As três idades da vida interior – IV

Continuação de:
Parte I, Parte II e Parte III. Continua…

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No século XVIII, Scaramelli (1687-1752), a quem seguiram muitos autores deste tempo, propôs uma divisão totalmente distinta.


Em primeiro lugar trata da ascética e da mística, já não na mesma obra, senão em duas obras diferentes. O Diretório ascético (Direttorio ascetico), bem mais extensa que o outro, possui quatro tratados: 1ª – A perfeição cristã e os meios que a ela conduzem; 2ª – Os obstáculos (ou a via purgativa); 3ª – As disposições próximas à perfeição cristã, que consiste nas virtudes morais em grau perfeito (ou a via dos proficientes); 4ª – A perfeição essencial do cristão, que consiste nas virtudes teologais, e especialmente a caridade ( o amor de conformidade doa perfeitos).

Este Diretório ascético não menciona, por assim dizer, os dons do ESPÍRITO SANTO. E, contudo, o alto grau das virtudes morais que nele se descreve não se consegue sem eles [os dons], segundo a doutrina comum dos Doutores.

O Diretório místico(Direttorio mistico) compreende cinco tratados:
1°. Introdução, o qual trata dos dons do ESPÍRITO SANTO e das graças grátis datae;
2°. Da contemplação adquirida e da infusa, para a qual, Scaramelli o reconhece, bastam os dons;
3°. Dos graus da contemplação infusa, do recolhimento passivo à união transformante; no capítulo XXXII, Scaramelli reconhece que muitos autores ensinam que a contemplação infusa pode ser humildemente desejada por todas as almas interiores, mas conclue dizendo que praticamente, uma vez que não recebeu um chamado especial, é melhor não desejá-la: “Altiora te ne quaesieris” (item, TR. I, c.I, N° 10);
4°. Dos graus da contemplação infusa distinta (visões e locuções internas extraordinárias);
5°. Da purificação passiva dos sentidos e do espírito;

É de surpreender não encontrar senão ao fim deste Diretório místico o tratado da purificação passiva dos sentidos, a qual constitui para São João da Cruz e autores antes citados a entrada na via iluminativa.

Por medo, às vezes excessivo, do quietismo que tanto desacreditou a mística, muitos autores do século XVIII e XIX seguiram Scaramelli que passou a ser o ponto de referência[1]. Segundo estes autores a ascese trata dos exercícios que conduzem à perfeição pela via ordinária; enquanto que a mística tem por objeto a via extraordinária, à qual pertenceria a contemplação infusa dos mistérios da fé. Ao fim do século XIX e começos do XX ainda persiste esta tendência, e bem marcada por certo, no livro do Pe. Maumigny, S.J., sobre a oração mental[2], e os de Mons. Farges[3], e na obra de M. Pourrat, sulpiciano, A Espiritualidade cristã, Introdução, p. VI, s.

Para estes autores, a ascese não somente é distinta da mística, senão que é algo separado dela; a primeira não está ordenada à segunda; porque a mística não trata senão das graças extraordinárias que não são necessárias à perfeição plena da vida cristã. Alguns escritores que não sustentaram a mesma idéia, argumentando que Santa Teresa do Menino JESUS, não tendo recebido graças extraordinárias, se santificou pela via ascética e não pela via mística. Diria-se que apostou o que conseguiria e ganhou a aposta.
Desde uns trinta anos, o Pe. Arintero, O.P.[4], Monsenhor Saudreau[5], Pe. Lamballe, Eudista[6], o Pe. De La Taille, S.J.[7], o Pe. Gardeil, O.P.[8], o Pe. Joret, O. P.[9], o Pe. Gerest[10], muitos Carmelitas na França e Bélgica[11]; os Beneditinos Dom Huyben, Dom Louismet e outros[12], examinaram minuciosamente os fundamentos da atitude de Scaramelli e seus sucessores.

Como já demonstramos amplamente em outra parte[13], nós igualmente a estes autores precisamos e traçamos, a propósito da divisão dada por Scaramelli e seus sucessores, as três seguintes questões:

1° É coisa segura que essa absoluta distinção e separação entre ascética e mística seja tradicional? Não é por acaso uma inovação introduzida no século XVIII? Está em conformidade com os princípios de Santo Tomás e com a doutrina de São João da Cruz? Santo Tomás ensina (I-II, q. 68) que os sete dons do ESPÍRITO SANTO, ainda que sendo especificamente distintos das virtudes infusas, residem em todos os justos, já que estão em conexão com a caridade.

Disse ainda, que são necessárias para a salvação, porque sucede que o justo se encontra às vezes em situações difíceis nas quais nem mesmo as virtudes infusas seriam suficientes, sendo necessária uma inspiração especial do ESPÍRITO SANTO à que os dons nos tornam dóceis. Santo Tomás considera ademais que os dons intervém com frequência nas circunstâncias ordinárias, para fazer conseguir às almas interiores e generosas, nos atos de virtude, a prontidão, o entusiasmo e a generosidade que estariam ausentes sem a intervenção do ESPÍRITO SANTO[14].


[1]N.d.t.: Preferi colocar que eles passaram a segui-lo, pois em português, passar a ser senhor, é muito mais que passar a ser um guia acadêmico acerca de um tema específico. No original é “se enseñoreó de ellos”.
[2]Prática da oração mental, 2º tratado: Oração extraordinária, Beauchesne, Paris, 1911.
[3]Os fenômenos místicos (tratado de teologia mística), Paris, 1920.
[4] La evolución mística, Salamanca, 1908. Cuestiones místicas, 2ª. ed., Salamanca, 1920.
[5] La vie d’union à Dieu, 3ª. ed., 1921; Les degrés de la vie spirituelle, 2º. vol., 5ª. ed., 1920; L’État mystique, sa nature, ses phases, 2ª. ed., 1921.
[6] La contemplation (principios de teología mística). París, Téqui, 1912.
[7]L’Oraison contemplative, París, Beauchesne, 1921, opúsculo; véase también Luis Peeters, S. J., Vers l’union divine par les exercises de Saint Ignace (Musaeum Lessianum), 2ª. ed., 1931.
[8] La structure de l’âme et l’expérience mystique, 2º. vol., Gabalda, 1927. Véase también la obra póstuma del mismo autor: La vraie vie chrétienne, París, 1935.
[9] La Contemplation mystique d’après Saint Thomas d’Aquin. París, 1923.
[10]Momento de vie spirituelle, 1923.
[11]Pe. GABRIEL DE SAINTE-MADELEINE, Carmelita descalço: “La contemplation acquise chez les théologiens carmes déchaussés”, artigo publicado em “La vie spirituelle” e republicado em nossa obra: Perfection chrétienne et contemplation, t. II, p. 745-769.
[12]Cf. A pesquisa sobre este ponto particular, aparece em “La vie spirituelle”, suplemento de setembro de 1929 até maio de 1931. Leia-se particularmente o que dizem os Padres Maréchal S. J., Alb. Valensin, S.J., De la Taille, S. J, Cayré, assuncionista, Jerónimo de la Madre de Dios, Carmelita, Schryvers,  Redentorista.
[13] Perfection chrétienne et contemplation, 13 ed., 1923, I I, introdução, c. I y III, a. 3 y 4; c. IV, a. 3, 4, 5; I u, c. V. a. 1, 2, 3, 4, 5; 7 ed., 1929, ibid. e apêndice. L’Amour de Dieu et la Croix de Jésus, 1929, I II, IV y V parI Les trois conversions et les trois voies, 1932, c. IV e apêndice.
[14]Cf. S. TOMÁS, I, II, q. 68, a. 1, 2, 5.
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