O uso do chapéu – II

No artigo anterior, observamos o chapéu como símbolo de dignidade; analisamo-lo agora como expressão de boas maneiras e de como ele entrou em decadência antes de desaparecer.

Nelson R. Fragelli

“Quem é aquela senhora de chapéu?”, perguntou-me um amigo durante a Missa de Réquiem, celebrada na Paulaner Kirche, no centro de Viena. Era a assistente de um professor falecido. Seu chapéu de cor negra, circundado por uma faixa púrpura, realçava a dor pelo mestre perdido. As largas abas sombreavam delicadamente seu rosto, separando-a do ambiente para melhor recolher-se em sua dor. Naquela solenidade religiosa ela parecia aureolada pelo sofrimento. E sobre essa auréola de luto concentravam-se os olhares contristados.

A crescente igualdade entre os sexos — a chamada emancipação da mulher — retirou os chapéus dos semblantes femininos. É uma das muitas perdas destes tempos modernos, pois eles realçavam a dignidade feminina, dando a impressão de amparar sua delicadeza.

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O chapéu chama a atenção de modo natural e irresistível, antes mesmo que a ele se possa associar um juízo estético-moral. De um modo natural, sim, pois ele está logo acima do rosto, parte do corpo — se não a mais visível — certamente a que mais se procura ver.

Em uma pessoa nada atrai mais o olhar do que o rosto; nele se conhece alguém, seus traços formam fisionomias e estas revelam o espírito e seus estados. Ele suscita respeito e nele não se toca a não ser com cuidado, se não com reverência. Ao sombreá-lo o chapéu se inclui neste ponto de mira dos olhares, modificando fisionomias, manifestando estados de espírito, acentuando a mentalidade, definindo um caráter. Enquanto peça de vestuário o chapéu foi excogitado para sombrear, mas na realidade quanta luz ele projeta sobre os atributos pessoais!
Tomemos como exemplo o chapéu eclesiástico clássico: na simplicidade de suas formas e na uniformidade de seu negrume ele irradia a seriedade do estado religioso, suscitando reverência. São Pio X o portava alvo como sua batina, e em sua despretensiosa simplicidade ele acentuava, na expressão sobrenatural do mais alto Hierarca deste mundo, sua imensa dignidade [foto ao lado]. Também o chapéu eclesiástico modesto e negro, portado por um humilde pároco de aldeia, “leva a discernir, através da aparência sensível, algo que de si não é sensível, mas espiritual” (segundo Plinio Corrêa de Oliveira). Deus está ali representado.

O juízo estético-moral suscitado se prende ao estilo do chapéu escolhido por quem o usa. Modesto? Pretensioso? De mau gosto? Dentre os modelos conhecidos, cada estilo tem um caráter próprio ligado à forma, tamanho, material, cor, ornamento. E o caráter do chapéu fala do caráter de quem o usa. Os estilos variam segundo as circunstâncias da vida civil. As necessidades do quotidiano, as festas, as ocasiões fúnebres ou de gala, etc. — fizeram surgir ao longo dos séculos modelos variadíssimos. E estes exprimem, do ponto de vista moral, a imagem que homens e senhoras quiseram dar de si ao ambiente frequentado. A profissão, o prestígio, a condição social, se espelhavam mais ou menos autenticamente pela forma do chapéu.

Sobretudo a partir do século XVII, os modelos passaram a refletir menos a origem e a dignidade dos que o usavam, e bem mais uma concepção político-social da sociedade ditada pela moda.

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A cartola dominou a moda masculina no século XIX

Exemplifiquemos com o chapéu de abas largas, encimado por uma pluma [foto ao lado], tal como o modelo usado pelos Três Mosqueteiros e outros dignitários do Ancien Régime. As abas sugeriam proteção e generosidade; a pluma, levemente subindo às alturas, elegante em seus movimentos, trazia ao espírito a mobilidade de pensamento e ideais transcendentes, próprios ao cavalheirismo dos tempos. O tom de uma conversa entre cavalheiros era percebido pelo movimento das plumas, ora oscilantes e nervosas, ora imóveis e como que reflexivas. Quando senhoras se apresentavam, os homens tiravam os chapéus, e as plumas em circunvoluções harmônicas davam a nota e a medida da cortesia segundo o padrão social das senhoras. O chapéu era um dos elementos de expressão das boas maneiras. Regras determinavam as circunstâncias e os modos de descobrir-se em sociedade, honrando a cada um segundo sua posição.

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A Revolução Francesa adotou estilos ao gosto da filosofia iluminista, igualitária e utilitária. Seu modelo [foto abaixo] continha uma renúncia ao esplendor. Ele figurava a brutal ruptura com o passado. A ausência de abas deixava patente o confinamento das idéias e a revolta contra as regras seculares de bom gosto. Em vez de plumas, um feixe de cereais significava a primazia do útil sobre o maravilhoso. Sob tais símbolos, cabeças em efervescência infernal mandaram outras ao cadafalso, fazendo com que tantas delas, impávidas e elegantes como as plumas de seus chapéus, rolassem implacavelmente sob a fria lâmina da guilhotina.

Durante a Revolução Francesa apareceram os primeiros chapéus de copa alta e abas reduzidas [foto ao lado]. Eram inspirados no “povo”, em nome de quem se fazia a Revolução, e foram os precursores da cartola, que dominaria a moda masculina no século XIX. Na França havia terminado a douceur de vivre — a cartola e o traje de quem a portava, geralmente de cor negra, exprimiam essa tristeza. Embora tivessem, políticos e embaixadores, nobres e industriais que assim trajavam a aparência sombria de agentes funerários, a cartola conservava ainda elegância e gravidade. Sua copa, elevada, exigia movimentos solenes e compassados. A altura da cartola é majestosa e os reflexos de sua seda chegavam quase a substituir os movimentos ligeiros das plumas de outrora. Mas nelas já não estava presente a flexibilidade, substituída pela altura cilíndrica e hirta. Da pluma ao cilindro passou-se da elegância do Ancien Régime à objetividade geométrica do século industrial.

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Os homens deixaram quase totalmente as cartolas e as mulheres seus belos chapéus. “Não têm utilidade”, “passaram de moda”, “não têm mais lugar na vida moderna”— é a cantilena ouvida, ao se falar de chapéus. Em nome da funcionalidade nem se nota a perda em dignidade trazida pelo desaparecimento dos chapéus. Teriam ficado ocas as cabeças?
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