“A luz deriva do bem e é imagem da bondade”: a metafísica da luz do Pseudo Dionísio Areopagita na concepção artística do abade Suger de Saint-Denis


Artigo publicado em Scintilla. Revista de Filosofia e Mística Medieval.
Vol. 6 – n. 2 – jul./dez. 2009, p. 39-52 (ISSN 1806-6526).

O lugar [Saint-Denis] gozava de uma nobreza muito antiga e se distinguia por sua dignidade régia; costumava ser usado como palácio real e militar. Sem demora ou fraude era entregue a César o que é de César, mas não se tributava a Deus o que é de Deus com a mesma exatidão e fidelidade. Falo do que ouvi, não do que vi: freqüentemente, dizem alguns, o próprio claustro do mosteiro se enchia de soldados, urgiam-se negócios e pleitos, e às vezes era aberto a mulheres. Quem nesse ambiente era capaz de pensar no celeste, no espiritual e no divino? Mas agora ali se busca a Deus, cultiva-se a continência, vive-se a disciplina com vigilância e freqüentam-se as leituras santas. O silêncio habitual e a ausência perpétua de todo ruído mundano convidam a meditar as realidades celestiais. Ademais, a ascese da continência e o rigor da observância se alternam com a doçura dos hinos e salmos (…)

Não reproduzi as desventuras passadas para confusão ou opróbrio de ninguém, mas para ressaltar com mais graça e formosura o esplendor da mudança, comparada com a vida anterior. Pois os bens atuais se destacam ainda mais quando cotejados com os males anteriores. As coisas semelhantes entre si se conhecem por sua analogia, mas as que são contrárias agradam ou desgostam mais. Por exemplo, junta o negro com o branco: pelo mútuo contraste começarás a distinguir cada um por sua própria cor. O mesmo ocorre com a fealdade, que, próxima da beleza, faz com que esta se torne ainda mais formosa e a outra mais disforme.


Carta 78 (4, 5) de Bernardo de Claraval a Suger, abade de Saint-Denis.

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Rosácea do transepto norte da basílica de Saint-Denis. O tema é a Criação, com Deus no centro, os seis dias da Criação no segundo círculo, o Zodíaco no terceiro círculo representando a harmonia da ordem celeste e, no círculo maior, os trabalhos dos homens que representam a ordem da terra. Tudo se expande e difunde a partir da irradiação do Bem, exatamente como os escritos do Pseudo-Dionísio Areopagita.

Em 1127 São Bernardo (1090-1153) se reconciliou com Suger (c. 1085-1151) (1). Em uma carta (n. 78) (2), Bernardo congratulou-se efusivamente com ele por ter reformado sua abadia, mas, sobretudo, por passar a viver uma vida verdadeiramente cristã, modesta, mesmo em meio ao fausto do poder. (3)

Essa importante reforma e redecoração levada a cabo por Suger em Saint-Denis, a mais régia das igrejas (originalmente um mosteiro), deu origem a uma nova arte, o gótico (4), que, em Saint-Denis, foi a mais perfeita expressão concreta da filosofia da metafísica da luz do Pseudo-Dionísio Areopagita (séc. V). No espetáculo poético da esfuziante irradiação da luz em Saint-Denis, a transcendência repousou na matéria, a luz na cor, a contemplação na ação.

Feliz com sua obra, Suger descreveu-a em dois tratados, “Das obras realizadas durante sua administração” (De rebus in administratione sua gestis) e o “Segundo livro da consagração da igreja de Saint-Denis” (Libellus alter de consecratione ecclesiae sancti Dionysii). (5) Ele concebeu seu monumento como uma obra teológica, naturalmente alicerçada e influenciada pelos (supostos) escritos do patrono da abadia, São Dinis. (6) Todos os restos mortais dos reis que ali descansavam estavam na companhia de um túmulo sagrado, o do próprio Dionísio. (7)

Esses textos (Corpus Dionisiacum), os mais importantes da tradição mística medieval, foram oferecidos ao rei Pepino, o Breve (715-768) pelo papa Paulo I (†767). Luís, o Piedoso (778-840) encomendou ao abade Hilduíno a tradução do códice grego. O trabalho foi concluído em 835, mas a tradução foi mal feita, de modo que Carlos II, o Calvo (823-877) pediu uma nova tradução, desta vez ao “pai da filosofia medieval”, o irlandês João Escoto Eriúgena (c. 815-885), que terminou o trabalho em 862. (8)

Assim, no tempo do abade Suger, os escritos do Pseudo Dionísio circulavam em todos os ambientes intelectuais da Europa: de Hugo (1096-1141) e Ricardo de São Vítor (†1173) a Pedro Abelardo (1079-1142) e Pedro Lombardo (c. 1110-1164), todos o estudaram e o comentaram.

