Irá Bento XVI renunciar em 2012? Deus não permita!

Irá Bento XVI renunciar em 2012? Deus não permita!

Por Antonio Socci

No momento é um rumor (uma hipótese pessoal de Joseph Ratzinger) e espero que jamais se torne uma notícia. Mas já que circula nos salões mais importantes do Vaticano merece muita atenção.

Resumidamente: o Papa não descarta a possibilidade de renunciar ao completar seus 85 anos, ou seja, em abril do próximo ano.
Que Ratzinger considere possível esta escolha é sabido desde 2002, pelo menos, quando se teve de estudar a eventualidade com o agravamento da doença de João Paulo II.
Mas Ratzinger voltou ao assunto também como Papa. No livro entrevista “Luz do mundo”, publicado em 2010, interpelado pelo jornalista Peter Seewald, declarou: “Quando um Papa chega à clara compreensão de não mais estar em condições físicas, psicológicas ou mentais de desempenhar a missão que lhe foi confiada, tem o direito e, em algumas circunstâncias, também o dever de renunciar”.
Hoje o Papa Bento parece verdadeiramente em forma, embora se ponha o problema da sua idade e de suas energias: “às vezes me preocupo”, confidenciou a Seewald, “e me pergunto se darei conta de tudo, mesmo que apenas do ponto de vista físico”.
Com o enorme volume de trabalho que está fazendo para a Igreja e o imenso peso da responsabilidade espiritual que porta, o Papa afirmou em 2010 sentir todo o peso de seus 83 anos: “confio no fato de que o bom Deus me dá a força de que necessito para fazer o que é necessário. Mas também me dou conta de que as forças vão diminuindo”.
Ele sabe que está “nos limites do que é humanamente impossível naquela idade”.
É neste contexto que nasceu nele a hipótese (no momento apenas uma hipótese) de aproveitar a passagem dos 85 anos para transmitir o cargo. Todavia, ele mesmo havia declarado um problema moral.
Ao próprio Seewald – que lhe havia interpelado durante a terrível tempestade relacionada ao escândalo de pedofilia – o papa havia explicado:
“Quando o perigo é grande não se pode escapar. Eis porque este seguramente não é o momento de renunciar. Exatamente num momento como este é que se deve resistir e superar a situação difícil. É possível renunciar num momento de serenidade, ou quando simplesmente não há mais o que fazer. Mas não se pode fugir exatamente no momento do perigo e dizer: ‘disto se ocupe um outro’.”
Hoje aquela terrível tempestade, que Bento XVI definiu a “pior perseguição”, já parece superada pela Igreja graças exatamente à condução transparente e santa deste pontífice que soube pedir perdão e ensinar humanidade e humildade (em Malta, um representante das vítimas de abuso, Joseph Magro, depois do encontro com o Santo Padre, declarou: “O Papa chorou junto comigo, mesmo não tendo qualquer culpa por aquilo que me aconteceu”).
Todavia o momento da Igreja é sempre difícil e há uma obstinação particular exatamente no que diz respeito a este pontífice. O filósofo judeu francês Bernard Henri Lévy denunciou que todas as vezes em que se fala do Papa Ratzinger “a discussão é dominada por preconceitos, por desonestidade ou pela mais completa desinformação”.
Quanto mais se conhece este homem de Deus como um pai humilde, sábio, humano, mais parece provocar-se a corja a demonizá-lo e a humilhá-lo.
Basta rever as crônicas das últimas semanas: em 13 de setembro houve quem quisesse inclusive levá-lo ao tribunal de Haia com a surreal acusação de “crimes contra a humanidade”, enquanto da Alemanha chegavam vozes hostis à viagem pontifícia, em 20 de setembro, Umberto Eco lança a sua ridícula rejeição do papa como teólogo sustentando que até “um aluno da escola elementar” argumentaria melhor do que ele.
Nestes dias na Alemanha foi recebido por várias manifestações hostis e, segundo uma pesquisa, dois terços dos católicos alemães (em debandada graças a décadas de liderança progressista da Igreja alemã) definiram “pouco ou nada importante” para eles a visita do Papa.
