Liberalismo mil vezes criminoso

O então Cardeal Pacelli, quando legado do Papa Pio XI na França, se não me engano, pronunciou um sermão impressionante, em que fez uma sentida alusão à inobservância das palavras pontifícias pelo mundo inteiro. De tudo o que o antigo Secretário de Estado disse a esse propósito, nada me causou mais profunda impressão do que a censura viva e candente que ele dirigiu, não apenas aos que blasfemam contra as ordens dos Papas e as violam expressamente, mas ainda aos que, freqüentando assiduamente a igreja aos domingos, ouvem correta e respeitosamente a palavra do Evangelho e do Papa… que lhes entra por um ouvido e sai, incontinente, pelo outro. Fui forçado a meditar mais uma vez sobre essa dolorosa verdade, lendo o último número de “Ação Católica”, a excelente revista editada pela Junta Nacional da Ação Católica com sede no Rio de Janeiro.

Essa revista publicou, efetivamente, uma carta do grande e saudoso Pio XI à Universidade Católica de Washington, em que, com uma insistência calorosa e premente, toda sua, o Papa incita todos os católicos a que se dediquem, hoje em dia, ao estudo acurado e exato de todos os grandes problemas de caráter constitucional e social, à luz das determinações e instruções emanadas da Santa Sé. Mostra Pio XI que são estes os problemas mais candentes de nossa época, e que os católicos devem, pois, inteirar-se deles com uma solicitude particular. E essa obrigação não se refere somente aos católicos “yankees”, mas tem o caráter de um apelo geral dirigido a toda a Cristandade, no que ela tem de autêntico e vivo, que são os fiéis unidos ao Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Santa Igreja Católica.

Lembrando aos católicos esse gravíssimo dever, Pio XI condenou mais uma vez, de forma implícita, um gravíssimo erro de sabor liberal e modernista, que tem causado males incalculáveis. Insistimos nesse erro, porque no Brasil ele grassa com singular intensidade.

* * *

Os liberais do século passado, desejosos de reduzir o quanto possível a esfera de influência da Igreja, disseminaram a afirmação ainda muito corrente, de que, se a ação desta é legítima e até louvável no campo estritamente religioso, constitui uma exorbitância condenável, em outros terrenos.

É digno e louvável que os fiéis se reunam nas igrejas, para assistir à celebração dos atos do culto. E, nesse sentido, não só a autoridade dos sacerdotes é legítima, como é plena.

Mas, qualquer coisa que signifique concretamente uma influência social da Igreja deve ser vista com desconfiança, particularmente quando essa influência não se faz sentir apenas no campo beneficente, mas no campo cívico, pela organização da opinião católica no sentido de impor uma estruturação do Estado conforme à doutrina católica.

Esse erro, como todos os erros liberais e modernistas, se reveste dos aspectos mais subtis e artificiosos. Há muita gente boa que acredita, por exemplo, que falar em ação cívica dos católicos é pôr em jogo os interesses da Igreja, porque esta só tem a perder com a interferência do ideal católico na vida cívica, em virtude do risco de virulentas reações dos adversários. Outros há que, devido ao receio dos inconvenientes eventualmente resultantes da intromissão do Clero na vida política, prefeririam nunca ouvir pronunciar associadas as expressões “problemas políticos” e “doutrina católica”. E, com essas e outras frioleiras disseminadas pela perfídia e agasalhadas pela ingenuidade, os países católicos vão sendo gradualmente franqueados às grandes heresias políticas de nossa época.

* * *

Dir-se-á que exageramos. Entretanto, basta abrir os olhos para a realidade, para se convencer qualquer pessoa do contrário.

Um exemplo típico disto é fornecido pela Hungria. Todos se lembram ainda das grandiosas manifestações de Fé desenroladas naquele país, por ocasião do Congresso Eucarístico ali realizado há um ou dois anos. Toda a magnífica vitalidade religiosa da Pátria de Santo Estêvão transpareceu esplendidamente ali. Entretanto, hoje em dia a Hungria, a despeito da grande população católica que a governa, está facilitando o jogo do paganismo na Europa e, pior do que isto, está abrindo suas próprias portas à paganização. Se propusesse a destruição do monumento de Santo Estêvão, símbolo da Hungria monárquica, mas sobretudo da Hungria católica, uma tempestade de protestos faria silenciar o autor da idéia. Entretanto, o que se está fazendo é mil vezes pior do que isso. Na realidade, não é a estátua de Santo Estêvão, mas a própria obra do grande rei que está sendo dinamitada. E os católicos húngaros, em freqüentes casos que comportam gloriosas exceções, cruzam os braços. Traição? Apostasia? Não: incompreensão e liberalismo. Em suma, a idéia falsa de que a Religião só é atacada quando se toca no culto, e que, quanto ao mais, a Religião pouco ou nada tinha que ver.

