As três idades da vida interior – V

Por outro lado, São João da Cruz, como já dissemos, escreveu estas palavras, que não podem ser mais significativas: “A (purificação) sensitiva é comum e acontece* a muitos, e estes são os principiantes” [Noite Escura, 1. L, c. XIV]. Junto a ela começa, segundo o santo, a contemplação infusa.

Saiu a alma a começar o caminho e a via do espírito, que é dos ‘aproveitados’, que, por outro nome, chamam de via iluminativa ou de contemplação infusa, com a qual Deus, por si mesmo, anda apascentando e refazendo a alma sem discurso ou ajuda ativa da mesma alma[1].

O santo doutor não quis aqui ensinar uma coisa casual, mas uma coisa que é normal. São Francisco de Sales se expressa no mesmo sentido[2].

Não seria possível conciliar com esta doutrina a divisão proposta por Scaramelli, que não fala da purificação passiva dos sentidos e do espírito senão ao final da via unitiva, além de coisas, não apenas eminentes, mas ainda mais, extraordinárias.

 

2º Um se pergunta se tal distinção ou separação entre a ascese e a mística não diminui  a unidade da vida espiritual. Uma boa divisão, para não ser superficial e casual, ainda que bem estabelecida, há de fundar-se na definição mesma do conjunto que divide, na natureza desse conjunto que é, aqui, a vida da graça, chamada pela tradição “graça das virtudes e dos dons”[3], porque os Sete Dons do Espírito Santo, por estarem em conexão com a caridade, formam parte do organismo espiritual e são necessários à perfeição.
3º A divisão ou separação tão evidenciada entre a ascese e a mística, proposta por Scaramelli e por muitos outros, não diminui igualmente a elevação da perfeição evangélica, quando se trata dela na ascese, fazendo abstração dos Dons do Espírito Santo, da contemplação infusa dos mistérios da fé e da união que dela resulta? Não é certo que esta nova concepção rebaixa os motivos da prática da mortificação e do exercício das virtudes, ao perder de vista a intimidade com Deus à que nos dispõe essa mortificação e essas virtudes? Não é verdade que apequena as vias iluminativa e unitiva, quando as contempla enquadradas na ascese? Poderiam existir normalmente estas duas vias, sem o exercício dos Dons do Espírito Santo unido ao da caridade e ao das outras virtudes infusas? Não diminui, por fim, esta nova concepção, a importância e a gravidade da mística que, desconjuntada assim da ascese, toma o aspecto de coisa supérflua, de verdadeiro luxo próprio da espiritualidade de alguns privilegiados – luxo que por outra parte não está isento de perigos?

 

Existem verdadeiramente seis vias (três ascéticas e ordinárias, e três místicas e extraordinárias, não só de direito, mas sim de fato), ou são unicamente três as vias ou idades da vida espiritual, segundo o pensamento dos antigos?

 

Desde o momento em que se os separa da mística, os tratados ascéticos das vias iluminativa e unitiva  apenas compreendem nada mais que conceitos abstratos sobre as virtudes morais e teologais, ou, se prática e corretamente falam do progresso e da perfeição destas virtudes, como falou Scaramelli em seu Diretório Ascético, esta perfeição, segundo ensina São João da Cruz, é manifestamente inacessível sem a purificação passiva, ao menos sem a dos sentidos e sem o auxílio dos Dons do Espírito Santo. A questão se apresenta, pois, assim: a purificação passiva dos sentidos, através da qual, segundo São João da Cruz, começa a contemplação infusa e a vida mística propriamente dita, é por si mesma uma coisa extraordinária, ou é, ao contrário, uma graça normal, princípio de uma segunda conversão, que assinala a entrada na via iluminativa? É possível, sem esta purificação passiva, alcançar a perfeição de que trata Scaramelli em seu Diretório Ascético?
Não esqueçamos o que, a este respeito, adverte Santa Teresa: “Veem (muitas almas que querem voas antes que Deus lhes dê asas) em todos os livros de oração muitas coisas que devemos fazer: não se importar que falem mal de nós, antes ter nisso maior alegria do que quando falam bem , pouca estima da honra, um desprendimento de suas dívidas a receber, e muitas coisas semelhantes a estas, que a meu ver, Deus as dará, pois me parece serem bens sobrenaturais…”[4]. Entende, pois, a santa, que tudo isso é devido a uma inspiração especial do Espírito Santo, como as orações que chama “sobrenaturais” ou infusas.

Por todas essas razões, os autores contemporâneos que citamos mais acima rejeitam essa separação absoluta entre a ascese a mística, introduzida no século XVIII.