Mas qual a fundamentação filosófica para o esplendor de Saint Denis? Como o Pseudo Dionísio estrutura a meditação filosófica de Suger exposta em seus tratados? Nosso objetivo nesse opúsculo é estabelecer essa conexão, apresentar as linhas-mestras dos dois tratados de Suger e confrontá-los com os aspectos mais gerais dos textos do Areopagita, particularmente em seu texto Dos nomes divinos, uma das obras do Corpus Dionisiacum.

Consonantia et claritas

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Vitral anagógico (1140-1144). Saint-Denis.
“Também fizemos pintar, pelas requintadas mãos de muitos mestres de diversas nações, os novos vitrais de uma variedade maravilhosa, desde o primeiro que começa com a Árvore de Jessé no presbitério da igreja até o que está colocado acima da porta principal, na entrada da igreja, tanto no nível superior quanto no inferior. Um dos quais, elevando-nos do material ao imaterial, representa o apóstolo Paulo dando voltas no moinho [205] e os profetas trazendo os sacos para o moinho” (os grifos são nossos), Suger, De rebus in administratione sua gestis, XXXIV.

Em Dos nomes divinos, o Pseudo Dionísio afirma que as coisas divinas, inteligíveis, revelam-se e mostram-se a nós de acordo com a medida da inteligência de cada um, embora permaneçam incompreensíveis para tudo aquilo que está no âmbito dos sentidos. No entanto, o Bem não permanece totalmente incomunicável, pois, por sua bondade, manifesta seu “raio supersubstancial”, e assim ilumina cada criatura proporcionalmente à sua inteligência (I, §1, 6 e §2, 10). (9)

Trata-se de uma concepção emanacionista, baseada no modelo da luz: o ser tem a natureza da luz e emana como esta. O Bem é belo, e é harmonia e luz, proporção e claridade. Esplendor. Luz. O homem deve mirá-la, amá-la e aspirar a ela. (10)

Para o Areopagita, deve-se atribuir à Trindade a Substância supersubstancial, a inefabilidade, a “afirmação e negação de toda coisa que está acima de toda afirmação e negação” (II, §4, 42). (11) Embora tentemos sempre definir o Uno, ao fim das contas, dele não podemos dizer nada: isso é o que exige o seu programa de teologia negativa – uma reflexão sobre a inadequação existente entre todas as nossas denominações, baseadas na pluralidade e na contraposição. (12) Nossa linguagem, imperfeita, somente expressa os símbolos do inefável (que é a verdadeira natureza do mundo), nunca o próprio inefável. (13)

O Bem, “divindade superdivina”, envia os raios de sua bondade absoluta. É como o Sol que, pelo simples fato de existir, ilumina as coisas que podem participar de sua luz. Mais: o Bem é tão perfeito que seus raios não só O difundem, mas também fazem com que os seres inferiores tendam aos superiores e tornem o desejo do bem algo imutável e elevado.

Por exemplo, as luzes das várias lâmpadas de uma casa, mesmo que totalmente imanentes umas das outras, mantêm sua distinção recíproca, que subsiste, e estão “unidas na distinção e distintas na união”. Pois todas essas luzes se unem em “uma só luz e fazem brilhar uma única luz indivisível” (II, §4, 45). (14)

Tudo isto provém da Bondade, causa universal da união e da reciprocidade existente no “ordenamento supracósmico” (IV, §2, 102-104). (15) Exatamente como o planejamento espacial da rosácea do transepto norte da basílica de Saint-Denis (imagem 1): o Bem, no centro de tudo,

