A SANTÍSSIMA TRINDADE EM NÓS — CONSEQÜÊNCIAS PRÁTICAS

Garrigou-Lagrange, O. P.


Santo Tomás, no final de seu tratado sobre a Santíssima Trindade, fala-nos das missões divinas e da habitação das três Pessoas Divinas em toda alma justa. Ele dá-nos uma certa inteligência deste mistério recordando-nos que Deus está sempre presente em todas as coisas, especificando de qual maneira especial está realmente nos justos e quais são os efeitos de Sua ação neles.

Presença geral de Deus em todas as criaturas.

Deus está, em primeiro lugar, presente em todas as coisas como causa conservadora por um contato, não quantitativo mas virtual; semelhante, não ao contato de nossa mão e do papel onde ela escreve, mas ao contato da nossa vontade e da mão que ela move. É o contato dinâmico da Onipotência e o efeito imediato produzido por Ela. A conservação da criatura na existência é, de fato, a seqüência do ato criador. Ora, Deus criou sem intermediário, sem nenhum instrumento, a matéria, sujeito primeiro de toda mudança corpórea, e produziu igualmente ex nihilo, do nada, as almas espirituais e imortais e os espíritos puros finitos. Ele conserva, portanto, imediatamente, a matéria, as almas, os anjos; portanto, existe um contato dinâmico da Onipotência (que não é realmente distinta da natureza divina) com nosso ser natural. É a presença geral de Deus em todas as coisas, dita presença de imensidade, aquela de que fala São Paulo quando diz: O Deus que fez o mundo, sendo o Senhor do céu e da terra… não está distante de cada um de nós, pois é Nele que temos a vida, o movimento e o ser. (At 17, 28) Deus é como o lago donde emana a vida da criação; Ele é a força central que atrai tudo a ela, como o diz a liturgia: “Rerum Deus tenax vigor, immotus in te permanens”.

Presença especial de Deus nos justos segundo a Escritura.

A Santa Escritura não nos fala somente desta presença geral de Deus em todas as coisas, mas também duma presença especial de Deus nos justos. É dito no Antigo Testamento, no livro da Sabedoria I, 4: A sabedoria divina não entrará numa alma maligna, não habitará num corpo sujeito ao pecado. Seria somente a graça criada ou o dom criado da sabedoria, que viria habitar na alma do justo?

As palavras de Nosso Senhor nos trazem uma nova luz e nos mostram que são as próprias pessoas divinas que vêm habitar em nós: Se alguém me ama, diz, ele observará minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele Nossa morada (Jo 14, 23). Ao mesmo tempo Nosso Senhor promete enviar-nos o Espírito Santo (Ibid., 26). Segundo estas palavras, quem virá? Seriam somente os efeitos criados, a graça santificante, a caridade espalhada nos nossos corações? Não. Estes que vêm são Aqueles que amam: Meu Pai e eu viremos a ele, e não duma maneira transitória, mas faremos nele Nossa morada. Rogarei a meu Pai e ele vos dará um outro consolador, para que habite em vós para sempre, o Espírito da verdade… que vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse. (Ibid., 16-26) Estas palavras não são ditas somente aos apóstolos — eles verificaram-nas em si, no dia de Pentecostes, que é renovado em nós pela Confirmação.

Este testemunho do Salvador é claro, explicitando bastante o que diz o livro da Sabedoria. São realmente as três Pessoas Divinas que vêm habitar de maneira permanente nas almas justas.

Deste modo o compreenderam os apóstolos. São João escreve (1 Jo 4, 9-16): Deus é caridade… e aquele que está na caridade permanece em Deus, e Deus nele. Ele possui Deus em seu coração, mas, mais ainda, Deus o possui e o guarda nele, conservando, não somente a existência natural, mas a vida da graça e a caridade.

São Paulo diz o mesmo (Rm 5, 5). Enquanto a alma permanecer em estado de graça, enquanto conservar a caridade, ela será o templo do Espírito Santo.

Em várias ocasiões, São Paulo volta a esta doutrina consoladora: Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o espírito de Deus em vós habita? (1 Cor 3, 16; 6, 19). Esta presença especial das três Pessoas Divinas é especialmente apropriada ao Espírito Santo, porque ela depende da caridade — a qual nos assimila a Ele mais que ao Pai e ao Filho, pois que Ele é o amor pessoal. Elas estão também em nós, segundo o testemunho de Jesus, mas nós não lhes seremos perfeitamente assimilados senão recebendo a luz da glória, que nos fará marcados pela semelhança do Verbo, que é o esplendor do Pai. De modo equivalente fala Leão XIII em sua encíclica sobre o Espírito Santo: “Divinum illud munus” de 9 de maio de 1897.

