A importância e utilidade da filosofia e as leis da filosofia cristã

zeferinogonzalez

Cardeal Zeferino Gonzalez

 

A importância e utilidade da Filosofia

A importância e utilidade da Filosofia é uma verdadeira prática e de sentido comum. Se se considera a Filosofia desde sua etimologia, nada é mais digno do homem, como ser inteligente que é, que o amor pela sabedoria.

Se se considera a mesma desde seu significado real, para reconhecer a primeira vista sua importância e utilidade, basta ter presente:

  1. que por meio dela se desenvolvem, robustecem e aperfeiçoam as faculdades do homem e principalmente as intelectuais, por razão das quais o homem se distingue e se eleva sobre todos os demais seres do mundo, o qual vale tanto como dizer que a Filosofia constitui a perfeição mais nobre e característica do homem como ser inteligente na ordem natural.
  2. O ofício e efeito da Filosofia é por uma parte dirigir e conduzir o homem ao conhecimento e possessão da verdade, e por outra parte, ordenar e dirigir suas ações morais em harmonia com o conhecimento e possessão de Deus como fim do homem por meio da prática da virtude: e a virtude e a verdade são os bens mais excelentes, ou melhor dizendo, os únicos bens verdadeiros a que o homem deve aspirar nesta vida. Santo Agostinho dizia “sabendo que Deus é a mesma sabedoria, o verdadeiro filósofo é aquele que ama a Deus[1]. Sentença que pode deleitar-se sem medo, esta que acabamos de citar sobre a Filosofia, por mais que seu sentido original em Santo Agostinho referia-se à sabedoria sobrenatural.
  3. A história ensina que a Filosofia, pelo retorno de muitos erros graves, tem contribuído grandemente para o desenvolvimento e progresso da ciência, seja natural e física, bem como moral e política, as quais todas têm a sua base e recebem seus princípios da Filosofia, que vem a ser como o tronco da qual derivam todas as ciências de uma forma mais ou menos imediata e direta. O mesmo se aplica para o desenvolvimento e progresso das instituições sociais e políticas, da legislações destas, e em geral dos principais elementos e manifestações de nossa civilização.
  4. Também não é menos evidente a utilidade da Filosofia sob o ponto de vista cristão, a experiência, a história e a razão ensinam em conjunto: primeiro que a filosofia abre e prepara o caminho para reconhecer a verdade da Religião Católica; segundo, que serve de poderoso auxílio à fé, seja para defendê-la contra os ataques dos hereges e infiéis, seja para ressaltar a sua verdade e seus benefícios, seja para expor e desenvolver de uma maneira racional e científica os seus dogmas, e, especialmente, e, principalmente, sistematizar a doutrina da revelação por meio da Teologia,  a qual recebe da Filosofia o seu organismo científico[2].

Seguindo o que já foi dito, acrescento que em nossos dias os ataques principais e mais perigosos contra a Religião Católica procedem do terreno filosófico, e não é possível questionar a utilidade e até a importância suprema de uma filosofia cristã, verdadeira e sólida para refutar os ataques da filosofia racionalista.

Para que a Filosofia possa obter resultados, é preciso que se sujeite às leis da Filosofia cristã.

§ As leis da Filosofia cristã

As quais podem reduzir-se nas seguintes:

  1. Não ensinar nem afirmar coisa alguma que se oponha às verdades reveladas por Deus. Uma verdade não pode ser contrariada à outra; e as verdades ensinadas por deus possuem as características de certeza absoluta, sendo impossível que Deus seja falível ou engane a outros.
  2. Expor os problemas fundamentais da Filosofia de tal maneira que sua solução não conduza logicamente a conclusões ou deduções que não possam conciliar-se com as verdades da revelação. Se, como temos dito mais acima, uma verdade não pode ser contrária a outra verdade, deveremos desconfiar com justiça de toda solução determinada de algum problema filosófico, se esta solução conduz logicamente a deduções contrárias à verdade revelada.
  3. Conservar a visão fixa nas verdades da revelação católica, seja porque servem de ponto de apoio e de partida para proceder com segurança na investigação e solução dos problemas filosóficos, seja principalmente porque estas verdades, como manifestações que são da Razão Divina, derramam muita luz sobre as verdades de ordem puramente natural e especialmente sobre certos problemas filosóficos de maior importância e transcendência. A mesma história da filosofia revela que a doutrina católica tornou-se relativamente fácil e simples a solução dos grandes problemas sobre a origem do mundo, sobre a providência e ação de Deus no universo, sobre a natureza e origem do mal, sobre o destino do homem sobre a terra e seu fim último depois da morte, problemas de ordem tal aos quais a filosofia pagã antiga caminhava envolta em sombras e perpétuas contradições.
  4. Ilustrar, confirmar e desenvolver aquelas verdades que, embora consideradas em si mesmas, não são superiores à razão humana, pertencem ao próprio tempo da revelação, seja em razão de sua importância, seja principalmente porque se não excedem as forças físicas da razão, então excedem as forças morais dos homens em geral, que não se encontram aptos e em condições de chegar ao seu conhecimento daquela maneira imediata, expedita e segura que exige sua importância na ordem moral, social e religiosa.
  5. Indicar e expor a relação que algumas verdades reveladas e superiores à razão têm com outras verdades puramente naturais, como sucede, por exemplo, com os dogmas relativos à graça e ao pecado original, dogmas nos quais o filósofo cristão descobre relações e analogias com certos fenômenos naturais e de experiência, e que ao mesmo tempo derramam viva luz sobre certos problemas filosóficos.
  6. Ter presentes os escritos e tomar em conta a doutrina filosófica dos Padres da Igreja e Doutores escolásticos, especialmente de Santo Tomás; porque na obras dos Padres da Igreja e dos Escolásticos, contém a filosofia cristã, e por conseguinte, a filosofia verdadeira para a solução dos problemas fundamentais e mais importantes da Filosofia. Isto não quer dizer que tudo se encontre naqueles escritos, nem tampouco que tenhamos de adotar sempre as suas opiniões filosóficas, especialmente quando se trata de matérias ou problemas de importância secundária, muito menos que sua filosofia seja completa quoad omnia, de modo que não possa ser modificada, aperfeiçoada e complementada em muitas matérias com o progresso e doutrinas da filosofia moderna. Entretanto, com respeito a Santo Tomás, bem se pode dizer que em suas diferentes obras se encontra o que de mais sólido e verdadeiramente filosófico se possa acrescentar a filosofia moderna à antiga dos Padres e Escolásticos.

