As três Revoluções: etapas da destruição da Cristandade medieval

Apresentamos a seguir aos leitores excertos da conclusão da conferência do Prof.Plinio Corrêa de Oliveira, cuja primeira parte publicamos na edição de março sob o título “Idade Média: caluniada por ser realização da Cristandade na História”
Após a descrição da ordem medieval, torna-se muito mais fácil a exposição das Três Revoluções, ressaltando melhor o nexo existente entre elas.
Quando estudamos a Idade Média, verificamos que ela teve altos e baixos, que foram superados; e crises de orgulho e sensualidade, também dominadas.
Entre essas crises está a do séc. XIII, quando Nosso Senhor suscitou a Ordem dos Franciscanos, que praticava em grau exímio a humildade e a pureza. Suscitou a Ordem dos Dominicanos, para pregar essas mesmas virtudes num terreno mais intelectual. São Francisco, São Domingos, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, e tantos outros santos dessas Ordens, foram luzeiros que repeliram a maré montante do orgulho, da sensualidade e das heresias, salvando assim a Idade Média.
Por essas ou aquelas razões, no séc. XV o orgulho e a sensualidade cresceram de novo, de modo imenso, talvez sem precedentes. E não apareceram mais santos para apregoar a necessidade de uma reforma de costumes, para dar nova vida à pureza e à humildade, para pregar com o calor e o êxito de São Domingos, São Francisco e outros santos, que conseguiram desviar o curso das coisas na sociedade inteira.
O resultado foi que se levantou um santo, São Vicente Ferrer, que começou a pregar que estava próximo o fim do mundo, que ele era o anjo predito pelo Apocalipse para anunciar toda uma série de catástrofes. E as catástrofes de fato começaram no séc. XVI, com o Protestantismo.

1ª Revolução 

O protestantismo: revolução religiosa provocada pelo orgulho e a sensualidade.
A Igreja Católica, segundo ensinamento de São Pio X, é uma Igreja de desiguais.Uns foram instituídos para ensinar, governar e santificar. E outros para serem ensinados, governados e santificados. Estes últimos são os leigos. (cfr. EncíclicaVehementer, de 11-2-1906)
Nesta sociedade de desiguais há uma hierarquia: Cardeais, Arcebispos, Bispos, cônegos, párocos e coadjutores. Em baixo, o povo fiel, que está para a Igreja, como a plebe para a sociedade civil.
O protestantismo nega a autoridade doutrinária da Hierarquia eclesiástica. Cada qual tem o direito de interpretar a Bíblia como quer. A partir desse momento deixa de haver hierarquia. Todas as seitas protestantes têm esse denominador comum igualitário: não há mestres para interpretar o Evangelho, cada um é mestre de si mesmo.
Elas negaram o monarca da Igreja Católica, o Papa, exceto os anglicanos, que reconhecem ao Papa um vago primado de honra, mas não jurídico.  Na seita protestante anglicana continuaram os arcebispos, bispos, certos dignitários eclesiásticos à maneira de cônegos, párocos, coadjutores.
A seita luterana também admite esses graus. Mas Calvino, que foi um heresiarca pouco posterior a Lutero, negou os Arcebispos e Bispos, admitindo apenas os padres; são os chamados presbiterianos.
Surgiu depois uma outra seita, a dos niveladores, também conhecidos porquackers, que não admitiam sequer os padres. Ficaram abolidos todos os graus, restando apenas o povo. É uma hierarquia que se destruiu.
Dentro das próprias seitas protestantes esse trabalho de demolição continuou.Na igreja anglicana como na luterana, a autoridade dos  homens que continuaram a se dizer bispos e arcebispos foi reduzida a quase a zero. Não tem comparação com a autoridade de um Bispo católico. Os bispos anglicanos não passam de figuras decorativas. O título ainda existe, mas nada significa. Também entre os presbiterianos o título de padre, de ministro, ainda existe, mas quase nada significa. Eles não têm autoridade doutrinária sobre seus fiéis.
Esse movimento igualitário não ficou apenas dentro do protestantismo, mas tentou penetrar várias vezes na Igreja Católica. E acabou penetrando e triunfando por meio do progressismo, que quer reduzir a Igreja a uma república, em que o povo fiel tem o direito soberano de mandar, e o Papa e os bispos fazerem o que o povo quer. Portanto, o contrário da organização hierárquica que estudamos; no fundo não haveria governo, seria a anarquia, o fim da Igreja.
Os protestantes acabaram com as ordens religiosas. Confiscaram, saquearam, fecharam. Algumas se mantiveram na aparência, mas com um ar de mero pensionato. O estado religioso desapareceu nas seitas protestantes. Toda a hierarquia eclesiástica começou a sofrer uma corrosão, cujo termo último é o progressismo em nossos dias.
Tendência igualitária atinge o plano político.
Em meados do século XVII houve uma primeira manifestação de igualitarismo político: a revolução inglesa, chefiada por Cromwell, mandou decapitar o rei Carlos I, proclamou a república na Inglaterra, e virtualmente aboliu os títulos de nobreza. A seita de Cromwell não admitia desigualdades religiosas; e, coerentemente, insurgiu-se também contra as desigualdades civis. Porque, se alguém odeia toda desigualdade por causa do orgulho, este se molesta tanto com a desigualdade civil quanto com a religiosa, e acaba se atirando contra ambas.
A revolução inglesa foi relativamente efêmera. Morto Cromwell, seu filho governou muito pouco tempo e veio logo o restabelecimento da monarquia,  com o rei Carlos II.
Mas essa tendência igualitária na ordem política explodiu sobretudo na França, país que fora fortemente trabalhado pelo protestantismo. No século XVI grande parte da França tornou-se protestante. Se não fosse o auxílio de Felipe II, Rei da Espanha, e a intervenção dos Papas, a França ter-se-ia tornado protestante. 
Em seu aspecto religioso, a Revolução manifestou-se então na   heresia jansenista, que foi uma forma larvada de protestantismo. Depois vieram os   enciclopedistas, que primeiramente se diziam deístas, só acreditando em Deus.Depois declararam-se ateus.
Foi nos meios enciclopedistas que se gerou, sobretudo através de  Rousseau, a doutrina da igualdade civil completa e do contrato social. A idéia de Rousseau é que os homens eram felizes quando viviam em anarquia, na natureza. A civilização foi um mal e a sociedade nasceu de um contrato estabelecido entre os homens. O povo seria então o verdadeiro soberano e a verdadeira lei a da igualdade.