Para corroborar esse triste sofisma, não faltam filósofos. E assim começam a fazer algumas míseras distinções. Um húngaro deve ser contra o nazismo? Sim. Contra a Alemanha? Não. Logo, pode ser pela Alemanha, fazendo reservas quanto ao nazismo, como se essa posição cerebrina tivesse qualquer raiz ou apoio na realidade.

* * *

É contra essa gente, que infelizmente tem abundantes sósias espirituais no Brasil, que erguemos nosso protesto. A palavra do Papa os condena. Também os condena a História da Igreja.

Em suma, o problema das Cruzadas foi um grande problema político, e não apenas religioso. Foi preciso unir príncipes, desfazer desavenças intestinas dentro da Cristandade, armar exércitos, equipar frotas, estudar a partilha da eventual conquista etc., para que as Cruzadas se realizassem. Mas os católicos da Idade Média tinham o sentido vivo e profundo do que seja a Igreja. E por isso mesmo via-se que leigos zelosos, além de sacerdotes, Bispos, Doutores, Santos e o próprio Papa intervinham ativamente em tudo que se relacionava com as Cruzadas. Não houve monges – e um deles foi São Bernardo – que julgaram de sua missão levantar exércitos? Não houve outros que julgaram dever interferir na diplomacia, para resolver problemas puramente materiais, que prejudicavam a realização da grande arrancada espiritual contra o Islão? Não houve Papas que se puseram à testa de tudo isso, sendo os verdadeiros e máximos animadores da resistência? Onde, nesse magnífico episódio da vida da Igreja, a miserável separação (que não exclui a inevitável distinção) entre o temporal e o espiritual?

Se fosse esse o espírito da massa católica em nossos dias, estaria tão decadente a atual civilização?

PARA CITAR ESTA POSTAGEM:
Liberalismo mil vezes criminoso, por Plínio Correa de Oliveira, São Paulo, SP, Brasil, 26 de mar. 1939.
de Legionário, N.º 341, como visto em jan. 2014: “http://www.pliniocorreadeoliveira.info/LEG%20390326_LIBERALISMOMILVEZESCRIMINOSO.htm”

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
allan.santosbr@gmail.com

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One thought on “Liberalismo mil vezes criminoso

