essenciais: condição natural, conseqüência do pecado e vitória da vida sobre a morte, segundo o modelo cristológico. O que é morte e como ela difere da simples corrupção?

(bCorrupção e morte – uma distinção prévia: Antes de qualquer distinção, convém esclarecer os termos: o que é a corrupção? Diz-se que algo é corruptível por possuir em si mesmo algum princípio de corrupção [STh.I,q50,a5,ad3]. É corruptível o que possui o princípio decorruptibilidade que é a matéria [STh.I-II,q85,a6,c]. A matéria é corruptível porque é composta de contrários e tudo o que se compõe de contrários é naturalmente corruptível, como que tendo em si mesmo a causa de sua corrupção [STh.q85,a6,obj2]. Do que se segue que por corrupção entende-se, aqui, toda e qualquer mutação de ser a não-ser [CG.I,26], de sujeito em não-sujeito [In V Phys.lec2], de homem em não-homem [In I Phys.lec13,n4], ou seja, a destruição, extinção do ser [STh.III,q50,a5,obj3], a destruição e a dissolução dos elementos do corpo [Quodl.3,q2,a4,c], sua aniquilação [De ver.q5,a2,ad6]. Ora, se não há substância material, cuja composição não seja de matéria e forma, a sua corrupção será sempre a separação da matéria e forma [STh.III,q77,a4,obj1]. Por isso, toda corrupção – que é do composto – [In II Sent.d19,q1,a1,ad2] é pela separação da forma e da matéria [CG.II,55]. Agora, a questão: o que é a morte? Por morte entende-se, aqui, a separação da alma do corpo [In I Gener.lec15,n5]. Ora, se a alma é a forma do corpo e se a corrupção é a separação da forma do corpo, segue-se que a morte é a corrupção do corpo. E se a alma humana é a forma do corpo e se é a forma que dá a vida ao corpo, segue-se que a morte é a privação da vida do corpo [STh.III,q50,a6,obj1]. Ora, sendo a alma racional incorruptível, ela mesma é imortal. Então a morte só ocorreria no corpo, como dissemos. Mas por que a alma separar-se-ia do corpo? Diz o Aquinate que a morte é a pena conseqüente do pecado original [STh.I-II,q81,a3,obj2]. Antes da morte do corpo, que é a separação da alma do corpo, houve, então, a morte do espírito, que é a separação, distanciamento da alma humana da proximidade de Deus [CG.III,130]. Agora, a distinção e a aproximação das noções de corrupção e morte, no caso do homem. A primeira evidência, atestada de forma inequívoca pela experiência, é a seguinte: todo corpo físico está ordenado à corrupção, por causa da corruptibilidade da matéria. Mas há corpos que apenas se corrompem, sem perder a vida, e há os que, além de se corromperem, perdem-na — e a sua destruição é muito mais do que uma simples corrupção da matéria. Por isso, as pedras não morrem, mas se corrompem pela erosão, enquanto as plantas não simplesmente se corrompem, mas morrem, porque perdem a sua vida, com a corrupção da matéria. Eis, então, a segunda evidência que destacamos: todo ser biológico, além de se corromper, morre, pois a corrupção do seu corpo significa a perda da vida, enquanto autonomia de movimento. Por isso, os corpos vivos, mais do que a simples corrupção, sofrem a morte, que não é apenas a destruição da matéria, mas o cessar da vida na matéria. Mas, como dissemos acima, o homem sofre com a morte, pois embora haja dor na corrupção dos demais seres vivos, especialmente dos animais, o sofrimento é mais próprio do homem que dos demais seres vivos que se corrompem, pois o homem tem consciência dela. Diz-se com propriedade que os animais morrem, pois com a morte ocorre o fim do ser e da vida deles; e ainda que se logre um novo animal por meio da clonagem, a partir das células do que morreu, não teremos com isso a antiga vida, senão uma nova. (cMorte como condição natural: Segundo o que vimos acima, com relação ao homem, no horizonte tomista, é conseqüente deduzir que só analogamente podemos aplicar à natureza humana e à alma humana o conceito de morte, posto que a alma intelectiva – que é o constitutivo essencial da natureza humana – é imaterial, incorruptível e, portanto imortal [CTh.III,84]. A morte como condição natural diz respeito ao corpo, que está sujeito à geração e à corrupção [STh.q.85,a6]. Neste caso, a morte não significa o fim do ser e da vida, mas apenas o fim do ser e da vida no corpo, mediante a corrupção. De fato, a alma humana dá o ser e a vida ao corpo, por isso com a morte é o corpo que perde o ser e a vida, os quais permanecem na alma, ainda que de modo incompleto. Por isso, será impróprio dizer que o homem morre e só, equivocadamente, o diremos, pois a sua morte não é substancial, mas acidental, ou seja: algo que não é do ser da substância, mas lhe advém como privação de algum bem dela.