 

Uma filosofia escrita e ensinada com sujeição a estas leis será uma filosofia cristã[3], e por isso mesmo, sólida e verdadeira, na qual não se encontram os monstruosos erros do positivismo e panteísmo que degradam e desprestigiam à filosofia moderna.

PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

Cardeal Zeferino Gonzalez, A importância e utilidade da filosofia e as leis da filosofia cristã, 2013, trad. br. por Allan L. Dos Santos, Ferndale, MI, EUA, set. 2013, http://wp.me/p3Vl16-1L

de: “Consideraciones generales sobre la Filosofía”, 20 setembro de 2013, “http://mercaba.org/Filosofia/Zeferino_Gonz/elemental_02.htm”.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

allan.santosbr@gmail.com


[1] «Porro si sapientia Deus est, per quem facta sunt omnia, sicut divina auctoritas veritasque monstravit, verus philosophus est amator Dei. De Civit. Dei, lib. 8º, cap. 1º.»

[2] Os Padres e Doutores da Igreja, com raras exceções, exaltam insistentemente e vantagem  e a utilidade que a doutrina revelada por Jesus Cristo reporta à Filosofia, distinguindo-se entre elas, assim como Santo Agostinho e São Tomás, Clemente de Alexandria, o qual enumeram e expõem com frequência os ofícios, utilidades e relações da Filosofia no que diz respeito à verdade revelada: «Quod si non comprehendit quidem graeca philosophia veritatis magnitudimem… at maxime regali quidem doctrinae viam praeparat, utcumque castigans, et mores prius formans, et ad suscipiendam veritatem confirmans eum, qui opinatur esse Providentiam.» Strom.,, lib. 4º, cap. 5ºEst autem per se perfecta, dice más adelante, et nullius indiga Servatoris doctrina, cum sit Dei virtus et sapientia: accedens autem graeca philosophia veritatem non facit potentiorum, sed cum debiles efficiat sophistarum adversus eam argumentationes», &c., Ibidem, cap. 20.«Non erit igitur eorum ignarus (gnosticus seu sapiens christianus) quae ad encyclicas disciplinas et graecam philosophiam percipiendas conducent… Quibus enim improbe et malitiose utuntur harersium patroni, iis recte utetur Gnosticus.» Ibid., lib. 8º, cap. 10.«Eum bene et utiliter eruditum existimo, qui omnia refert ad veritatem, adeo ut ex… ipsa philosophia colligens quod utile est, tutam ab insidiis servet fidem.» Ibid., lib. 1º, cap, 9º.

[3] O seguinte trecho de Mattlés, que transcrevemos com alegria, contém e explica a diferença radical que separa a filosofia cristã da filosofia racionalista, tanto antiga como moderna: «La philosophie grecque part de la nature, voit dans la substance de la natura Dieu, et dans toutes les existences des manifestaions de Dieu. La philosophie moderne part de l’homme; elle voit Dieu dans l’esprit humain, et dans toutes les existences des produits et des phenomènes de cet ètre pensant. La philosophie intermediaire des Pères et des Scholastiques part du dieu reel et cherche à reconaitre d’abord ce Dieu en lui m’me, en suite le monde comme crèation de Dieu, c’est à-dire, à le comprendre comme la realisation dùn plan conçu avec intelligence. Ainsi l’histoire nous apprend que la verité se trouve dans cette derniere theorie, car elle nous fait reconaitre que l’essence de la creature qu’on la voie dans la substance de la nature ou dans l’esprit pensant, n’est en veritè pas l’absolu, qu’il existe un Dieu qui a creè cet être avec tout ce qui apparait autour du lui. Elle nous le fait reconaitre non-sculement en nous apprenant que la philosophie atheistique (dite pantheistique) a contre elle le bon sens du monde entier, la conscience de tous les hommes raisonnables et impartiaux… mais surtout en mettant devant nos yeux la deplorable fin à laquelle sont parvenues les deux philosophies atheistiques, non par accident, non faute, de logique nais par un developpement tout à fait naturel, fatal, necessaire, tandis qu’en meme temps elle nous demontre que la philosophie theistique intermediaire ne donne que des idèes qui prouvent, par le fait et d’une maniere irrefragable, qu’elles sont vraies ou correspondent à des realitès.» Apud Goschler, Diction. encycl. de la Theol. cat., t. XVIII, pág. 190.

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