A autoridade doutrinal do Doutor Comum

Por Sidney Silveira

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Todos os que estudamos Santo Tomás de Aquino sabemos muito bem que, para ele, o chamado argumento de autoridade não valia de nada, ou seja, o sestro — infelizmente tão comum nos dias atuais — de aduzir como prova “filosófica” de algo o seguinte: “Quem disse foi fulano ou sicrano, uma autoridade no assunto”.Em resumo, a única autoridade válida para o Aquinate, em sentido prático, é a da verdade, seja a Verdade revelada na Sacra Pagina, seja qualquer outra de que o nosso intelecto se aposse.

No entanto, é certíssimo que a autoridade doutrinal desse excelso Doutor da Igreja é inconteste, e se Mestre Tomás disse (magister dixit), o mínimo que devemos fazer é suspender o juízo antes mesmo de sequer pensar em discordar; e somente depois de longa meditação e estudo, arriscarmos o nosso parecer.Afinal, trata-se do maior teólogo da Igreja acolhido pelo Magistério infalível de forma solene. E, como veremos, isto não é pouco.

Falar da autoridade de um Doutor da Igreja nos remete a uma distinção importante: entre autoridade científica e autoridade dogmática. A autoridade científica depende do valor intrínseco do saber e das obras de um homem; a autoridade dogmática depende da conformidade de tais obras com a Divina Revelação e de sua aprovação pelo Magistério da Igreja, mestra da Verdade revelada. O próprio Aquinate nos dá a fórmula: em doutrina católica, mesmo os grandes Doutores recebem da Igreja o peso de sua autoridade, e por esta razão devemos ater-nos mais à autoridade da Igreja do que à de Agostinho, Jerônimo ou a de quaisquer outros Doutores (ipsa doctrina catholicorum Doctorum ab Ecclesia auctoritatem habet; unde magis standum est auctoritati Ecclesiæ quam auctoritati vel Augustini vel Hieronymi vel cuiuscumque Doctoris)*.

Ocorre que a autoridade científica (teológica) de Santo Tomás é simplesmente máxima na Igreja, pois ele é o Doctor Communis e foi referendado por vários Papas, Concílios e teólogos de saber notório ao longo de sete séculos. E a sua autoridade dogmática pode ser medida pelo fato de a própria Igreja ter adotado — em tantos e tantos casos — as fórmulas de Santo Tomás para expressar uma série de dogmas. A partir de então chegou-se a uma espécie de cume magisterial.Para dimensionar isto aos leitores do blog, farei um resumo que segue de perto a introdução do volume I da Suma Teológica publicada pela Biblioteca de Autores Cristianos – BAC em 1947, sob a coordenação de alguns dos mais geniais dominicamos que houve em Salamanca, na Espanha. Tal resumo será muito útil, por dar a exata medida da importância desse gigante que foi Tomás de Aquino.

Comecemos com o que nos conta o Chartularium universitatis parisiensisacerca do reconhecimento que o Aquinate teve ainda em vida. Quando Tomás contava apenas trinta anos, o Papa Alexandre IV chamou-o de tesouro da ciência, pela graça de Deus (vir morum honestate conspicuus ac thesaurum litteralis scientiæ per Dei gratiam assecutus). O adversário Siger de Brabant o equiparou a Santo Alberto Magno, que era tido então como o maior teólogo da Igreja (præcipui viri in Philosophia Albertus et Thomas)**; Roger Bacon chama a Tomás e a Alberto de modeni gloriosi.

A Faculdade de Filosofia de Paris, ao ter notícia da morte de Tomás, escreveu um panegírico em que chamava o Aquinate de luzeiro da manhã, luz e esplendor do mundo, sol do universo (stellam matutinam, præminentem in mundo, iubar et lucem sæculi), com cujo desaparecimento sofreu a Igreja uma perda incomensurável. O antigo mestre Alberto Magno escreve que Tomás foi a flor e honra do mundo (flos et decus mundi) e o homem mais sábio depois do seu tempo até o fim dos séculos, sem temor de ser superado por ninguém.