…é causa também dos movimentos da enorme evolução celeste, que sucede sem rumor, e das ordens, das belezas, das luzes e das estabilidades das estrelas e dos vários cursos de algumas estrelas errantes e do retorno periódico aos seus pontos de partida das duas luminárias que a Sagrada Escritura chama grandes (16), por cujo curso são definidos os dias e as noites, e medidos os meses e os anos, que precisam os movimentos cíclicos do tempo e das coisas que estão submetidas ao tempo, os enumeram, os ordenam e os contêm (IV, §4, 112). (17)

Paz. Harmonia. Ordem. Hierarquia. Todos esses conceitos, completamente estranhos ao homem atual, estruturavam a percepção das sensibilidades letradas dos séculos XI-XII para as coisas sublimes, para a concórdia, a adequação, a conformidade. (18) Tudo a partir da difusão da luz:

A luz deriva do bem e é imagem da bondade; por essa razão celebra-se o bem chamando-o luz como o arquétipo que se manifesta na imagem (…) a imagem onde se manifesta a bondade divina, isto é, este grande sol todo luminoso e sempre reluzente segundo a tênue ressonância do bem, ilumina todas aquelas coisas que são capazes de participar dele e tem uma luz que se difunde sobre todas as coisas e estende sobre a totalidade do mundo visível, a todos os escalões de alto a baixo, os esplendores dos seus raios, e, se alguma coisa não participa nesta irradiação, tal fato não se deve atribuir à sua obscuridade ou à insuficiência da distribuição da sua luz, mas às coisas que não tendem à participação da luz por causa de sua inaptidão em recebê-la (IV, §4, 117). (19)

E por não terem princípio nem fim, as inteligências divinas giram de modo helicoidal em torno do belo e do bem e, em relação às coisas inferiores, se movem em linha reta. O mesmo ocorre com a alma iluminada, que se move em um movimento helicoidal de atos complexos e progressivos (IV, §8-9, 147-148). (20)

Em outra obra, Da hierarquia eclesiástica, o Areopagita deixa clara a forma como nós podemos ascender às coisas superiores:

Os seres celestes, devido à sua natureza intelectual, vêem a Deus diretamente. Nós, pelo contrário, nos elevamos até onde podemos na contemplação do divino por meio de imagens sensíveis (I, §2, 373B). (21)

Os homens, particularmente aqueles que pertencem à hierarquia eclesiástica, necessitam servir-se de signos sensíveis para se elevarem espiritualmente às realidades do mundo inteligível, em direção ao divino (I, §5, 377a; V, §2, 501D). (22) Ao ler o Pseudo Dionísio, Suger aceitou essa escala de ascensão rumo ao mundo real, e tentou, de todas as maneiras, salvar a sua alma, reformando a sua igreja e dando o exemplo para fomentar um zelo constante no cuidado da Igreja de Deus. E isso

…sem nenhum desejo de vanglória e sem exigir nenhuma retribuição de louvor humano ou recompensa passageira, a não ser para que a Igreja, depois de nossa morte, não visse diminuída sua fortuna por algum engano ou fraude de alguém…
Suger, Das obras realizadas durante sua administração, I, 156. (23)

Deus é luz

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Saint-Denis. Fachada ocidental. Foto: Olaf Lange. Site: http://www.kto-to.de

Assim, embasado na metafísica da luz do Pseudo Dionísio Areopagita, Suger pôs mãos à obra. Entre 1137 e 1144, dirigiu pessoalmente a construção de um pórtico e fachada novos, além de um coro e uma galeria coberta. No portal da igreja, Suger mandou gravar com letras douradas e de cobre os seguintes versos:

…Quem quer que tu sejas,
caso queiras exaltar a glória dessas portas,
que não te deslumbres com o ouro nem com os gastos,
mas com o trabalho da obra.
Pois a obra nobre brilha, mas esta obra,
que brilha com nobreza,
iluminará as mentes para que, sendo luzes verdadeiras
cheguem à luz verdadeira,
onde Cristo é a verdadeira porta.
A porta dourada define dessa maneira a luz interior:
a mente estúpida se eleva em direção à verdade passando pelo material
e antes, imersa no abismo, ressurge à vista dessa luz.

E no lintel:

Acolhe, Juiz implacável, as orações de teu filho Suger,
Faz com que, por tua clemência, eu esteja entre as tuas ovelhas.
Suger, Das obras realizadas durante sua administração, XXVII, 12-22. (24)

Esse “poema” define muito bem qual era a função da obra de arte no pensamento de um de seus mecenas mais audaciosos: iluminar a alma e ajudá-la a caminhar passo a passo rumo à luz, graças, sobretudo, à qualidade, perfeição e significado das (novas) formas artísticas.