2ª Revolução 

Revolução Francesa: na ordem civil, ação análoga à do protestantismo
Essa doutrina social dos enciclopedistas degenerou em idéias políticas, que se propagaram  na França, dando origem, em 1789, à Revolução Francesa. Esta fez, na ordem civil, aquilo que o protestantismo fizera na ordem espiritual.
Levados pelo orgulho, pelo igualitarismo, os republicanos franceses – muito coadjuvados pelos protestantes – proclamaram a república e aboliram  os títulos de nobreza. Mais ainda. Sendo a França um país católico, promulgaram uma lei que visava obrigar a Igreja Católica a aceitar a mentalidade e a estrutura de uma Igreja protestante.
De acordo com essa Constituição Civil do Clero, a Igreja da França ficava independente de Roma. E os cargos eclesiásticos – como os de Arcebispos, Bispos, etc. – tornavam-se mais ou menos eletivos, introduzindo o republicanismo na Igreja. Como os padres católicos, na sua imensa maioria, não aceitaram essa lei, a Revolução Francesa proibiu o funcionamento da verdadeira Igreja Católica na França.
Isto mostra como a Revolução Francesa é o outro lado da medalha da Revolução Protestante. Ela proveio de protestantes antigos e tentou implantar na França um neoprotestantismo.
Ainda segundo os ideólogos da mesma Revolução, sendo os homens iguais perante a lei, são também iguais politicamente. E declaravam que a monarquia era o furto do poder do povo em benefício de uma família, e a aristocracia o furto do poder político em benefício de um grupo de famílias. E concluíam que a única ordem de coisas moral e legítima é a ordem igualitária e popular.
Resultado: quando a Revolução Francesa estava no seu declínio, mostrou-se quase comunista: editou leis contra as propriedades, perseguiu os ricos, etc. Não chegou a declarar formalmente abolida a propriedade privada, mas os discursos dos deputados jacobinos contra a mesma, nessa fase, eram tipicamente comunistas. E logo depois houve a revolução de Babeuf, declaradamente comunista, para implantar a propriedade coletiva.

3ª Revolução 

Marx: igualitarismo quanto à propriedade privada – o comunismo
Mesmo depois de extinta a Revolução Francesa, continuou a haver pela Europa um número enorme de pessoas que se diziam favoráveis à propriedade coletiva, com base no princípio da igualdade: se os homens são iguais em tudo, têm que sê-lo também em fortuna.
Quando Marx publicou seu Manifesto em 1848, o número desses socialistas chamados utópicos era bem grande na Europa, os quais já haviam tentado várias revoluções. Marx deu uma formulação e uma organização a essas tendências, surgindo então o comunismo, último surto da igualdade que derrubou o poder restante. E da velha estrutura medieval nada mais restou.
Os senhores têm aí as Três Revoluções que se consumaram. É o apogeu do orgulho que chegou à plenitude do igualitarismo.
Do exposto resulta claro o nexo profundo que existe entre a primeira Revolução, que é a Revolução Protestante, e a última, que é a Revolução Comunista.