E o mesmo fazem os seus discípulos. De acordo com Pedro Calo em sua obraFontes vitae S. Thomae Aquinatis, Remígio Girolami chama Tomás de “luz dos nossos olhos e coroa de nossa cabeça”; Bombolônio de Bolonha aquilata-o como Doctor venerabilis, e o mesmo faz Roberto dei Primadizzi, que considera frei Tomás como Doctor egregius. Guilhermo de Tocco, discípulo e talvez o primeiro biógrafo do Santo, o exalta como Doutor admirável, órgão da divina sabedoria (Doctor mirabilis; erat enim divinæ sapientiæ organum).

Este é apenas o reflexo do primeiro momento após a morte de Santo Tomás.Como veremos nos textos seguintes, a obra do Aquinate passou por uma prova de fogo durante os primeiros 50 anos posteriores ao seu falecimento, atacada por inimigos poderosos. E saiu incólume, para depois ser acolhida pela Igreja como sua.

Passado o primeiro momento da morte de Santo Tomás, a pronta reação da Ordem dos Pregadores às incompreensões que acabaram por resultar na condenação formal, em 1277, de algumas teses a ele atribuídas foi o que manteve acesa a chama de sua excelsa doutrina, ao longo dos 50 anos em que o Aquinate ficou proscrito. Na verdade, a oposição ferrenha de teólogos como John Peckham, Robert Kilwardby, Gil de Roma, Enrique de Gand, Duns Scot e outros acabou sendo o crisol que purificou o ouro, como lindamente afirma Santiago Ramírez em conhecido texto. Tanto isto é verdade que, mesmo antes de sua canonização, frei Tomás foi por muitos considerado como autoridade máxima em Filosofia, Teologia e Exegese, inclusive pelo seu antigo mestre, Alberto Magno.

Depois de quase cinco décadas de verdadeira prova de fogo, a autoridade doutrinal do Aquinate cresce ininterruptamente até o último quartel do século XX, antes de ser por assim dizer “rebaixada” a uma filosofia entre outras, com João Paulo II, que na Encíclica Fides et Ratio (nº 49) afirma que a Igreja não canoniza nenhuma filosofia em detrimento de outras. Mas deixemos este delicadíssimo tópico para o último texto desta série, e vejamos antes o que séculos de Magistério solene dos Papas nos dizem.

João XXII (1249-1334) frisa, ao iniciar-se o processo de canonização de Santo Tomás, que será uma magna gloria para toda a Igreja ter o frade dominicano entre os santos dos altares. Afirma o Papa, noutro documento, que o Senhor obrou verdadeiras maravilhas no Aquinate — tanto em santidade, como em sabedoria e milagresem santidade porque observou o Boi Mudo da Sicília exatissimamente todas as regras e constituições de sua Ordem, conservando entre outras coisas a sua virgindade até a morte, além de não ter cometido nenhum pecado mortal em toda a sua vida; em milagres porque se comprovaram mais de trezentos, embora bastasse consultar os seus escritos para atestar o milagre da inteligência (tot fecerat miracula quot scripserat articulos); em sabedoria porque, depois dos Apóstolos e dos Padres, ninguém iluminou a Igreja tanto quanto ele(iste gloriosus Doctor post Apostolos et Doctores primos plus iluminavit Ecclesiam Dei).

Clemente VI (1291-1352) celebra-o como sal fecundo da vida da Ordem dos Pregadores, Doutor Egrégio de cujas obras e ensinamentos, repletos de sabedoria, recolhe a Igreja copiosos frutos espirituais, com os quais se nutre continuamente (ipsius fructus odore reficitur incessanter). Este Papa ordenou ao Capítulo Geral da Ordem, em 1346, que impusesse a todos os religiosos a obrigação estrita de seguir a doutrina de Santo Tomás.

Beato Urbano V (1310-1370), por sua vez, ao ordenar o traslado do corpo do Aquinate de Fossanova a Toulouse para depositá-lo na Igreja dos dominicanos, diz que Santo Tomás pôs às claras vários enigmas da Sagrada Escritura, elucidando obscuridades teológicas e esclarecendo, com a sua exegese, incontáveis dúvidas no estudo daSacra Pagina. Ao entregar a cabeça de Santo Tomás ao Geral da Ordem dos Dominicanos, diz o Papa que era ela depósito da divina sabedoria (cælestis utique sapientiæ gazophylacium). Urbano V também manifestou firmemente a vontade de que a Faculdade de Teologia de Toulouse se fundasse na “sólida e consistente doutrina aquinatense”, que deveria ser propagada como “doutrina verdadeira e católica” (doctrinam tamquam veridicam et catholicam sectemini).