Convém aqui notar que a divisão de uma ciência ou de um dos ramos da teologia não é coisa fútil. Isto se pode ver na divisão da teologia moral, que difere notavelmente quando é feita partindo dos preceitos do Decálogo, ou com base nas das virtudes teologais e morais. Se se divide a teologia moral segundo os preceitos do Decálogo, muitos dos quais são negativos, se insiste mais nos pecados que se deve evitar que nas virtudes que devem ser praticadas a cada dia com maior perfeição; e com frequência não se destaca suficientemente a grandeza do supremo preceito do amor de Deus e do próximo, que é o fundamental do Decálogo, e que deve ser como a alma de toda a nossa vida. Pelo contrário, se se faz essa divisão com base na distinção das virtudes, então aparece claríssima a elevação das virtudes teologais, especialmente a proeminência da caridade sobre todas as outras virtudes morais, que nela devem se inspirar e tomar vida. Se faz, igualmente, ressaltar a grande influência das virtudes teologais, principalmente se vão acompanhadas de especial inspiração do espírito Santo; e a teologia moral, assim entendida, se desprende e desenvolve em teologia mística que é, segundo São Francisco de Sales, um mero desenvolvimento ou continuação do tratado do “Amor de Deus”.

 

Que é, de acordo com isso, a ascese para os teólogos contemporâneos que voltam à divisão tradicional? Partindo dos princípios de Santo Tomás de Aquino, da doutrina de São João da Cruz e também de São Francisco de Sales, a ascese trata da via purgativa dos principiantes que, entendendo que suas almas não devem permanecer atrasadas e na tibieza, se exercitam generosamente na prática das virtudes, mesmo que dentro do aspecto humano dessas virtudes, ex industria propria, com o socorro da graça atual ordinária. A mística, por sua vez, começa desde o momento em que se trata já da via iluminativa, lá onde os adiantados, iluminados pelo Espírito Santo, agem já, de um modo frequente e visível, segundo o aspecto sobre-humano dos Dons do Espírito Santo[5]. Guiados pela inspiração do Mestre Interior, não agem já somente ex industria propria, sendo que, o aspecto sobre-humano dos dons, latente até este momento, ou poucas vezes manifesto, agora se faz patente e ordinário.

 

Logo, para esses autores, a vida mística não é uma coisa propriamente extraordinária, como as visões e as revelações, mas sim uma coisa eminente, dentro da via normal da santidade. Mostram que algo parecido acontece às almas chamadas a santificar-se na vida ativa, como São Vicente de Paulo. Não duvidam de que os santos de vida ativa tenham gozado normalmente, e com frequência, da contemplação infusa dos mistérios da Encarnação Redentora, da Missa, do Corpo Místico de Cristo, do preço da vida eterna; de fato estes santos diferem dos puramente contemplativos neste sentido: que neles, essa contemplação infusa está mais diretamente voltada à ação e às obras de misericórdia.
Compreende-se daqui que a teologia mística não é útil somente para a direção de umas poucas almas conduzidas pelas vias extraordinárias; é útil, igualmente, para a direção de todas as almas interiores que não querem permanecer à margem, e que aspiram generosamente à perfeição, à união com Deus em meios aos trabalhos e contrariedades da vida cotidiana. Sob este aspecto, a ignorância da teologia mística em um diretor pode ser um grave obstáculo para as almas postas sob sua direção, como notou São João da Cruz, no prólogo da “Subida do Monte Carmelo”. Se é necessário não confundir a melancolia do neurastênico com a purificação passiva dos sentidos, tampouco é lícito, quando aquela sobrevêm, não ver nela senão melancolia.


[1] Noite Escura, 1, I, c. XIV.

[2] Amour de Dieu, 1. VI, c. III.  “A oração se faz meditação até o momento em que se produz a doçura da devoção. Desde esse instante, passa a ser contemplação”. Vejam os capítulos seguintes sobre a contemplação.

[3] Cf. S. TOMÁS, III, q. 62, a. 2: “Utrum gratia sacramentalis aliquid addat super gratiam virtutum et donorum”, onde se ensina que a graça habitual ou santificante aperfeiçoa a essência da alma, e que dela descem às faculdades [humanas] as virtudes infusas (teológicas e morais) e os Sete Dons do Espírito Santo.

[4] Vida, c. XXXI; Obras, t. I, p. 257.

[5] A partir deste ponto de vista, que é o nosso, a mística, propriamente dita, começa com a idade dos proficientes, ao surgirem os três sinais da purificação passiva dos sentidos, notados por São João da Cruz (Noite Escura, 1. L, c. IX). Neste momento, com efeito, e em meio à prolongada aridez que vai acompanhada de verdadeira generosidade, começa a contemplação que conduz à intimidade da divina união. Já veremos que estes três sinais da purgação passiva dos sentidos são: 1º – prolongada sequidão sensível; 2º – vivo desejo de perfeição e de Deus; 3º – uma espécie de incapacidade de dar-se à meditação discursiva, e a inclinação de considerar a Deus com simples olhar e amorosa atenção. Os três sinais devem estar juntos; um só não basta.

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