A Psicologia Tomista I



por Paulo Faitanin – UFF


1. Origem: Peri Yuchj [Perì Psychés, em latim De anima] foi provavelmente o nome dado ao grupo de 3 livros de uma obra inacabada que Aristóteles [384-322]escreveu. Já desde Homero via-se a evolução semântica do uso e aplicação do vocábulo yuch/ para significar o princípio de vida. Muito provavelmente foi por esta razão que o Estagirida ou o editor de sua obra assim denominara este tratado, já que o seu ojetivo era investigar a natureza, o ser, as propriedades e as operações da alma, enquanto princípio de vida do corpo [De anima, I,1, 402a 5-11]. Nela encontramos, efetivamente, uma investigação acerca da alma. Contudo, a formação e o uso da palavra psicologia [psyché+logia=ciência, estudo da alma], para designar tal estudo, é relativamente recente. Foi cunhada provavelmente ao longo do séc. XIV e XV, aparecendo no conteúdo de obras de Melanchton [1497-1560] e de Marcus Marulus [1450-1524]. Como título de um tratado surgiu na obra de R. Goclenius em 1590. Desde então passaria a nominar estudos sobre a alma, como o de Christian Wolff, no século XVIII, que por volta do ano de 1732, denominou seu estudo Psycologia empirica. Literalmente psicologia significava, como significa ainda hoje, o estudo ou a ciência da alma. Mas este estudo já havia sido considerado pelos antigos, por Platão e, especialmente, por Aristóteles que o sistematizou na referida obra. A partir da sistematização aristotélica psicologia passaria a designar o estudo da natureza da alma, a gnosiologia o estudo dos fenômenos psíquicos cognitivos, a antropologia a relação ontológica entre alma e corpo e ética o estudo das paixões da alma. Eis a divisão e o conteúdo da obra em Aristóteles:

2. Os Comentários de Tomás de Aquino: Tomás de Aquino [1225-1274] dedicou-se ao comentário do primeiro livro desta obra quando ainda estava em Roma, por volta de 1267. Mas os dois outros livros foram comentados quando já se encontrava em Paris, tendo o terminado por volta de 1270. O tema central é o da natureza espiritual da alma, sua unidade e operação. O Aquinate dedicou-se ao mesmo tema em outros dois tratados: a Quaestio disputata de anima de 1265-1266 e o opúsculo De unitate intellectus contra Averroistas de 1270. Na Quaestio dedicou-se à natureza e operação da alma e no De unitate à unidade da alma e de suas operações. De fato, a alma é a única forma do seu corpo, sendo nele individuada. Suas operações próprias e mais nobres não necessitam de algum órgão corpóreo, por meio do qual conhecesse a natureza das coisas. A abstração é o meio pelo qual a alma intelectiva considera a forma do objeto sensível sem as suas condições materiais, sensíveis, particulares e individuantes. Está ordenado o seu conhecimento à verdade. Para destacar a originalidade da psicologia tomista abordaremos a sua principal contribuição, ou seja, os seus Comnetários aos III livros do De anima de Aristóteles [Edição de M. Pirotta, Roma: Marietti,1948]. O Comentário é uma explicação sumária e doutrinal da obra. Não é uma exposição crítica. O Aquinate segue a divisão aristotélica de livros e capítulos, mas acrescentam-se as lectio, que aqui traduzimos mais por razão pedagógica que por razões lingüísticas por lições e não por leituras. Eis, pois, o número de livros, a sua ordem e as principais doutrinas de seu comentário:


3. A Psicologia Tomista

(a) O objeto da psicologia tomista: tal como vimos acima a psicologia tomista destina-se a estudar, sobretudo, a natureza da alma humana; diferente da psicologia contemporânea, especialmente a psicanálise, que se destina a estudar não a natureza, mas os fenômenos psíquicos, como o temperamento, as emoções, as funções e distúrbios psicológicos do homem. Na psicologia tomista destacam-se os estudos da definição, origem e natureza da alma.

 (b)Definição de alma: no contexto tomista, define-se alma do seguinte modo: ‘a alma é ato e perfeição do corpo’ [De Subs. sep., c.16]; ‘a alma é o ato do corpo, porque a alma separada não é vivente em ato’ [De unit. intel., c. 1].

