A vontade e a inteligência de Jesus Cristo segundo o Magistério da Igreja

Carta “Sicut aqua”, ao patriarca Eugólio de Alexandria, Agosto de 600

O saber de Cristo (contra os agnoetas)

474[1]. 474 248 Quanto a isto … que está escrito, que “nem o Filho do homem, nem os Anjos conhecem o dia nem a hora” [cf. Mc XIII, 32] a vossa santidade pensou de modo absolutamente justo que isso certamente não refere ao Filho segundo o Seu ser cabeça, mas segundo o seu corpo, que somos nós. A respeito destas coisas, em muitas passagens … Agostinho faz uso de tal significado[2].

Ele diz também uma outra coisa que se possa compreender do mesmo Filho: que o Onipotente Deus às vezes fala segundo o costume humano; assim diz a Abraão: “Agora compreendi que temes a Deus” [cf. Gn XXII, 12], não porque nesse momento Deus tivesse reconhecido que era temido, mas porque nesse momento fez saber a Abraão que ele temia a Deus. Como, de fato, nós chamamos alegre um dia não porque o dia em si seja alegre, mas porque nos faz alegres, assim também o Filho Onipotente diz não conhecer o dia que ele mantém desconhecido não porque não o conheça, mas porque não permite de modo algum que seja conhecido.

Daí se diz também que só o Pai o conhece, já que o Filho, consubstancial a Ele por sua natureza, pela está acima dos Anjos, tem como saber o que os Anjos ignoram. Daí se pode compreender também de maneira mais precisa que o Unigênito, encarnado e feito homem perfeito em prol a nós, conhecia o dia e a hora do juízo na natureza da humanidade, todavia não o conhecia <a partir> da natureza da humanidade. Assim, o que em esta conhecia, não o conhecia por esta, pois o Deus feito homem conhecia o dia e a hora do juízo mediante o poder da Sua divindade. …

A ciência, portanto, que Ele não teve da[3] natureza da humanidade, pela qual junto com os Anjos Ele foi criatura, com os Anjos que são criaturas Ele a negou ter. Portanto, o Deus e homem conhece o dia e a hora do juízo, mas isto, porque Deus é homem.

476 248 É, portanto, bem manifesto que quem não for nestoriano não pode absolutamente ser agnoeta. Quem de fato professa que a própria sabedoria de Deus se encarnou, em que sentido pode dizer que existe alguma coisa que a sabedoria de Deus ignore? Está escrito: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e Deus era o Verbo. Tudo foi feito por meio dEle” (Jo I, 13). Se tudo, então sem dúvida também o dia e a hora do juízo. Quem seria portanto tão insensato de ousar dizer que o Filho recebeu nas mãos o que não conhece?

Quanto àquela passagem, na qual a respeito de Lázaro ele diz às mulheres: “Onde o pusestes?”[Jo XI, 34], pensamos exatamente o mesmo que vós pensastes: que, se se diz que o Senhor não sabia onde Lázaro tinha sido sepultado e que por isto fez a pergunta, sem dúvida é forçoso admitir também que o Senhor ignorava onde Adão e Eva se tinham escondido depois da culpa, quando no paraíso disse “Adão, onde estás?” [cf.Gn III, 39]; ou então, quando ralha com Caim dizendo: “Onde está Abel, teu irmão?” [Gn IV, 9]. Se não o sabia por que então acrescentou: “O sangue de teu irmão brada a mim da terra”?[4]

XVI Sínodo de TOLEDO, iniciado em 2 de maio de 693: Profissão de Fé

Cristo, Filho de Deus encarnado

572. (22) É evidente, pois, que o próprio Filho de Deus, gerado do Pai não gerado, verdadeiro do verdadeiro, perfeito do perfeito, uno do uno, inteiro do inteiro, Deus sem início, assumiu um homem perfeito da santa e inviolada sem Virgem Maria. (23) Como Lhe atribuímos a perfeição do homem, assim cremos não menos que nele há também duas vontades, uma da sua divindade, outra da sua humanidade; (24) isso é também declarado com toda clareza nos dizeres dos quatro evangelistas em que fala o nosso Redentor; Ele, de fato, se exprimiu assim: “Meu Pai, se for possível, afasta de Mim este cálice, todavia não como Eu quero mas como Tu queres” [Mt XXVI, 39]; e ainda: Não vim para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou [cf. Jo VI, 38] …

