Será anacrônico tudo que não é "moderno"?

Plínio Corrêa de Oliveira

( Edifício Holiday – Recife)

Longa fachada segundo o estilo moderno. Massa esmagadora. Ausência completa e inexorável de decoração, que passa muito além do limite do simples e do severo, para descambar inteiramente no pobre, no indigente até, e no sinistro.Para sua moradia, o homem deseja algo que alie à distinção uma afabilidade, uma amenidade acolhedora, que lhe dê a sensação da proteção e do repouso.Para tanto é indispensável que a habitação seja suscetível de se deixar impregnar pelo espírito do homem, e quase diríamos pelo calor de sua presença.E isto não só no interior como na fachada. Do homem, dizíamos, e de cada homem, com suas diversidades, com as mil originalidades brilhantes, curiosas ou modestas, que Deus deu a cada alma, e cuja manifestação constitui um dos encantos da vida.
Como imaginar que neste imenso prédio de cimento armado, cuja única pretensão é de se mostrar possante por sua massa, geometricamente correta por suas proporções, e vigorosa por sua implacável e sombria uniformidade, as famílias nele instaladas possam deixar cada qual a marca pitoresca, miúda, variada quase diríamos ao infinito, de seu modo de ser?
Pelo contrário, uma construção como esta não será um terrível meio de socializar, nivelar, comprimir e despersonalizar? Sobretudo se se considera o efeito, não de um só edifício, mas de toda uma cidade neste estilo?
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Em contraposição a esta fachada ultramoderna, considere-se este prédio de apartamentos em estilo tradicional. Não diremos que é uma obra prima. Mas é razoavelmente agradável de ser visto. O que a extensão da fachada poderia ter de excessivo é disfarçado e reduzido às proporções do homem por vários meios. O edifício comporta uma parte central em torno da qual se dispõem dois corpos de cada lado, distintos e simétricos entre si. Na fachada evita-se uma uniformidade caricata, por meio de terraços e “window-box” aprazíveis. Tudo é proporcionado, e atende à regra essencial da variedade dos pormenores e das partes na unidade harmônica do conjunto.
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Mas, dirá alguém, isto é velho. Cumpre que nos ajustemos aos tempos. Cada época tem suas características. É preciso aceitar as que são impostas pelos dias em que vivemos, e pelas circunstâncias que nos rodeiam. Ninguém, absolutamente ninguém, poderia construir em pleno século XX uma cidade no estilo do segundo clichê. E só mentalidades irremediavelmente apegadas ao passado, a modos de ser, de sentir e de pensar definitivamente peremptos, poderiam recusar o espírito e as exigências de nesse tempo tão completamente quanto o faz o autor desta crítica quanto à primeira gravura.
Como responder a esta objeção, tão freqüentemente repetida a propósito de certos comentários publicados nesta secção?
Consideradas as coisas de modo inteiramente abstrato, só um demente poderia ser sistematicamente contrário ao que se produz em seu tempo, e sistematicamente favorável ao que se produziu em épocas anteriores. Assim, ninguém pode ser, ninguém é partidário de todo o antigo, e hostil a todo o moderno. Mas, isto posto, apressamo-nos em acrescentar que das palavras “antigo” e “moderno” se faz um abuso miserável, que nos recusamos a aceitar. Se por “moderno” se entende tudo quanto se faz em nossos dias, seja qual for sua orientação ou inspiração, “Catolicismo” é tão moderno – e esta secção de “Ambientes, Costumes, Civilizações” também – quanto a mais extremada das folhas que fazem a apologia sistemática de Picasso, Le Corbusier, etc. Pois temos todos a mesma nota essencial de modernidade, que é a de existir no século XX, e muito precisamente em 1956. Mas se no que hoje existe se faz uma discriminação, para colar o epíteto de “moderno” em umas coisas e negá-lo a outras, estamos no direito de discutir o critério dessa discriminação.Especialmente se ela reserva esse epíteto a obras de uma inspiração, e o nega às de inspiração contrária. Por que, afinal, nosso prédio do primeiro clichê, e seus congêneres, são modernos? Por que romperam com toda tradição? Se modernidade é antitradicionalismo, então somos antimodernos. Pois queremos um progresso na linha da tradição, como o recomenda o Santo Padre Pio XII em seus discursos à nobreza romana ( v. “Catolicismo”, nos. 63 a 65 ). Ou são modernos porque nunca se fez nada de parecido em época anterior? Isto faz lembrar a ilusão de certos brasileiros que pensam dever gostar da macumba porque os turistas que aqui vêm afirmam nada ter visto de igual alhures. A macumba é típica de nosso país, talvez. Como o estilo desse primeiro edifício é típico de nosso século. Mas o homem tem de típico não só qualidades como defeitos. E do fato de se provar que esse estilo é típico não se pode deduzir que é bom.
Enfim – e seja isto para edificação de nossos “modernos” – o prédio de nossa segunda gravura é muito moderno, pois foi construído há pouco, e é elemento integrante de toda uma cidade edificada segundo a mesma concepção, por gente... muito insuspeita de obediência aos princípios do passado! Esse prédio que tanto engenheiro ocidental hesitaria em edificar hoje, foi levantado na Stalingrado reconstruída, de pós-guerra. O que lhe falta então para ser “moderno”, pelo menos segundo certos critérios?
De onde se vê que nada tem de retrógrado nossa secção, e que não nos dariam o epíteto de anacrônicos muitos arquitetos comunistas, ao contrario do que fazem não poucos católicos...
Mas, dir-se-á, a Rússia mandou construir este e outros prédios do mesmo gênero, simplesmente para efeito de propaganda no Ocidente, pois eles estão em oposição com o coletivismo que é o próprio espírito do socialismo. Então os russos reconhecem que tão fundo é, em pleno século XX, o apego do Ocidente aos estilos tradicionais, que vale a pena, só para propaganda gastar milhões de rublos construindo uma cidade em moldes que lhes desagradam. E neste caso, por que chamar de anacrônicos estes estilos?
Na realidade, a arte dita moderna, à qual negamos o monopólio da modernidade, deforma, desequilibra, arrasa as almas. Os dirigentes russos hão de prezar muito que esta escola artística viceje entre seus adversários. Desejá-la-ão para si? O caso é outro. Possivelmente esperem que o comunismo tenha vencido no mundo inteiro, para aplicar este instrumento de destruição psíquica ao seu próprio povo. No momento isto não lhes conviria, pois o povo russo é seu instrumento na demolição do que resta da Cristandade. Esse e outros fatos é que bem explicam a contradição palpitante: estilo socializante em países que não são socialistas, e estilo tradicional em países que são dominados inteiramente pelo socialismo.
De qualquer modo, note-se bem: se quem ama os estilos tradicionais e recusa os destampatórios “modernos” tem a mentalidade imobilizada no passado, será preciso dizer que os chefes comunistas são homens totalmente imobilizados na era da burguesia ou quiçá da aristocracia.
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O tema transborda dos limites desta secção. Não pretendemos tê-lo esgotado. Mas pensamos ter introduzido no assunto alguns “aperçus” esclarecedores e oportunos...
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