3.1. A origem da alma: acerca de sua origem afirma que é herética a doutrina que estabelece que a alma humana é induzida do sêmen [STh I q118 a2 sol]. Daí que para Tomás ela não pode ser produzida senão por criação[STh I q90 a2 sol; In II Sent d1 q1 a4 sol; CG II c87; De Ver q27 a3 ad9; De Spirit creat a2 ad8; Quodl IX q5 a1; CTh I c93]. Deus é o criador da alma, mas isso não significa que ela seja parte ou induzida do ser de Deus [STh I q90 a1 sol]. Assim, ainda que não seja necessária a criação da alma se disposta a matéria, já que Deus pode não criá-la, mesmo que se disponha a matéria, será condição para a infusão instantânea da alma no corpo, a disposição simultânea do corpo [De nat mat c2 n374]. E é pautado nisso que aplicará a teoria da animação simultânea na concepção dos demais homens. O Aquinate estabelece, retomando a tese de Agostinho que a alma «Deus a cria infundindo e a infunde criando no corpo» [In II Sent d3 q1 a4 ad1].

3.2. A natureza da alma: a alma humana é de natureza espiritual, isto é, não é induzida ou tirada da matéria (traducianismo), materia ex qua, já que a alma non habeat materiam partem sui ex qua sit [In II Sent d17 q2 a1 ad5]. E se a alma não pode ser induzida da potência da matéria, também não pode ter pré-existido no sêmen dos pais [STh I q118 a2 sol]. Daí, que para Tomás ela non potest fieri nisi per creationem[STh I q90 a2 sol; In II Sent d1 q1 a4 sol; CG II c87; De Ver q27 a3 ad9; De Spirit Creat a2 ad8; Quodl IX q5 a1; CTh I c93]. A alma de natureza espiritual, como a intelectiva, é superior em ser, dignidade, nobreza e perfeição à alma de natureza corporal, como a vegetativa e a sensitiva. Por isso, a alma de natureza espiritual, possui, em si mesma, a perfeição do ser da alma da natureza corporal, sendo ela mesma, imaterial, incorruptível e imortal. A alma humana – que é simultaneamente sensitiva e nutritiva – é criada por Deus no final do processo da geração humana, depois da corrupção da última forma substancial pré-existente na matéria do sêmen dos pais, que é a forma de corporeidade [STh I q118 a2 sol]. O princípio da infusão da alma no corpo não se dá no início da geração, mas no final da geração do corpo, quando da disposição simultânea da matéria. Esta ‘disposição’ da matéria, como veremos, não se refere somente à organização e preparação final da matéria, como se o embrião estivesse perfeito e completamente formado, mas, pode também se referir, neste contexto da passagem da Suma, à disposição inicial da matéria, se admitirmos a teoria da animação simultânea aplicada à concepção dos demais homens, porque teria início com a conflagração do material genético herdado dos pais, cujo termo só se conseguiria com o fim da disposição ou geração do corpo, em cuja disposição final nada faltaria para receber a alma. É bem verdade que nos Comentários do Livro de JóTomás de Aquino deixa bem claro que a animação somente se realizaria depois de toda divisão orgânica, mas na Suma Teológica oferece a oportunidade de entender da maneira que expomos. A preparação inicial da matéria não constitui para Deus, obrigação que, pautada numa condição necessária dessa matéria, se seguisse a criação e infusão da alma no corpo. E isso, porque em Deus o ato da criação e infusão da alma no corpo são atos sumamente livres, cujas próprias condições são o seu sumo querer, liberdade e poder de fazê-lo, quando livremente o quiser fazer, tendo por fundamento do seu querer, liberdade e poder, somente o seu sumo amor. Resumindo, a infusão da alma [dispositioanimae] é simultânea à disposição do corpo: à própria disposição do corpo segue-se a disposição da alma racional [De Pot q3 a9 ad7]. Disso se segue que a alma tem materia in qua, ou seja, matéria em que existe, mas não materia ex qua, isto é, matéria da qual existe. Daí que a multiplicidade dos cor-pos não pode ser causa da multiplicidade das almas [CG II c81 n1620]. Por isso, a alma humana não recebe o seu ser de Deus, senão no corpo [In II Sent d3 q1 a4 ad1], na materia in qua, não podendo ser criada, pois, antes do corpo [STh I q90 a4 sol; I q91 a4 ad3 y 5; q118 a3 sol; In II Sent d17 q2 a2 sol; CG II c83-84; De Pot q3 a10 sol]. A capacidade que a alma tem por meio de sua mais nobre faculdade – o intelecto – de abstrair e conceber conceitos, constitui uma prova da imaterialidade da alma. O pensamento e a linguagem são efeitos da atividade imaterial do intelecto.
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