Nicolau V (1397-1455) fará o mesmo ao mencionar o Aquinate ex cuius doctrina tota universalis iluminatur Ecclesia. E assim também Alexandre VI (1431-1503), para quem Santo Tomás é um luzeiro que ilumina todo o orbe cristão (lucerna præfulgens in inuverso christianorum orbem illustrat). Para Pio IV (1499-1565), sua doutrina é sagrada e produz abundantíssimos frutos de ciência e santidade.E esta primeira etapa de manifestação pela Igreja da autoridade doutrinal de Santo Tomás se encerra exatamente comSão Pio V (1504-1572), que na Bula Mirabilis Deus, de 11 de abril de 1567, faz de Santo Tomás Doutor da Igreja Universal e equipara-o aos quatro grandes doutores da Igreja latina: Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho e o excelso São Gregório Magno.Chama Pio V ao Aquinate declarissimum Ecclesiæ lumem, e afirma com todas as letras que a sua doutrina é regra certíssima da nossa fé (certissima christianæ regula doctrinæ, qua Apostolicam Ecclesiam infinitis confutatis erroribus illustravit).

Aguilhão para os inimigos

Antes de prosseguir com o Magistério papal que sucedeu à Bula Mirabilis Deus, de São Pio V, vale fazer algumas considerações, colhidas de G. Manser, sobre a recepção do Aquinate entre os gregos e, também, os chamados “amigos da união das Igrejas”, objeto dos sínodos de Lyon (1274) e Florença (1439-1445). Nestes dois Concílios, tanto a Summa Theologiæ como o opúsculo Contra errores Græcorum do Aquinate desempenharam papel importante. Neste ponto, para dimensionarmos a admiração que a sua obra suscitou entre inimigos da fé, citemos um manuscrito anônimo do século XIV, escrito por um cismático ortodoxo, que dizia o seguinte:

Ah, Tomás, se tivesses sido um oriental e não um ocidental! Se tivesses escrito como ortodoxo sobre as processões do Espírito Santo tão maravilhosamente como sobre outras questões!” (Utinam, o Thoma, non in Occidente sed in Oriente natus esses! Utinam orthodoxus esses non minus de Processione Spiritus Sancti quam de aliis quæstionibus, quas admirando prorsus modo tractas).

Embora hoje saibamos que um certo Neilos Kabasilas, de Tessalônica, escreveu uma obra polêmica contra Santo Tomás, e outro, chamado A. Paranetes, elaborou mais de vinte disputas que, ainda hoje, se guardam inéditas em Oxford, a admiração dos eruditos gregos com as traduções de numerosas obras do Aquinate foi grande, especialmente pelas duas Sumas. A propósito, até 1350 são conhecidas várias traduções do latim para o grego de escritos de Santo Tomás. Lembra-nos Manser que tão grande foi o entusiasmo dos gregos pelo Aquinate na época do Concílio de Florença que, por esta ocasião, foi traduzido para o grego o ofício da festa do nosso Santo, de acordo com vários depoimentos.

Já em Lyon, logo após a morte de frei Tomás, o influxo do seu trabalho teológico é claro, como teremos oportunidade de ver em outro texto. E no Concílio de Viena (1311-1312) — o qual, mais do que a unidade de Cristo, tinha como objetivo discutir a unicidade da alma humana —, isto se confirma com a condenação formal das teses de Pedro Olivi, que defendia a pluralidade de almas em cada homem… A supremacia aquinatense, na verdade um reflexo da elevação de sua doutrina, continua no Concílio de Constança (1414), quando a chaga do nominalismo ockhamista esboçava crescer. Prova-o o fato de este sínodo reunir-se para combater (fazendo uso das conquistas teológicas do Aquinate) teses do reformador Jan Hus, que aliás morreu na fogueira. Anos depois, o heresiarca Lutero escreverá o seguinte: “No Concílio de Constança, com certeza Tomás de Aquino triunfou sobre Hus”.