Parafraseando Boécio (outro autor muito lido na Alta Idade Média) (25), Suger quis fazer com que as coisas existentes se aproximassem o máximo possível das formas essenciais. (26) Em outras palavras, ele tentou estreitar a distância entre a coisa concreta (id quod est) e sua essência (esse), ao colocar o mundo material a serviço da elevação espiritual, ao modelar os edifícios e incrementar os tesouros da Igreja, e, sobretudo, ao ajustar a reforma de sua construção às “harmonias sublimes do sobrenatural”. (27)

Em seu conjunto, o esquema decorativo foi inspirado pelos escritos de Hugo de São Vítor (1096-1141) (28), mas todo o alicerce filosófico pertence à inspiração de natureza neoplatônica dos escritos do Pseudo Dionísio. (29)

Suger quis que todo o interior da igreja fosse invadido pela luz. Sua obra é o apogeu das inovações monásticas do século XI. (30) Mas à filosofia mística Suger legou uma das passagens mais deslumbrantes para a plena compreensão do simbolismo do concreto como suporte à contemplação das realidades celestes:

Assim, por puro amor à Mãe Igreja, contemplamos esses diferentes ornamentos novos e antigos, e vemos a admirável cruz de Santo Elói, jóia incomparável, que o povo chama “Crina”, posta acima do altar de ouro. Então digo, suspirando do mais profundo do coração: “Toda pedra preciosa é Teu ornamento, o sárdonix, o topázio, o jade, o crisólito, o ônix e o berilo, a safira, o carbúnculo e a esmeralda. (31) Para aqueles que reconhecem as propriedades das pedras preciosas, salta à vista, para grande assombro, que, da lista mencionada, só nos falta o carbúnculo, mas as outras abundam copiosamente.

Então, quando por causa da dileção ao decoro (32) da casa de Deus, o agradável aspecto das pedras preciosas de múltiplas cores me distancia, pelo prazer que produzem, de minhas próprias preocupações, e quando a honesta meditação me convida a refletir sobre a diversidade das santas virtudes, trasladando-me das coisas materiais para as imateriais, creio residir em uma estranha região do orbe celeste, que não chega a estar inteiramente na superfície da terra nem na pureza do céu, e creio poder, pela graça de Deus, trasladar-me de um lugar inferior para outro superior, de um modo anagógico.
Suger, Das obras realizadas durante sua administração, XXXIII, 26-14. (33)

Com base em Ezequiel, Suger ornamenta a decoração do altar e medita as santas virtudes das pedras preciosas. Na Idade Média, acreditava-se que as pedras tinham poderes curativos. (34) O tema foi herdado da Antigüidade: com base na História Natural, de Plínio, o Velho, Isidoro de Sevilha (c. 560-636) descreve, em suas Etimologias, a origem de pedras verdes (doze classes), rosas, púrpuras, brancas, negras, cristalinas, cor de fogo, douradas e de cores variadas, e afirma que a origem das gemas remonta às montanhas do Cáucaso, quando Prometeu colocou um fragmento de pedra em um ferro e o transformou em um anel. (35)

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Cristo entre a Igreja e a Sinagoga (detalhe do Vitral anagógico, 1140-1144). Saint-Denis.

Seja como for, Suger descreve um estado quase de transe induzido ao referir-se ao efeito hipnótico das cores das gemas, que fazem com que seu espírito seja transportado para outra dimensão (como uma experiência premonitória da vida após a morte, e da beleza do encontro com a verdadeira Luz). A seguir, opondo-se à tradição cisterciense, ele confessa que lhe compraz que os objetos mais valiosos sirvam, acima de tudo, à administração da Santa Eucaristia. E uma vez mais ele recorre à Bíblia para fundamentar a sua escolha pela suntuosidade:

Cada qual siga sua convicção. (36) Confesso que a mim me compraz sobretudo que os objetos de grande valor, os objetos mais luxuosos, devem servir acima de tudo a administração da Sacrossanta Eucaristia. Se os vasos de ouro das libações, os copos de ouro e os pequenos almofarizes serviam, segundo a palavra de Deus e a ordem do Profeta, para recolher o sangue de bodes e novilhos ou das vacas vermelhas, quanto mais os cálices de ouro, as pedras preciosas e tudo que existe de mais valioso entre todas as coisas criadas deve ser exposto, com reverência constante e plena devoção para receber o sangue de Cristo. (37) Certamente nem nós nem nossas possessões são suficientes para esse serviço. (…)

Os detratores objetam que uma mente santa, um espírito puro e uma intenção fiel deveriam ser suficientes para a administração da santa Eucaristia, e nós também afirmamos explícita e expressamente que essa disposição interior é essencial. Mas reconhecemos que nos ornamentos externos dos santos cálices não deve haver nenhum outro propósito que não seja o serviço do sagrado sacrifício, com toda a pureza interior e toda nobreza exterior. Pois em todas as coisas devemos servir de uma maneira universal e com máxima decência a Nosso Redentor, que em todas as coisas de uma maneira universal e sem qualquer exceção não se negou a nos ajudar; que uniu a sua natureza à nossa sob a forma de um único e admirável indivíduo que, colocando-nos à sua direita nos prometeu que, em verdade, possuiríamos o seu reino (38), Nosso Senhor que vive e reina pelos séculos dos séculos. (39)
Suger, Das obras realizadas durante sua administração, XXXIII, 29-19. (40)

Conclusão

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Saint-Denis. Nave central. Foto: Olaf Lange. Site: http://www.kto-to.de

A filosofia do Pseudo Dionísio Areopagita embebeu a meditação estética do abade Suger de Saint-Denis, de modo que lhe propiciou uma experiência místico-sensorial de profundo e duradouro alcance para a história da arte no ocidente medieval. A busca do luxo e da suntuosidade no cerimonial, e sobretudo a escolha da inundação da luz através dos vitrais fez com que o Suger “arquiteto” agisse como um filósofo, um neoplatônico do século XII. (41)

Assim, propondo-se a “com todo o ânimo e empenho de sua mente acelerar a ampliação daquele lugar”, Suger, o regente do reino e filho de camponeses entusiasmado com a metafísica da luz do Areopagita, sem o saber, sintetizou todas as formas arquitetônicas regionais em um estilo novo, que ele chamava moderno, e que hoje chamamos gótico.

A Filosofia nunca mais influenciaria a arquitetura de maneira tão duradoura.

*

Esse opúsculo é dedicado à memória de Erwin Panofsky (1892-1968) e Georges Duby (1919-1996), grandes intelectuais que se dedicaram ao estudo de Suger e da arte medieval.

Agradeço sobremaneira a leitura crítica e correções do amigo Armando Alexandre dos Santos.

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Notas

(01) Apesar de a abadia de Saint-Denis ser um lugar régio, centro de educação de príncipes, não tinha boa reputação antes da chegada de Suger à abadia. Bernardo falava dela como a sinagoga de Satanás e Abelardo criticava sua corrupção sob o abaciado de Adão, predecessor de Suger. Além dessa degeneração moral, havia ainda a decadência física. A infraestrutura arquitetônica estava quase em ruínas. JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico y el Gótico. Madrid: A. Machado Libros, 2003, p. 257.

(02) Obras Completas de San Bernardo VII. Cartas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXC, pp. 286-303.

(03) Para a vida do abade Suger, o texto clássico é de PANOFSKY, Erwin. “O abade Suger de S. Denis”. In: Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, pp. 149-190. Suger foi conselheiro de Luís VI (1081-1137) e Luís VII (1120-1180), e regente de 1147 a 1149, quando Luís VII se engajou na Segunda Cruzada. É considerado um dos maiores patronos da arte em toda a Idade Média. Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 512.

(04) WILLIAMSON, Paul. Escultura Gótica (1140-1300). São Paulo: Cosac & Naif, 1998, p. 11.

(05) Os dois documentos foram publicados em El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos (ed. de Erwin Panofsky). Madrid: Ediciones Cátedra, 2004. Esta será a edição que embasará o nosso artigo.

(06) Primeiro bispo de Paris, martirizado em 272. Na Idade Média, acreditava-se que São Dionísio e Dionísio Areopagita eram a mesma pessoa.

(07) DUBY, Georges. O tempo das catedrais. A Arte e a Sociedade (980-1420). Lisboa: Editorial Estampa, 1979, p. 104.