A Escritura ensina portanto mui explicitamente que as três Pessoas Divinas habitam em toda alma justa, em toda alma em estado de graça. A tradição, pela voz dos primeiros mártires, pela voz dos Padres, pelo ensino oficial da Igreja mostra, por outro lado, que é deste modo que é preciso compreender o que diz a Escritura.[1]

Qual união resulta desta habitação?

Os teólogos comumente ensinam que esta união do justo às Pessoas Divinas difere imensamente da união hipostática da humanidade de Jesus ao Verbo; a coisa é manifesta, pois a união hipostática é a união da natureza divina e da natureza humana numa só e mesma pessoa, aquela do Verbo.

Ao contrário, o justo tem com Deus uma união não-substâncial, mas acidental e moral. Em outros termos, é uma união pelo conhecimento e o amor. Contudo, esta união é real, pois as Pessoas Divinas estão presentes no justo não só por um efeito de sua operação, como o sol está presente sobre a terra pela luz e pelo calor que lhe envia; as próprias Pessoas Divinas estão realmente e substancialmente presentes na alma justa (sem lhe estar substancialmente unida como o Verbo à humanidade de Jesus). Os teólogos normalmente dizem: “solus Deus illabitus animae”, Deus está realmente presente na alma justa, mais intima que ela mesma, como o princípio íntimo de sua vida interior.

Os teólogos também concordam geralmente em admitir que, como já dissemos, a habitação das três Pessoas Divinas é própria ao Espírito Santo, pois que depende da caridade, a qual nos assimila mais ao Espírito Santo, amor pessoal, do que a fé esclarecida pelos dons nos assimila ao Verbo e por Ele ao Pai. A perfeita assimilação ao Verbo e ao Pai far-se-á quando nós recebermos a luz da glória.[2]

Enfim, geralmente se ensina que o Espírito Santo santifica a alma justa, não como causa formal, mas como causa eficiente e exemplar.

Eis porque não devemos dizer que o Espírito Santo é, propriamente falando, “a alma de nossa alma, a vida de nossa vida”, mas que é, por assim dizer, “como a alma de nossa alma, como a vida de nossa vida”. Ele não é, de fato, o constitutivo formal dela, mas, com o Pai e o Filho, é causa eficiente de nossa santificação, pois produz, conserva e aumenta em nós a graça santificante e a caridade. Além disso, é a causa exemplar dela, pois a caridade criada é uma similitude participada da caridade incriada [3]. Também é o seu fim último atraindo a si soberanamente, está em nós, junto com o Pai e o Filho, como um objeto quase experimentalmente conhecível e às vezes efetivamente conhecido, e amado acima de tudo.

Quais são as conseqüências práticas da habitação da Santíssima Trindade em nós?

Uma vez que o Espírito Santo habita em nós e nos concede, com a caridade, os sete dons, que estão em nós como em um barco com velas dóceis à impulsão do vento favorável, devemos ter uma grande docilidade com relação ao Espírito Santo. Isto supõe primeiramente o silencio em nossa alma, para que as inspirações divinas, ainda latentes, não passem desapercebidas; é preciso silenciar as paixões mais ou menos desregradas, as de afeições naturais, da ambição; silencio que supõe a mortificação de tudo o que há em nós de desordenado.

A docilidade ao Espírito Santo supõe também o discernimento para distinguir as inspirações divinas daquelas que não são boas senão aparentemente. As que vêm do Espírito Santo nos lembram quase sempre um dever; em outras oportunidades, contêm um conselho manifestamente conforme a nossa vocação, e ai, então, é seguro que convém grandemente segui-los. E então as inspirações se tornam cada vez mais numerosas e prementes. Quem pode dizer o valor de uma só inspiração verdadeiramente conforme à nossa vocação? Não segui-la expõe-nos a vegetar durante anos, segui-la orienta-nos docilmente à santidade.

Praticamente, não se deve ir nem muito lentamente, por falta de generosidade, nem muito rápido, por presunção.

Muitos vão muito lentamente e tornam-se almas atrasadas; não são mais iniciantes, e tampouco progridem. Estas almas são, na vida espiritual, como crianças anormais que não cresceram, e que se tornam um tanto disformes, como anões.