(dMorte como conseqüência do pecado: a morte não estava originalmente destinada por Deus ao homem, embora fosse natural a corrupção do corpo, patente na realidade humana [STh. I, q.77,a.8, c]. Se Adão continuasse na graça, seu corpo não se corromperia, em razão da força da graça no espírito. Mas deixado por si só, sem a graça, no pecado, o corpo de Adão, naturalmente, se corrompeu. Portanto, por causa do pecado, derivou a necessidade da morte do corpo, segundo a exigência da natureza [STh.I,q97,a1]. A natureza humana foi subtraída da justiça original, pela qual o homem era imortal, por causa do pecado dos primeiros pais, pois as suas operações feriram a alma e introduziram a desordem em suas faculdades, por cuja se introduziu, também, a desordem do corpo, da que se seguiu a pena: a morte. A morte é a pena conseqüente da culpa do pecado original, conseqüente da subtração da graça original [STh.I,q97,a5].

(eMorte expiatória de Cristo: a ressurreição de Jesus Cristo não marcou só o seu triunfo sobre a morte mas, também, a antecipação do nosso triunfo, Nele, com Ele e por Ele, sobre a morte, no fim dos tempos [In I Thess. 4, lec2].

(fConclusão: o homem, pelo lado do corpo, que é matéria geneticamente herdada pela geração, é corruptível, mas pelo lado da alma, que é espírito de vida criado por Deus, é incorruptível; por isso, ao contrário dos animais irracionais, cuja alma se corrompe juntamente com o corpo [STh.I,q75,a4,c], o ser humano não morre substancialmente. A morte é, pois, a corrupção do corpo que causa a separação da alma. Neste sentido, a morte é no homem e não do homem. Se no espírito se forja a consciência de que a morte não é um mal natural, somente pelo mesmo espírito buscar-se-á uma explicação acerca de como a morte entrou na natureza humana. Não foi o corpo que “imaneceu” e impôs o inevitável princípio de corruptibilidade à natureza humana, causando-lhe a morte, mas foi o espírito que por aversão a Deus, por sua parte substancial, mais digna e nobre, a alma intelectiva, deixou de comunicar a lei da incorruptibilidade e imortalidade ao corpo humano. Ora, o espírito é a perfeição da natureza humana. De acordo com a doutrina tomista, o corpo, que depende da perfeição conferida pelo espírito para ser o que é — e em suma, subsistir —, sofre a conseqüência do pecado do espírito. Assim, a morte do espírito, o pecado, “cai” sobre o corpo, advinda de alguma imperfeição do espírito. A corrupção é natural aos corpos, mas a morte no homem é pena do pecado original [STh.I,q5,a4,c]. Contudo, a alma espiritual que é subsistente, subsiste individualmente e guarda, ao seu modo, o que de essencial lhe determinou o corpo, estando ela apta, naturalmente, a unir-se novamente ao que era o seu corpo, mas não por sua força e poder, senão pela força e poder da ressurreição de Cristo, na qual reside a promessa de nossa ressurreição no fim dos tempos.
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