(08) MARTINS-LUNAS, Teodoro H. “Introducción”. In: Obras completas del Pseudo Dionisio Areopagita. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCV, p. 20.

(09) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos (introd., trad. e notas de Bento Silva Santos). São Paulo: Attar Editorial, 2004, p. 59-60.

(10) TATARKIEWICZ, Wladyslaw. Historia de la Estética. II. La estética medieval. Madrid: Akal Ediciones, 2002, p. 33.

(11) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 73.

(12) FLASCH, Kurt. El pensament filosòfic a l’Edat Mitjana. D’Agustí a Maquiavel. Santa Coloma de Queralt: Obrador Edèndum, 2006, p. 76.

(13) O inefável é aquilo que, por sua beleza indescritível, não se pode nomear ou descrever, e, por isso, tem caráter incomunicável, indizível. Não obstante sua inacessibilidade substancial, o prazer que causa ao seu contemplador é inebriante, encantador. Para o Areopagita, o inefável é o próprio Bem, que é verdadeiro e real, isto é, Deus. De modo muito inferior, a sensação do inefável está presente em muitas sensações humanas (a música, o amor, a liberdade, etc.). Este tema foi abordado pelo filósofo francês (de origem russa) Vladimir Jankélévitch (1903-1985).

(14) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 73.

(15) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 91.

(16) “Deus disse: ‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra’, e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom”, Gn 1, 14-18; “Ele fez os grandes luminares: porque o seu amor é para sempre! O sol para governar o dia, porque o seu amor é para sempre! A lua e as estrelas para governarem a noite, porque o seu amor é para sempre!” Sl 136 (135) 7-9.

(17) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 93.

(18) “Ordem ‘é o que podemos perceber no espetáculo dos planetas onde cada elemento ocupa seu lugar e sua ordem sem ser um empecilho para o outro’. Esta sentença formulada no século XII no círculo da escola de Abelardo, sugerindo a harmonia comum ao cosmo e à congregação dos homens, situa-se na longínqua herança da concepção antiga, grega e romana, de ordo rerum. Desde a época dos Pais da Igreja, os autores cristãos encontraram nos antigos, estóicos e sobretudo platônicos, um antigo quadro de reflexão sobre o sistema social concebido como uma concórdia de ordens reguladas de acordo com o modelo da harmonia dos planetas.” – IOGNA-PRAT, Dominique. “Ordem(ns)”. In: LE GOFF, Jacques, e SCHMITT, Jean-Claude (coords.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. Bauru, SP: EDUSC; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 305.

(19) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 94.

(20) DIONÍSIO PSEUDO-AREOPAGITA. Dos nomes divinos, op. cit., p. 99-100. Platão já afirmara no Timeu (VI, 33b): “Quanto à forma (do universo), concedeu-lhe a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesma, por acreditar que o semelhante é mil vezes mais belo do que o dessemelhante. Ademais, por vários motivos, deixou lisa sua superfície exterior.”; e VI, 34a: “…por todas essas razões, a divindade eterna, tendo em mente a divindade que viria algum dia a existir, deixou-a lisa e uniforme, com todas as partes eqüidistantes do centro, completa e perfeita e composta só de corpos perfeitos. No centro colocou a alma, fazendo que se difundisse por todo o corpo e completasse seu envoltório, depois do que formou o céu circular com movimento também circular, céu único e solitário, porém capaz, em virtude de sua própria excelência, de fazer companhia a si mesmo, sem necessitar de ninguém nem de conhecimentos nem de amigos, mas bastando-se a si mesmo. Com todas essas qualidades, engendrou uma vida feliz.” – PLATÃO. Diálogos (trad. de Carlos Alberto Nunes). Belém: EDUFPA, 2001, p. 69-70.

O tema do círculo como figura geométrica perfeita remonta, no mínimo, a Santo Agostinho. Em sua obra Sobre a potencialidade da alma (Petrópolis, RJ: Vozes, 2005), Agostinho dialoga com Evódio sobre as figuras geométricas, discutindo as propriedades destas, entre elas a igualdade, até chegarem ao círculo, a figura geométrica mais perfeita. Agostinho diz (cap. 11, p. 58): “Quanto a figura mais excelente, não duvidará que seja aquela cujo perímetro está eqüidistante do centro de tal maneira que qualquer ponto da superfície dista igualmente do centro, sem ângulos que impeçam a igualdade, de cujos centros podemos traçar linhas iguais para qualquer dos limites da figura”.