Como uma alma torna-se atrasada? Isso ocorre-lhe sobretudo pela negligencia às pequenas coisas na pratica das virtudes e da piedade. Cessamos de ver o lado grandioso das pequenas coisas no serviço de Deus e nos dispomos assim a ver só os pequenos aspectos das grandes coisas, como a missa, a palavra de Deus, a teologia, o ministério apostólico; dispomo-nos a enxergar somente o que é exterior. A capacidade de julgamento decai com a vida. As pequenas coisas do serviço de Deus são pequenas em si mesmas, mas grandes pelo fim ao qual são ordenadas e pelo espírito de fé e de amor com o qual seria preciso cumprir-las; seriam então observadas espontaneamente, sem precisar refletir sobre elas, como o pianista que toca bem cada nota de seu piano. Estas pequenas coisas são a oração antes e depois do estudo, antes e depois das refeições, a prática atenta até aos detalhes das virtudes da humildade, da paciência, da doçura, da polidez. Em si é pouca coisa, como os cílios ou sobrancelhas de uma fisionomia humana, que, entretanto, sem eles estaria desfigurada. Como diz Santo Agostinho: “Minimum quidem minimum est, sed semper servare legem Dei etiam in minimis, hoc quidem maximum est”. Aquele que é fiel nas pequenas coisas dispõe-se a ser fiel nas grandes quando estas lhe são pedidas: Qui fidelis est in mínimo, et in majori fidelis est. (Lc 16, 10). Assim mantém-se uma união não só habitual, mas atual com Deus, duma maneira quase continua e, por aí, fiel à graça do momento presente e às inspirações que ela contém.

Uma alma torna-se atrasada também pela recusa dos sacrifícios exigidos para romper com uma afeição demasiado sensível, com o gosto de confortos, com uma certa tendência à vaidade, ou à dominação. Tornamo-nos atrasados recusando seguir a inspiração que nos levaria a ser mais esforçados, mais generosos no serviço de Deus, mais atentos às necessidades da alma do próximo. Então, a vida decai cada vez mais, e o julgamento com a vida, pois cada um julga segundo sua inclinação. É deste modo que até mesmo almas consagradas podem se transformar em almas atrasadas; e então os efeitos usuais da habitação da Santíssima Trindade nelas produzem-se cada vez menos.
* * *
É evidente que é preciso reagir, evitando a todo custo o defeito contrario que é o da precipitação, pois então a reação seria totalmente superficial e de curta duração. Evitemos a precipitação da criança que quer correr no começo de uma ascensão, e que, fatigada ao final de dois quilômetros, renuncia à escalada. É necessário, como dissemos, caminhar ao passo pequeno e resoluto do montanhês, que não se detém senão no cume.

Não se deve querer voar antes de ter asas, e não confundir o primeiro momento de entusiasmo com o firme propósito de avançar custe o que custar. Nem confundir a ordem da intenção, onde o fim entrevisto e desejado é o primeiro, com a ordem da execução, onde o fim só é obtido e conquistado em último lugar, depois de se ter empregado todos os meios, desde os menores até os mais elevados. Precisamos evitar o sentimentalismo que está na sensibilidade, a afetação de um amor que não se tem, ou não o bastante, na vontade. É preciso dar-se conta, com um realismo são, que existe desde há muito tempo, tempo demais, no fundo de nossa vontade, como diz Tauler, uma misteriosa luta, algumas vezes trágica, entre a caridade que tende a se enraizar e o egoísmo que tende a renascer sempre como erva-daninha.

Veremos então se realizar pouco a pouco as conseqüências normais da habitação da Santíssima Trindade em nós, aquelas notadas por Santo Tomás: (Suma Contra Gentios. 1, IV, c. 21 e 22). Receberemos graças sempre novas de luz, de atração, de amor, de generosidade, de força e de paciência; possuiremos cada vez mais a presença de Deus, entreter-nos-emos constantemente com Ele, como Santo Domingos que não sabia falar senão com Deus ou sobre Deus; encontraremos nesta conversação íntima a paz, às vezes o júbilo, com o desejo de uma conformidade cada vez maior com a vontade divina, e nesta conformidade desejada encontraremos a santa liberdade dos filhos de Deus, porque a vontade divina reinará cada vez mais na nossa vontade, na medida em que a caridade se enraizar mais profundamente nela. Compreenderemos, então, cada vez melhor, que nossa vontade é de uma profundidade sem medida, já que só Deus, visto face a face, pode saciá-la e atraí-la irresistivelmente.
Roma, Angélico.
(La Vie Spirituelle n° 288, junho de 1944.)



[1] Cf. Rouet de Journel, Enchiridion Patristicum (in fine, index theologicus, n° 185, 357) noticia os testemunhos de inumeros Padres gregos e latinos. É preciso sobretudo citar Santo Inácio de Antioquia, Santo Atanásio, São Basílio, São Cirilo de Alexandria, Santo Ambrósio e Santo Agostinho.
[2] Leão XIII diz em sua encíclica Divinum illud munus: “Haec praesentia est totius Trinitatis, attamen de spiritu sancto tanquam, pecullaris praedicatur”.
[3] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 3, a. 5, ad 2.
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