No importantíssimo V Concílio de Latrão (1512) — do qual participou o “general dos dominicanos”, o futuro Cardeal Cayetano — aconteceu um dos maiores triunfos do Aquinate. As teses averroístas latinas da dupla verdade (duplex veritas) e da unicidade do intelecto para todos os homens (intellectus numerice unus), que haviam sido refutadas por Santo Tomás dois séculos antes, contra Siger de Brabante, são enfim condenadas pela Igreja. Outro fato: foi decidida a demonstrabilidade da imortalidade da alma humana no sentido em que a defendia o Aquinate, contrariando as escolas scotistas e ockhamistas, opostas à tese. A decisão do Concílio foi nada menos que unânime.

No Concílio de Trento, um dos mais importantes da história da Igreja do ponto de vista doutrinal, a preeminência de Santo Tomás pode ser medida pelo fato, muito conhecido de todos os estudiosos, de que Suma Teológica foi posta ao lado da Bíblia no momento da declaração dos Dogmas. E não obstante um Concílio, por ser regido pelo Espírito Santo, dispense a sabedoria dos homens, o fato é que a defesa das suas decisões, baseadas na Sagrada Escritura e na Tradição, sempre recorre ao auxílio luxuoso da teologia e da filosofia. Tendo isto em vista, compreendemos muito bem o fato de Cardeal Vicente Justiniano chamar a Santo Tomás de Patrum Concilii Tridentini oraculum. Para ter-se uma idéia desta benéfica influência doutrinal, diga-se que, numa passagem sobre a Eucaristia — na seção XXI do referido Concílio —, os Padres reexaminaram uma questão anteriormente decidida simplesmente porque uma passagem de Santo Tomás na Sumaparecia contrariá-la.

Ao repassar um pouco dessa história, não resisto a dizer o seguinte: quando vejo professorecos metidos a filósofos dizer que a obra filosófico-teológica do Aquinate deve ser vista à parte de questões doutrinais da Igreja, tenho vontade de rir… Ou de chorar. São engambeladores que vendem gatos por lebres.

Como aponta Santiago Ramírez em sua clássica apresentação à Suma Teológica, publicada em meados da década de 40 do século passado pela editora espanhola BAC, ao falar-se em “autoridade doutrinal” de Santo Tomás de Aquino (Doutor Comum da Igreja), convém fazer a distinção entre autoridade científica e autoridade dogmática.

a autoridade científica depende do valor intrínseco da obra;

a autoridade dogmática depende da conformidade da obra com a Divina Revelação e de sua recomendação solene pelo Magistério da Igreja, mestra infalível da verdade revelada.

Pois muito bem: no caso de Santo Tomás de Aquino, ambas as autoridades se dão em grau superlativo, eminentissimum. Mas no que tange especificamente à sua autoridade dogmática, lembra-nos Ramírez que é preciso salientar o seguinte: desde a canonização do “Boi Mudo”, no distante século XIV, até meados do século XX, ela manteve uma linha ascendente formidável — sendo dignificada como doutrina comum da Igreja.

Neste contexto, é preciso deixar claro o seguinte, para não dar margem a confusões: quando se diz que o tomismo é a doutrina comum da Igreja, está-se reiterando, com o Magistério da Igreja, que em seus princípios e em seus fins ela não contém erros em matéria de fé, e mais ainda: tal é a sua riqueza teológica que dela se serve o próprio Magistério na proclamação de Dogmas e/ou na defesa da fé contra erros e heresias. É evidente que, nos pontos teologicamente opináveis, pode um católico concordar com um Doutor que não esteja totalmente alinhado a Tomás. Mas, mesmo nestes casos, é grandemente temerário afastar-se do Angélico, e veremos o porquê disto.

A doutrina teológica do Aquinate, como apontara Clemente VI, é verdadeira sem contágio algum de falsidade (vera sine contagio falsitatis), é clara sem a tediosa sombra da obscuridade (clara sine taedio obscuritatise é frutuosa sem o vício da curiosidade (fructuosa sine vitio curiositatis). É, por fim, “Doutrina Comum da Igreja” (videmus ad sensum quod doctrina istius sancti, quae dicitur ‘Doctrina Communis’[…] semper tamet permanet et invalescit in saecula saeculorum).