(25) Com estas palavras, Ele mostra também que atribuiu a Sua vontade ao homem assumpto, mas a do Pai, à divindade, na qual Ele é Uno e igual ao Pai. De fato, no que concerne à unidade da divindade, a vontade do Pai não é diferente da do Filho, pois onde há uma só divindade, há uma só vontade. Quanto, porém, à natureza do homem assumpto, outra é a vontade da sua divindade e outra a da nossa humanidade. (26) Por isso, nesta Sua expressão: “Não como Eu quero, mas como Tu queres” [Mt XXVI, 39], ele mostra claramente não querer que aconteça o que falava sob influxo da vontade humana, mas aquilo por que descera à terra segundo o querer do Pai; mas a vontade do Pai não é de modo algum oposta à vontade do Filho, pois Aqueles que têm uma só divindade não podem ter uma vontade diferente; e onde na natureza não pode haver diversidade alguma, lá contudo pode, de modo geral, ser enumerado algum número[5].


[1] A numeração utilizada é do livro Denzinger-Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, Ed. Paulinas e Edições Loyola.

[2] Cf. p. ex. Agostinho, Enarrationes in Psalmos 6 [ad v. 1] (E. Dekkers – J. Fraipont: CpChL 38 [1956] 27); De diversis quaestionibus LXXXIII libri, q. 60 65 (A. Mutzenbecher: CpChL 50 [1968] 61-68 / PL 42, 836-840).

[3] Ex humanitatis natura.

[4] 474. 474 248 De eo …, quod scriptum est, quia ‘diem et horam neque Filius neque angeli sciunt’ (cf. Mc 13, 32), omnino recte vestra sanctitas sensit, quoniam non ad eundem Filium iuxta hoc quod caput est, sed iuxta corpus eius quod nos sumus, est certissime referendum. Qua de re multis in locis Augustinus eo sensu utitur. Dicit quoque et aliud, quod de eodem Filio possit intelligi, quia omnipotens Deus aliquando more loquitur humano, sicut ad Abraham dicit: ‘Nunc cognovi, quia times Deum (cf. Gn 22, 12), non quia se Deus tunc timeri cognoverit, sed quia tunc eundem Abraham fecit agnoscere, quia Deum timeret. Sicut enim nos diem laetum dicimus, non quod ipse dies laetus sit, sed quia nos laetos facit, ita et omnipotens Filius nescire se dicit diem, quem nesciri facit, non quod ipse nesciat, sed quia hunc sciri minime permittat.

475 248 Unde et Pater solus dicitur scire, quia consubstantialis et Filius ex eius natura, qua est super angelos, habet ut hoc sciat, quod angeli ignorant. Unde et hoc intelligi subtilius potest, quia incarnatus Unigenitus factusque pro nobis homo perfectus in natura quidem humanitatis novit diem et horam iudicii, sed tamen hunc non ex natura humanitatis novit. Quod ergo in ipsa novit, non ex ipsa novit, quia Deus homo factus diem et horam iudicii per deitatis suae potentiam novit. … Itaque scientiam, quam ex humanitatis natura non habuit, ex qua cum angelis creatura fuit, hanc se cum angelis, qui creaturae sunt, habere denegavit. Diem ergo et horam iudicii scit Deus et homo; sed ideo, quia Deus est homo.