4ª Revolução que nasce 

O último esboroamento: a revolução anarquista após o comunismo
Poder-se-ia ainda acrescentar mais algo. O comunismo parece o termo final, mas dentro dele ainda há um esboroamento.
Os comunistas tipo Marx, Lenine, Stalin e outros reconheciam que o Estado, o Poder Público com sua máquina, sua administração, etc., ainda era um resto de desigualdade. E deveria vir o dia em que não existiria mais o Poder Público, todas as autoridades seriam supressas e haveria apenas cooperativas, e nada mais.
Esse é o objetivo da revolução marcusiana, a revolução hippie, que é anarquista e visa suprimir até o Estado. Eis o último esboroamento que dentro do comunismo ainda se pode dar.
Papel da sensualidade nessa tríplice Revolução
O protestantismo estabeleceu o divórcio, que é uma satisfação ao instinto desregrado da sensualidade, acabando com a monogamia. Pois o que é o divórcio, se não a poligamia a prestações?
Lutero aliás – e esse documento se descobriu muito tempo após sua morte e nem mesmo os protestantes o negam – autorizou o landgrave de Hasse, na Alemanha a ter mais de uma esposa ao mesmo tempo. Esse nobre escreveu uma carta a Lutero e a outros corifeus do luteranismo, explicando que ele tinha de viajar muito – nuns estadinhos comparáveis a pequenos municípios brasileiros – para administrá-los, e que ficava muito caro deslocar-se com a princesa, porque, de acordo com os protocolos do tempo, esta precisava ir com um séquito, etc. De um lado, não podia levar a sua esposa, mas de outro, era muito duro permanecer sozinho durante as viagens. Não via outro meio senão ter uma esposa suplementar.
Lutero, que necessitava muito dele naquela ocasião para defender-se contra a investida política dos católicos, redigiu e assinou, juntamente com vários outros teólogos protestantes de Wittemberg, um documento – ao qual o Pe. Leonel Franca S.J. alude em sua obra A Igreja, a Reforma e a Civilização (**) – autorizando-o a prática da bigamia, “contanto que o caso se mantivesse secreto”. Mas, no rigor de sua doutrina, isso era permitido e ele mesmo contraiu um pseudo-casamento com uma ex-freira.
O protestantismo acabou com o celibato sacerdotal, conseqüência forçosa da explosão sensual.
Além disso, generalizou-se no mundo inteiro uma tolerância para com a impureza e uma intolerância pelo contrário. Ou seja, a idéia de que o homem  tem o direito de cometer o pecado de impureza, não é condenável. Pelo contrário, o homem casto é um atrofiado, um cretino, um complexado, quando não um homossexual. Todos já ouviram zumbir essa infâmias em torno de si e, quando eu era menino, elas já eram velhas.
Tal erro estabeleceu uma tolerância para com a prostituição.   Porque quem diz que o homem não peca procurando uma prostituta, não pode achar que a prostituta peca entregando-se ao homem. Que sincera condenação da prostituição propugnará um homem que acha que pode procurar a prostituta?
Pior ainda: depois de casado, habituar-se-á ele à fidelidade conjugal? Quem se habituou à pluralidade e à fantasia das relações sexuais, poderá depois habituar-se à fidelidade conjugal? Que ascese precisará ter para ser fiel!
Pelo argumento da igualdade de direitos entre o homem e a mulher, se a impureza é lícita ao homem, também o será à mulher. O igualitarismo leva assim a uma autorização do amor livre para ambos os sexos. O divórcio gerou o amor livre; a sensualidade, muitas vezes, gerou o amor livre sem passar pelo divórcio.
O que visa o comunismo em matéria de casamento? É o amor livre. Se se pode dizer, em alguma medida, que o divórcio é a condição de casamento própria ao mundo posterior à Revolução Francesa, pode-se dizer que o amor livre é a condição de casamento, de relação entre os sexos, própria ao comunismo.
Vamos mais longe. Porque a partir do momento em que se permite o amor livre entre homens e mulheres, ele também deverá ser permitido entre pessoas do mesmo sexo, porque é esse o amor livre em toda a sua força. Há de chegar o momento, desejado pelos marcusianos e pelos anarquistas, do nudismo total e da inteira total liberdade de relações sexuais, como entre os animais.
Falei do nudismo. Não vamos caminhando para lá também? A exigüidade cada vez maior dos trajes não caminha para o nudismo? Onde estamos? Estamos, pois, na apoteose do orgulho e da sensualidade, nas vésperas da anarquia total, se Nossa Senhora não intervier, tendo pena do mundo.
Do reino da Revolução ao Reino de Maria
Os homens que representavam a ordem medieval pecaram de mil modos, inclusive por moleza. Essa ordem foi destruída: no comunismo, radicalmente; no que resta de países não comunistas, quase até suas últimas fímbrias.
Por causa daquela idéia da perenidade do poder de Jesus Cristo, da realeza de Cristo na Terra, acredito que esse triunfo da Revolução não poderá realizar-se completamente. E que haverá a implantação de uma ordem de coisas que vai ser o contrário de tudo isto.
De um extremo se volta ao outro extremo. No relógio, quando o pêndulo chega até um extremo, ele volta depois ao outro lado. Nós, do mesmo modo, vamos passar do reino da Revolução ao Reino de Maria.
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Cfr. A Igreja, a Reforma e a Civilização, Indústria Tipográfica Romana,Roma, 1923, p.p. 451 e 452
(*) – Este é o título original de conferências que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira pronunciou a partir da década de 40. Ao repetir a mesma exposição para sócios e cooperadores da TFP em 25 de março de 1965, o orador, discernindo uma 4ª etapa, então nascente, do processo revolucionário, denunciou a revolução anarquista hippie.
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