São Pio V canoniza definitivamente essa doutrina na bula Mirabilis Deus, já citada noutro artigo da presente série, pela qual proclama Santo Tomás Doutor da Igreja Universal. A fórmula é bem simples e solene: a doutrina de Santo Tomás é regra certíssima da fé (certissima christiane regula doctrinae, qua Apostolicam Ecclesiam infinitis confutatis erroribus illustravit). Neste mesmo documento magisterial diz São Pio V nada menos que o seguinte: a Igreja recebe essa doutrina teológica como sua, por ser a mais certa e segura de todas (…eius doctrinam theologicam ab Ecclesiam Catholicam receptam, aliis magis tutam et securam existere). A propósito, há uma tradução para o português da Mirabilis Deus que pode ser adquirida no Instituto Aquinate, para quem quiser inteirar-se do conteúdo deste importante documento magisterial.

Antes de prosseguir com este breve texto, repitamos, pois, a título de ênfase:

a) a doutrina de Santo Tomás é comum da Igreja (Clemente VI);

b) é regra certíssima da fé(São Pio V); e

c) a Igreja a recebe como sua (São Pio V).

Mas há muito, muito mais. Bento XIII, por exemplo, lembra-nos em um de seus documentos magisteriais: a doutrina de Santo Tomás de Aquino foi aprovada pelo próprio Cristo em pessoaRefere-se ali o Papa à passagem (que consta da bula de canonização de Santo Tomás e de todas as biografias, desde as primeiras) em que alguns dos confrades do Angélico ouviram a imagem de Cristo miraculosamente dizer o seguinte a ele: “Falaste bem de mim, Tomás.O que queres como recompensa?”. Ao que o Aquinate respondeu: “Nada além de Ti, Senhor”.

Por sua vez, Bento XIV, ao aprovar os estatutos do Colégio São Dionísio, em Granada, escreve que o não-ensinamento da doutrina teológica de Santo Tomás (ali ou em quaisquer centros de ensino do orbe católico)acarretará pena de excomunhão reservada à Santa Sé. Será que os leitores conseguem dimensionar bem isto, ou seja, o não-ensinamento de uma doutrina como matéria de excomunhão? Pois é isto mesmo.

Por uma questão de economia, pulemos alguns séculos de ditos solenes e magisteriais com o mesmo teor dos que acima descrevemos para chegar a Pio IX — que afirma numa conhecida alocução que Santo Tomás possuía engenho sobre-humano, o que lhe permitiu escrever formidavelmente sobre as coisas divinas e humanas, merecendo aprovação de Deus mesmo. E frisa, com sua linguagem peculiar, que, em se tratando de doutrina teológica, acima da de Santo Tomás só há a da visão beatífica (…ipse enim modo veritates revelatas tanta luce perfudit, ut extra beatificae visionis meridiem amplior nec optari nec sperari posse videatur: sed scientias etiam rationales ac naturales tanta veritate pertractavit, ut in his non secus ac in illis omnium instar merito esse possit).

De Leão XIII falar-se-á amiúde noutro texto, pois a sua famosa EncíclicaAeterni Patris merece um capítulo à parte. Falemos de São Pio X, que nomotu proprio intitulado Sacrorum Antistitum diz, entre outras coisas, que os princípios da filosofia e da teologia de Santo Tomás não devem ser considerados como meramente opináveis ou discutíveis, mas como fundamentos sobre os quais se apóiam os conhecimentos acerca das coisas humanas e divinas (… in S. Thomae sun capita, non ea haberi debent in oponionum genere de quibus in utramque partem disputare licet, sed velut fundamenta in quibus omnis naturalium divinarumque rerum scientia consistit…).

A primazia doutrinal do Aquinate foi também coroada por Bento XV, que, como refere o genial tomista G.M. Manser, a incluiu no Código de Direito Canônico de 1917 (cânon 1366) com as seguintes palavras: “O sentido da filosofia e da teologia, assim como a instrução filosófica e teológica dos estudantes de teologia, devem ser dispostos pelos professores de modo a que se ajustem em tudo (omnino) ao sentido e espírito das doutrinas do Doutor Angélico, considerando-se tais princípios como coisa santa”.

Pio XI, na Encíclica Studiorum Ducem, repete o fato de a doutrina do Aquinte ser comum a toda a Igreja Universal (...sed etiam Communem seu universalem Ecclesiam Doctorem appelandum putemus Thoman).