476 248 Res autem valde manifesta est, quia quisquis Nestorianus non est, Agnoita esse nullatenus potest. Nam qui ipsam Dei Sapientiam fatetur incarnatam, qua mente valet dicere esse aliquid, quod Dei Sapientia ignoret ? Scriptum est : ‘In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum. Omnia per ipsum facta sunt’ (Jo 1,13). Si omnia, procul dubio etiam dies iudicii et hora. Quis ergo ita desipiat, ut dicere praesumat, quia Verbum Patris fecit quod ignorat? Scriptum quoque est: Sciens Iesus, quia omnia dedit ei Pater in manus (Jo 13,3). Si omnia, profecto et iudicii diem et horam. Quis ergo ita stultus est, ut dicat, quia accepit Filius in manibus quod nescit? De eo vero loco, in quo mulieribus de Lazaro dicit: ‘Ubi posuistis eum?’ (Jo 11,34), ipsa specialiter sensimus, quae sensistis, quia si negant scisse Dominum, ubi fuerat Lazarus sepultus, atque ideo requisisse, procul dubio compelluntur fateri quia nescivit Dominus, in quibus locis se Adam et Eva post culpam absconderant, cum in paradiso dixit: ‘Adam, ubi es?’ (cf. Gn 3, 9), aut cum Cain corripit dicens: ‘Ubi est Abel frater tuus?’ (Gn 4, 9). Qui si nesciebat, cur protinus adiunxit: ‘Sanguis fratris tui de terra clamat ad me’?

[5] 572. (22) Ipse vero Dei Filius ab ingenito Patre genitus, a vero verus, a perfecto perfectus, ab uno unus, a toto totus, Deus sine initio, perfectum hominem de sancta et inviolata Maria semper virgine adsumpsisse est manifestus.

(23) Cui etiam, sicut hominis perfectionem adscribimus, ita duas ei voluntates inesse, unam divinitatis suae, aliam humanitatis nostrae, nihilominus credimus:

(24) quod etiam per quatuor Evangelistarum oracula eiusdem Redemptoris nostri affatu evidentissime declaratur; sic enim fatus est dicens: ‘Pater mi, si possibile est transeat a me calix iste; verumtamen non sicut ego volo, sed sicut tu’ vis (Mt 26, 39); et iterum: Non veni voluntatem meam facere, sed voluntatem eius, qui misit me (cf. Jo 6, 38) . . .

(25) Quibus etiam adlocutionibus demonstrat suam voluntatem ad hominem retulisse adsumptum, Patris ad divinitatem, in qua est idem unus et aequalis cum Patre: quippe quantum ad divinitatis adtinet unitatem, non est alia voluntas Patris, alia Filii; una enim est voluntas, ubi una persistit divinitas. Quantum autem ad hominis naturam adsumpti alia est voluntas deitatis suae, alia etiam humanitatis nostrae.

(26) Proinde in hoc quod ait: ‘Non sicut ego volo, sed sicut tu’ (Mt 26, 39), patule ostendit non velle id fieri quod voluntate humani loquebatur affectus, sed propter quod ad terras paterna voluntate descenderat, cuius tamen Patris voluntas nequaquam contraria Filii voluntati exstitit, quia quibus est divinitas una, non potest esse voluntas diversa; et ubi in natura nihil potest diversitatis accidere, ibi nihilominus enumerantur generaliter aliqua numerosa.

573 296 (27) Igitur huius voluntatis sanctae vocabulum, quamvis per comparativam similitudinem Trinitatis, qua dicitur memoria, intellegentia et voluntas, ad personam Sancti referatur Spiritus, secundum hoc autem, quod ad se dicitur, substantialiter praedicatur.

(28) Nam voluntas Pater, voluntas Filius, voluntas Spiritus Sanctus, quemadmodum Deus est Pater, Deus est Filius, Deus est Spiritus Sanctus, et multa alia similia, quae secundum substantiam dici ab his, qui catholicae fidei veridici cultores exsistunt, nulla ratione ambigitur.

(29) Et sicut est catholicum dici Deum de Deo, lumen de lumine, lucem de luce, ita verae fidei est proba adsertio, voluntatem dici de voluntate, sicut sapientiam de sapientia, essentiam de essentia: et veluti Deus Pater genuit Filium Deum, ita voluntas Pater genuit Filium voluntatem.

(30) Itaque quamquam secundum essentiam Pater voluntas, Filius voluntas, Spiritus Sanctus voluntas, non tamen secundum relativum unus esse credendus est, quoniam alius est Pater qui refertur ad Filium, alius Filius qui refertur ad Patrem, alius Spiritus Sanctus qui pro eo quod de Patre Filioque procedit, ad Patrem Filiumque refertur: non aliud, sed alius; quia quibus est unum esse in deitatis natura, his est in personarum distinctione specialis proprietas. …

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