  1. Direto do Equador, de 1891:

    E. – Así es. Los desastres que causa en la sociedad moderna el liberalismo católico no tanto son obra de errores del entendimiento, como efectos de la debilidad de caracteres. Como muy bien observaron nuestros prelados ecuatorianos en su “Carta Pastoral Colectiva”, tan celebrada por todos los más sabios escritores de Europa, el liberalismo católico es el mismo miedo embozado ora en el manto de la caridad, ora en el de la prudencia. A los católicos liberales les asusta un ceño, les hace temblar una amenaza, les rinde un peligro. Poseídos del miedo, quieren que la Iglesia en sus combates sea como ellos, pusilánime: y porque ella es madre de héroes, acúsanla de imprudente y temeraria. Explicando en seguida nuestros pastores las consecuencias funestísimas de este miedo de los liberales, añaden en aquel precioso documento estas palabras que nunca debieran olvidar los católicos.
    “El liberalismo católico, dicen, es esclavo de una tiranía cruel; la tiranía de la opinión. ¿Qué es ver á los liberales católicos, empeñados en conquistar aura popular, arrastarse en medio de las turbas por obtener de ellas un signo de aprobación, un aplauso que el viento disipa? ¿Qué es verlos hechos el ludibrio de las exigencias caprichosas de muchedumbres inconstantes, defendiendo con igual debilidad el sí y el nó, y aprobando hoy lo que ayer combatieron? Sansón es el liberal católico, á quien pérfida Dálila cortó el cabello de la fortaleza para entregarle maniatado al desprecio y burla de los filisteos. Hubo un hombre altivo que pronunció estas palabras: si adhue hominibus placerem, Christi servus non essem: si yo buscara agradar á los hombres, no sería siervo de Cristo. Ese hombre fue San Pablo, y ese hombre es todo católico, sin apellido, sin apodo. El liberalismo católico es la perfidia y traición personificadas. Un católico liberal entre los liberales es un tránsfuga de la Iglesia, porque dice que es católico; y entre los católicos es un espía del campo enemigo, porque dice que es liberal. Tránsfuga y espía son traidores. ¿Qué hace un católico entre los liberales? Vende á Cristo. ¿Qué hace un liberal entre los católicos? Engaña á los hombres; pero no engañará á Dios: Deus non irridetur. (Ad Gal. VI, v. 7.”)
    F. – ¿Así se expresaron los obispos ecuatorianos? No he leído ese documento; pero por esta muestra creo que será magnífico, y que sus palabras debían engastarse en oro. Tiempo ha que también á mí me ha parecido que el liberalismo católico en ciertos pueblos y entre cierta clase de gentes no es tanto un sistema de ideas y principios más ó menos erróneos y funestos, como un sentimiento ó pasión de ánimos apocados, condescendientes y tímidos que á trueque de evitar un compromiso, un conflicto cualquiera, están dispuestos á pasar por las más humillantes transacciones y condescendencias. En mi concepto esta disposición de los ánimos nace de esa que García Moreno llamó enfermedad endémica del siglo, esto es, de la debilidad de carácter.
    E. – ¿Y cuál os parece que será la causa de esta misma debilidad de carácter?
    F. – No una, muchas son, amigo mío, las causas de tan grave dolencia de la sociedad moderna: me contentaré con indicarlas rápidamente. La primera es la casi absoluta falta de acción de la autoridad paterna en el hogar doméstico, y las exageraciones nauseabundas de un amor puramente sensibles é instintivo en las madres y nodrizas. ¿Cuál pude ser la virilidad de generaciones mecidas al arrullo del mimo, de la adulación y de la condescendencia, y entregadas á los instintos ciegos de una naturaleza enferma? La segunda causa es cierta no muy advertida debilidad de la autoridad docente en las escuelas y colegios. Hoy se quiere educar á los niños y jóvenes únicamente por las vías de la persuasión, del honor, de los premios y condecoraciones; se les quiere allanar todo, facilitárselo todo, ahorrarles todo trabajo; se modifican las leyes de instrucción pública según el capricho de la edad primera; se les oye en las cámaras para decretar ahora la libertad de estudios, ahora la no libertad de los mismo, según las ideas ó impresiones del momento; se conceden privilegios y excepciones á la ociosidad, pereza y negligencia, &., &.; se frustran todo los esfuerzos de una educación más sostenida y vigorosa con el habitual desórden, inconstancia é indisciplina de la vida doméstica. La tercera causa es esa literatura, hoy tan en boga, de un sentimentalismo exagerado y sin motivo, que da á las nacientes inteligencias una dirección peligrosísima que los convierte en eternos lloriqueadores de desvíos y desdichas novelescas que á nadie importan un ardite, ni á los mismos que las cantan. La cuarta causa es la improvisación de celebridades. Explícome. ¿Cumple un joven con su deber sosteniendo un programa y pronunciando un discurso? Pues le redarán los ancianos y exagerando su mérito le dirán: tu eres un héroe, serás Presidente. ¿Es otro muy franco, complaciente y generoso? Pues sin más, le dirán amigos y ancianos: tu eres Tito; las delicias del género humano; tu serás Presidente. ¿Ha publicado aquél alguna cosilla por la prensa? Pues ya es un literato consumado que puede habérselas con el mismo Apolo y con las nueve hermanas; y le dirán los ancianos: tu te pierdes de vista; tu serás Presidente. Así se despiertan ambiciones que en el concepto de los jóvenes, pueden muy bien satisfacerse á cuatro paletadas; y lo peor es que todo va á parar á la presidencia de la República. La quinta causa es la habitual mala administración de la justicia legal, distributiva y vindicativa. Un país donde las infracciones de la ley no se castigan sino en la persona de los pobres y desvalidos; donde los nobles y ricos cuentan seguramente con la impunidad fundada tan sólo en su fortuna y en su nobleza; un país donde las recompensas y cargos público se deben exclusivamente al favor, al valimiento, á la intercesión, á los empeños y ruegos importunos; un país donde se desconoce el verdadero mérito, ó se le deprime con un epigrama ó un apodo; y donde, al contrario, se recomiendan, como títulos de gloria, la desvergüenza y audacia de los perversos y de los ignorantes; este país, repito, no podrá contar en su seno muchos héroes, y si aparece por ventura alguno, morirá á manos de la ingratitud, traición y perfidia, las cuales arrancarán crueles ese germen de fortaleza, y condenarán el país infortunado á una muerte de consunción.

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