A Batalha de Poitiers



Travada em 732 e decisiva para a Cristandade, foi o primeiro grande confronto entre a Cruz e o Crescente, quando os franceses repeliram o exército do Islã

Paulo Henrique Alves Américo de Araujo

As notícias trazidas pelos mensageiros eram tenebrosas. Uma tempestade estava prestes a varrer o reino dos francos, o primeiro a se converter ao catolicismo. Carlos, o prefeito do palácio da Aquitânia, avô do futuro Carlos Magno — que fazia às vezes de rei, apesar de não possuir o título —, soube do perigo com antecedência, pois quando a tormenta se abateu sobre a França da época, ele estava preparado para enfrentá-la e fazer brilhar a Cruz de Cristo sobre os seguidores de Maomé.

A tempestade havia se originado nos desertos da Arábia. Apenas algumas décadas separam o início da pregação de Maomé em Meca da estranha expansão do islamismo por todo Oriente Médio, norte da África e Península Ibérica. A cavalaria muçulmana não conhecia limites em sua jihad (guerra santa) inspirada no Alcorão. Em 711 desembarcaram em Gibraltar, no sul da Espanha, em 722 já haviam atravessado os Pirineus e faziam incursões no Reino Franco.

Os muçulmanos, na mesma época, se aventuravam pela Anatólia, atual Turquia, atacando Bizâncio, capital do império romano do Oriente e, dessa maneira, a jovem Cristandade estava para ser envolvida num abraço mortal.


O mapa mostra a distribuição das forças na Europa à época de Carlos Martel

Composto essencialmente de cavalaria, o exército muçulmano conhecia poucos reveses na Europa. Em 722, o duque Eudes da Aquitânia — príncipe que queria a independência em relação ao reino franco — forçou a retirada dos maometanos da cidade de Toulouse, com um ataque-surpresa. Foi uma vitória esporádica do duque Eudes, apenas um intervalo na grande invasão muçulmana da França. Aquela tempestade de árabes e bérberes africanos voltaria. Somente um exército disciplinado, experiente e bem comandado poderia realmente opor-se ao poderio islâmico. O duque da Aquitânia não possuía tal exército. E nem os francos do norte estavam em melhores condições.

A situação começou a mudar quando Deus suscitou um homem para unir os francos, conter a avalanche maometana e salvar a Cristandade. Era justamente esse Carlos que mencionamos. Veremos como a ele foi atribuído o nome de Martel (martelo).
Preparação e espera da ocasião providencial.

No início do século VIII, o reino franco, como se nota na própria atitude do duque Eudes, estava agitado por divisões internas. As outras regiões do reino — Neustria, Austrásia e Borgonha — viviam em disputas internas pelo poder, pois os reis francos (merovíngios) descendentes do grande Clóvis tinham se tornado fracos, detendo uma autoridade apenas fictícia. Era a época dos “reis indolentes”. A direção do reino cabia na verdade aos prefeitos do palácio, mas estes, muitas vezes, eram escolhidos, ou obtinham o comando em meio a convulsões entre os partidos das várias regiões francas.

Carlos era filho bastardo de Pepino de Heristal, antigo prefeito do palácio na Aquitânia. E acabou sendo escolhido para o posto do pai, após a morte deste, devido à necessidade de um líder capacitado para resolver as tensões do reino. Com o apoio de boa parte da nobreza e da população franca, Carlos venceu os partidos opositores e se consolidou como prefeito do palácio. Então, com uma série de campanhas vitoriosas, conteve as ameaças dos vizinhos próximos1.
Contudo, o real inimigo ainda estava por vir. Como já mencionamos, em 722, o duque da Aquitânia saiu vitorioso no primeiro embate contra os muçulmanos em Toulouse. Mas, reconhecendo que aquela vitória fora momentânea, entregou sua filha em casamento ao general maometano Munuza, concluindo assim um fraco acordo de paz com os infiéis2.

Foi por essa época que Carlos começou a preparar o exército franco para enfrentar o Islã. A tarefa não era fácil. A utilização da cavalaria ainda não havia atingido sua real eficácia na Europa cristã. Os francos batalhavam, sobretudo a pé, no antigo sistema das legiões romanas. Os cavalos eram reservados apenas para uma elite de guerreiros. O grosso do exército cristão era formado pela infantaria, enquanto os muçulmanos possuíam uma formidável cavalaria, constituída por árabes e povos do norte da África3.

Carlos preparou seus francos para resistir ao choque dos cavaleiros do Islã. A disciplina era arma indispensável. Durante anos, os francos treinaram a guerra defensiva. Precisavam encontrar o inimigo no lugar e momento propícios. A surpresa também era fator imprescindível para homens a pé vencerem inimigos a cavalo. Foi em 732 que a ocasião se apresentou.
Surge um grande guerreiro: Carlos Martel

O novo governador da Espanha muçulmana, Abdul Raman, rompeu o insignificante pacto com o duque Eudes da Aquitânia. O exército islâmico invadiu então, mais uma vez, o reino franco. “Uma multidão inumerável de sarracenos passou os Pirineus, em 732. Tomaram Avignon, Viviers, Valence, Vienne, Lyon”.4

Representação de Carlos Martel

Depois, conquistaram Bordeaux, onde queimaram as igrejas. Passaram em seguida pelo rio Garonne, infligindo, desta vez, sangrenta derrota ao duque Eudes. Avançaram para Poitiers, saqueando e queimando a igreja de Santo Hilário. Seu próximo passo era fazer o mesmo com a igreja de São Martinho, em Tours, mais ao norte do país.