Ditas todas estas coisas, será conveniente para um católico que estuda teologia afastar-se de Santo Tomás? Bem, conforme se apontou acima, a sua doutrina teológica foi proclamada pelo Magistério da Igreja : a) como doutrina comum; b) como aprovada pessoalmente pelo próprio Cristo; c) como inferior apenas à visão beatífica da essência divina; d) como não passível de ser discutida em seus princípios; e) como regra certíssima da fé; f) comodoutrina que a Igreja recebe como suag) como fundamento sobre o qual se apóiam os conhecimentos acerca das coisas divinas; h) como doutrina a ser ensinada obrigatoriamente em todo o orbe católico, sob pena de excomunhão para os recalcitrantes; g) como doutrina santa; e i) como doutrina que, quanto aos seus princípios, deve ser seguida em tudo.

Bem, ainda não se disse sequer um décimo com relação à autoridade doutrinal de Tomás, que obviamente é participada — pois, como ele próprio ensinara, a autoridade da Igreja é maior do que a de quaisquer de seus Doutores, posto que dela recebem eles a sua ciência (cf. Suma Teológica, II-II, q. 10, art.12, corpus).

No caso do Doctor Communis, a doutrina teológica é chamada “comum” porque, como afirmara Leão XIII (um ano após a publicação da Aeterni Patris, ao proclamar Santo Tomás Patrono dos Estudos católicos), é riquíssima em seu conteúdo, saníssima, perfeitamente organizada, admiravelmente acorde com as verdades da Sagrada Escritura e sinceramente obsequiosa com a fé.

Passado o Concílio de Trento, Santo Tomás continua tendo o beneplácito dos Papas. Clemente VIII (1592- 1605), que fora aluno de São Filipe Néri, declara o Aquinate Patrono da Cidade de Nápoles, onde nascera. De acordo com o Papa, o Aquinate mereceu a honra extraordinária de ter a doutrina aprovada pelo próprio Cristo, que lhe disse:

“Falaste bem de mim”.

Paulo V (1605-1621) chama a Santo Tomás de debelador de hereges; Alexandre VII (1655-1667), por sua vez, exorta a Universidade de Louvain a seguir sempre, “com toda a fidelidade, a doutrina límpida e seguríssima do Aquinate, cuja autoridade é tão grande a ponto de ser conhecida por todos na Igreja”. Bento XIII (1724-1730) salienta que “é tanta a força e a verdade da doutrina tomista que não somente venceu as inumeráveis heresias que apareceram até o seu tempo, como teve a virtude de confundir e dissipar todas as que vieram depois”.Ressalta esse Papa que não há palavras para expressar adequadamente o valor da obra de Santo Tomás pro magnis suis in Ecclesiam meritis.

Outro Papa, Bento XIV (1740-1758), ao aprovar os estatutos do Colégio Teológico de São Dionísio, em Granada, impõe a obrigação de não se ensinar outra doutrina senão a de Santo Tomás de Aquino… sob pena de excomunhão reservada à Santa Sé! E, em sua Alocução ao Capítulo Geral da Ordem, em 1756, chama ao Aquinate Príncipe dos Teólogos, Anjo da Escola, Doutor da Igreja Universal e honra preclaríssima da Ordem dos Pregadores. Chega esse Papa a confessar publicamente que tudo quanto se acha de bom em seus escritos teológicos foi pinçado da obra do Aquinate.

Pio VI (1775-1799), Papa durante a Revolução Francesa, recomendou aos padres que não permitissem nem tolerassem de maneira alguma ut divinum Thomæ eloquium quase novella doctrina discutiatur et otiosa disputatione impugnetur. Isto porque, inter mulplices scholas, Thomas Aquinas sol doctrinæ et theologorum Antesignanus iure fuit appelatus (…). Reconhecimento do mesmo nível será feito também por Leão XII (1823-1829), que o declarou, em agosto de 1825, Patrono dos Estudos nos Estados Pontifícios.

No próximo texto da série, falaremos dos Papas por cujo influxo a obra do Aquinate teve um reconhecimento decisivo, em vista dos novos problemas fomentados pelas funestíssimas doutrinas que Gregório XVI (1831-1846) já denunciava, e que com o crescimento do liberalismo no mundo se transformaram em veneno para a fé: Pio IX (1846-1878) e, principalmente, Leão XIII (1878-1903).

* Suma Teológica, II-II, q. 10, a. 12., resp.** Pierre Mandonnet, no livro Siger de Brabant.

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