(21) “La jerarquía eclesiástica”. In: Obras completas del Pseudo Dionisio Areopagita. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCV, p. 192.

(22) “La jerarquía eclesiástica”, op. cit., p. 195 e 236-237.

(23) El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos (ed. de Erwin Panofsky). Madrid: Ediciones Cátedra, 2004, p. 57.

(24) El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos, op. cit., p. 65.

(25) Juntamente com Agostinho e o próprio Pseudo Dionísio Areopagita.

(26) FLASCH, Kurt. El pensament filosòfic a l’Edat Mitjana, op. cit., p. 89.

(27) DUBY, Georges. “Arte e Sociedade”. In: DUBY, Georges e LACLOTTE, Michel. História Artística da Europa I. A Idade Média. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997, p. 60.

(28) WILLIAMSON, Paul. Escultura Gótica (1140-1300), op. cit., p. 12.

(29) JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico y el Gótico, op. cit., p. 257.

(30) DUBY, Georges. “Arte e Sociedade”, op. cit., p. 60.

(31) “Assim diz o Senhor Iahweh: Tu eras um modelo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza perfeita. Estavas no Éden, jardim de Deus. Engalanavas-te com toda sorte de pedras preciosas: rubi, topázio, diamante, crisólito, cornalina, jaspe, lazulita, turquesa, berilo; de ouro eram feitos os teus pingentes e as tuas lantejoulas. Todas essas coisas foram preparadas nos dias em que foste criado”, Ez XXVIII, 12-13.

(32) No original, decorus (acatamento das normas morais, decência). Segundo Suger, esse conceito, associado ao de convenientia (concórdia), determina a utilização das pedras preciosas na missa, pois elas fazem com que o espectador concentre seu olhar nelas e assim sua mente seja captada para o centro do sacrifício de Cristo no altar. JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico y el Gótico, op. cit., p. 269, nota 314.

(33) El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos, op. cit., p. 79-81, confrontado com JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico y el Gótico, op. cit., p. 269-270.

(34) Por exemplo, Afonso X, o Sábio, entre 1252 e 1284, mandou traduzir um Lapidário árabe para o castelhano. Nele, “apresentam-se 360 pedras, cujas propriedades estão relacionadas aos 360 graus do Zodíaco, trinta pedras para cada um dos 12 signos. Cada uma recebe suas propriedades físicas e suas virtudes operativas das estrelas que formam as constelações. A maior parte das descrições das pedras traz a indicação de uso para o tratamento de doenças, mas também seu emprego nas mais diversas circunstâncias da vida cotidiana. As receitas combinam, freqüentemente, o uso de partes de animais, e um bom número delas emprega também as plantas. Pedras, plantas, animais, seres sutis e astros intervêm continuamente na vida humana.” – MATTOS, Carlinda Maria Fischer. A classificação dos seres no “Lapidário” de Alfonso X, O Sábio. Tese de doutorado, UFRGS, 2008.

(35) SAN ISIDORO DE SEVILLA. Etimologías II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCIV, p. 279. “Nos casos em que se interessavam por explicações naturalistas, recorria-se à Naturalis historia de Plínio, o Velho, morto no ano de 79 d. C.” – FLASCH, Kurt. El pensament filosòfic a l’Edat Mitjana, op. cit., p. 110.

(36) Rm 14, 5.

(37) Hb 9, 13-14.

(38) Mt 25, 33.

(39) Tb 9, 2; Ap 1, 18; 5, 14; 11, 15; 15, 7.

(40) El Abad Suger. Sobre la Abadía de Saint-Denis y sus tesoros artísticos, op. cit., p. 80-83, confrontado com JAQUES PI, Jéssica. La Estética del Románico y el Gótico, op. cit., p. 270-271.

(41) Parafraseio – e assim homenageio – Erwin Panofsky que, em sua magistral obra intitulada Arquitetura Gótica e Escolástica (Martins Fontes, 2001) assim se referiu a Pierre de Montereau: “…parece que em 1267 o próprio arquiteto foi considerado uma espécie de escolástico (p. 17).
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