Os acontecimentos se precipitaram. Depois de fugir dos muçulmanos, Eudes dirigiu-se a Carlos para lhe pedir ajuda. Este aceitou a paz para enfrentar o inimigo comum dos cristãos.

Sob o comando de Carlos, o já bem disciplinado exército cristão pôs-se em marcha — juntamente com o que restou das forças do duque Eudes — ao encontro do Islã entre as cidades de Poitiers e Tours. Carlos posicionou seus francos sobre uma colina, por onde necessariamente passaria o exército maometano. A estratégia era diminuir a força da cavalaria inimiga, pois esta teria que subir a colina, perdendo o ímpeto do ataque. Carlos escolhera o local mais apropriado.


Era o mês de outubro, o inverno se aproximava. Se fosse necessário, os francos estavam bem agasalhados para resistir aos rigores do frio. Os muçulmanos, com roupas leves, não estavam preparados para suportar baixas temperaturas. Carlos também escolhera o momento ideal para a batalha.

Foi grande a surpresa do comandante mouro Abdul Raman. Não esperava encontrar outro exército cristão após ter vencido Eudes. Como não sabia contra quem estava lutando, mandou mensageiros para reunir todos os invasores muçulmanos que se encontravam espalhados, pilhando e matando, por uma vasta região da França. A operação durou sete dias. Talvez Abdul Raman esperasse arrefecer a confiança dos francos, obrigando-os a abandonar sua rígida posição e a atacarem primeiro, vendo que o número de muçulmanos aumentava. Em vão. Firmes e pacientes, os francos permaneceram em sua posição defensiva, aguardando serem atacados. O tempo jogava a seu favor, poderiam esperar quanto fosse necessário. Já os infiéis não podiam dar-se a esse luxo.

Em meados de outubro5 de 732, com todas as forças do Islã reunidas, Abdul Raman ordenou o ataque geral. Com ondas sucessivas, a cavalaria subia a pequena colina e encontrava os francos sempre firmes, de pé, mantendo sua posição. Em cada choque, os muçulmanos iam sendo derrubados e eliminados: “Como um muro de ferro, permanecia firme a linha dos francos”6.
Uma das mais importantes batalhas da História



A batalha prolongou-se por horas, sem que se pudesse definir um vencedor. Ao que tudo indica, o número de muçulmanos era muito maior que o contingente franco7. Houve pesadas baixas de ambos os lados. Carlos permanecia no meio da defesa dos cristãos, montado em seu cavalo, comandando e incentivando seus comandados. Sua voz se fazia sentir especialmente quando os cavaleiros maometanos conseguiam, por vezes, quebrar as defesas francas e avançar até o centro do quadrado, sendo então rapidamente repelidos.

Nessa ocasião, mais uma vez, Carlos demonstrou sua genialidade como comandante. Antes do início da batalha, ele havia combinado com o duque Eudes que este atacasse o acampamento dos infiéis, o qual estava ingurgitado de tesouros saqueados das igrejas. Assim, o duque Eudes e alguns cavaleiros francos fizeram uma investida rápida ao acampamento inimigo.
O resultado foi melhor que o previsto. Vendo a ameaça sobre suas riquezas, os cavaleiros muçulmanos ficaram confusos, desviaram o ataque principal e se dirigiram em massa para o acampamento. Abdul Raman percebeu a situação e, montado em seu cavalo, avançou até muito próximo da linha de defesa dos francos, para deter a dispersão de seus homens.

Carlos mandou os seus francos avançar em bloco. Um deles encontrou Abdul Raman desprotegido no campo de batalha e ceifou-lhe a vida com um golpe de lança. Na falta do comandante, os muçulmanos se retiraram durante a noite, sem que os cristãos percebessem. Apenas o alvorecer revelou a completa vitória de Carlos.

A partir de então, ele passaria a ser conhecido por Martel ou Martelo, pelo modo como esmagou o poderio islâmico nesta memorável batalha de Poitiers, o primeiro grande confronto entre os seguidores da Cruz e do Crescente.

Essa vitória haveria de ser lembrada por todos os povos ocidentais como uma das mais importantes de sua história. Se não fosse Carlos Martel, ninguém mais teria capacidade de deter o avanço do Islã na Europa. Roma, capital do Papado, estaria ameaçada de pilhagem e o surgimento da gloriosa Civilização Cristã ficaria gravemente prejudicado.

A Providência Divina reservou para Carlos Martel outros grandes feitos. Veremos em próximo artigo como ele favoreceu a Religião católica e desferiu mais um golpe contra os asseclas de Maomé.
__________
Notas:
1. ROHRBACHER. Histoire de l’Église, Volume X, Gaume Frères, Paris, 1845, p. 481
2. ROHRBACHER, op. cit., p. 485.
3. WEISS, Juan Baptista. Historia Universal, Editora Tipografia La Educación, Tradução da 5ª edição alemã, Barcelona-1927, Volume IV, p. 708.
4. ROHRBACHER, op. cit., p. 483.
5. O dia da batalha é incerto, provavelmente foi entre os dias 10 e 15.
6. WEISS, op. cit., p. 708.
7. ROHRBACHER, op. cit., p. 484.

Fonte: Catolicismo
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