Enquanto isto cem parlamentares polemicamente se ausentaram quando ele devia falar no Bundestag.
Tanta intolerância e tantos preconceitos mostram-se ainda mais desmotivados vista a admiração geral que suscitou em seguida o discurso do Pontífice no parlamento alemão (é sempre assim: também com a viagem à Grã-Bretanha os gélidos ingleses acabaram se enamorando desde pontífice sábio e humilde).
Giuliano Ferrara – que é um homem culto e consciente – depois do discurso no Bundestag manifestou seu entusiasmo, publicou inteiramente um artigo no “Foglio”, acrescentou um comentário filosófico em que se definiu “ratzingeriano” e – embora não seja religioso – chegou a afirmar: “Somente um Papa pode nos salvar”.
Ferrara que nos últimos tempos (enganando-se, penso eu) temia que o grande papa Ratzinger (“o nosso amado Papa”) se intimidasse (pelas virulentas reações) depois do discurso de Ratisbona e que o via “imerso nas águas da fé apenas”, de onde o Pontífice “convidava a rezar e expiar as culpas pessoais e as da igreja”, dedicado à reconstrução interior da fé dos cristãos, reencontrou aquele que considera o único verdadeiro e grande líder da humanidade nesta conjuntura histórica:
“No esplêndido discurso feito no Bundestag, o Parlamento de sua pátria”, escreveu Ferrara, “ressurgiu em clara, simples e fulgidíssima luz – a luz da inteligência e da razão – aquele formidável professor Ratzinger que foi eleito como guia da Igreja de Roma com uma plataforma de luta intelectual e ética à deriva relativista e niilista do ocidente moderno. Que somente um Papa pode salvar. Bento surpreendeu a todos. Nada de intuições pastorais minimalistas, nada de catequese ordinária, e em seu lugar um enérgico, nítido e extraordinário convite à substância daquilo que é político, público, e à questão filosófico-jurídica de como se pode fazer a coisa justa, levar uma vida justa, conduzir governos e estados justos, fazer leis justas num mundo que não mais depende da tradição, da autoridade intrínseca da fé, mas da democracia majoritária. Foi – acrescenta Ferrara – uma grande lição filosófica, histórica e teológica sobre os fundamentos, mais, sobre a fundação política, da nossa cultura e da nossa ideia de liberdade, de humanidade, de natureza e de razão. Os gigantes usam palavras simples e conceitos ao alcance de todos, não são esotéricos, falam ao centro forte e realista da inteligência humana. E assim fez o Papa (…). Não é um discurso permeado de polêmicas e sofismas. Se somos livres, se estamos num mundo laico, se somos donos de nosso destino é porque somos cristãos. O cristianismo não impôs a Revelação como lei, não é a ‘sharia’, não é um espaço mítico para deuses litigiosos. Na base dos direitos humanos, das conquistas do Iluminismo, da própria ideia moderna de consciência, está a escolha cristã e católica em favor do direito da natureza e da lei da razão”.
Ferrara o explica muito bem. Mas está diante dos olhos de todos a grandeza e a humildade deste homem de Deus, que desejava trabalhar pelo Reino de Deus através do estudo e com os livros, que não desejava ser nomeado bispo, nem prefeito do ex-Santo Ofício, que dele tentou demitir-se duas vezes e que – enquanto o elegiam Papa, na Sistina – rezava assim: “Senhor, não faça isto comigo”.

O povo cristão – como mostram os dois milhões de jovens reunidos em Madri em agosto – sabe que este Papa chega ao coração e à inteligência como nenhum outro e as mentes mais límpidas da cultura laica sabem que hoje Bento XVI é o único farol da humanidade num contexto muito nebuloso. Todos esperamos que não nos abandone na tempestade, que jamais deixe o seu ministério de pai de todos.

Porque nem todos os papas são iguais. São Vicente de Lérins dizia que “Alguns papas Deus nos dá, a alguns Ele tolera, outros nos inflige”. Bento XVI é um dom ao qual não podemos renunciar.

Antonio Socci
Do “Libero”, 25 de setembro de 2011
Tradução: OBLATVS
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