Decisiva derrota de Napoleão na Rússia

Talvez nenhuma derrota tenha sido tão humilhante quanto a do exército de Napoleão Bonaparte na Rússia dos czares. Episódios históricos pouco divulgados são descritos pelo Conde de Ségur, testemunha ocular.

A Revolução Francesa de 1789 – com seu lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade, com seu hino-símbolo Marseillaise, com o rio de sangue que fez correr a fim de obter a demolição da antiga ordem social e política – tinha em vista espalhar para todo o universo o tipo de sociedade igualitária e anticristã que gerou.

Porém, dez anos ainda não haviam transcorrido desde a queda da Bastilha, marco inicial do dilúvio revolucionário que se abateu sobre a França, e já o povo dava mostras inequívocas de estar assustado com tanto sangue e perseguição, cansado de tanta demagogia. Anseios pela volta do Antigo Regime começavam a florescer nas almas, e a possibilidade de um retorno à monarquia dos Bourbons era visto pelas hostes revolucionárias como um temível risco.

Uma carreira meteórica

Nesse contexto foi lançada aos céus da França a figura de Napoleão Bonaparte.Militar habilidoso e cheio de uma grandeza fátua, ele foi um fiel instrumento da Revolução; mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, o catalisador de todo o enorme descontentamento que ela gerara. Apesar do fracasso na promissora empresa no Egito, que sob o seu comando fora derrotada, decidiu-se dar-lhe o mais alto posto da nação francesa, com base em suas promessas enganosas de restaurar a antiga glória da França, e ele subiu como um foguete espacial que parte do chão e atinge estrelas.

Sua política interna consistiu em colocar certa ordem onde a Revolução gerara o caos; dar segurança à população, aterrorizada com o vandalismo revolucionário; fazer um pacto com a Igreja depois da terrível perseguição aos católicos; criar um arremedo de aristocracia, uma vez que a Revolução decapitara inúmeros nobres pela guilhotina. Do Antigo Regime ele tudo imitou caricatamente, mas de fato nada restaurou.

Externamente, por meio da formação de um poderoso exército, levou os princípios revolucionários a toda a Europa e os impôs através da força, estabelecendo regimes republicanos ou derrubando monarquias seculares, que eram substituídas por reis de fancaria – ora seus parentes, para quem inventara títulos nobiliárquicos, ora outros lacaios que ele mesmo escolhia.

Com o golpe de 18 Brumário (9-11-1799), Napoleão assumiu o regime do consulado como primeiro cônsul, na verdade uma ditadura disfarçada. Novo golpe em 1804, que instituía o império. Assim usurpava ao mesmo tempo o poder tradicional dos Bourbons, na França, e o título do Imperador do Sacro Império. Ele próprio coroou-se na catedral de Notre Dame, diante do Papa Pio VII atônito e perplexo. Sentindo o artificial de sua condição imperial, procurou remediá-la casando-se com a filha do imperador da Áustria, Maria Luisa de Habsburgo.

Durante 15 anos (1799-1814) Napoleão atuou como o demiurgo da Europa.Quem não se dobrasse às suas leis, era demolido. Diante dele, só duas posições eram possíveis: a de bajulador ou a de vítima.

Queda como a de Babilônia

Como caiu tão grande potentado? Do mesmo modo como ocorreu a queda anunciada por um anjo na Sagrada Escritura: “Caiu, caiu a grande Babilônia por ter dado de beber, a todas as nações, do vinho de sua imundície desenfreada” (Ap 14,8).

Começara essa queda a esboçar-se já em 1808, quando da invasão da Espanha e destronamento de Carlos IV. A população civil espanhola levou a cabo uma resistência heróica, de modo que os soldados napoleônicos tinham que conquistar rua por rua, casa por casa, o que se verificou extenuante e impossível. Em Portugal, a sagacidade de D. João VI, transferindo-se para o Brasil, evitou-lhe a perda do trono e frustrou os planos de Napoleão para aquela nação.

O “general inverno”

A espetacular derrocada do exército francês durante a invasão da Rússia czarista, em 1812, colocou definitivamente as condições para a queda do império napoleônico.

Essa derrota na Rússia deveu-se a dois fatores determinantes. Primeiro a tática utilizada pelo exército russo, de limitar-se a provocar pequenas escaramuças e ir recuando, deixando após si a terra arrasada por meio de incêndios, devastações e fuga das populações. De tal modo que o exército napoleônico avançava, mas não encontrava onde acampar, nem o que comer, nem condições mínimas de civilização. Assim foi a marcha até Moscou, que Napoleão encontrou sendo destruída por um incêndio, sem condições de abrigar seu exército já enormemente depauperado e reduzido.

O segundo fator foi o chamado “general inverno”. Obrigado à retirada devido à situação de Moscou, o exército viu-se açoitado pelo terrível inverno russo, em seu período mais rigoroso, e acabou por debandar, deixando cobertos de cadáveres aqueles campos gelados e desertos.

O imenso revés de Napoleão na Rússia teve como testemunha ocular o Conde Philippe de Ségur, general e ajudante de ordens de Napoleão, que descreveu pormenorizadamente os fatos (Cf. La Campagnede Russie, Paris, Nelson Éditeurs, 1910, 457 pp.). Ao ler esse impressionante relato, fica-se com a impressão de que a mão de Deus abateu-se então sobre as pretensões revolucionárias, que tinham em Napoleão Bonaparte seu maior símbolo e propulsor. Os horrores e catástrofes que o autor apresenta são altamente elucidativos do grau extremo a que podem chegar os sofrimentos físicos e a miséria moral dos homens. Nada melhor do que meditá-los ante a perspectiva de acontecimentos vindouros, previstos em Fátima como uma irrevogável e sublime sentença: “Várias nações serão aniquiladas”.

Os episódios a seguir são transcritos dessa obra.

De Paris a Moscou

Para a “campanha da Rússia”, Napoleão levantou um exército de 617 mil homens, dos quais 480 mil presentes desde o início, provenientes de diversos países da Europa subjugada. Visava estender seus domínios até a Ásia. Ele acreditava que a simples menção de tão formidável exército seria suficiente para a capitulação do czar Alexandre I. Entretanto, nem todos pensavam desse modo, e outros eram os desígnios de Deus.

Em 9 de maio de 1812, Napoleão saiu de seu palácio, em Paris, para iniciar a grande campanha.

Prepotência e imprudência

Em fins de junho, ao sitiar a cidade de Vilnius (atualmente capital da Lituânia), então anexada pela Rússia, deparou-se com o fato de que os cossacos russos haviam destruído uma ponte sobre o rio Viliya,que o exército deveria atravessar. “Napoleão ostentou desprezar o obstáculo, como tudo o que se lhe opunha, e ordenou a um esquadrão de cavalaria, de sua guarda, lançar-se através do rio. Esses homens de elite nele se precipitaram, sem hesitar. Inicialmente marcharam em ordem, e quando o fundo lhes faltou, redobraram os esforços. Logo se puseram a nadar em meio às ondas. Mas foi aí que a correnteza mais rápida os desuniu. Então seus cavalos se amedrontam, derivam e são arrastados pela violência das águas. Não nadam mais, e flutuam dispersos. Os cavaleiros lutam e se debatem em vão, a força os abandona. […] Pereceram todos. O exército foi tomado de horror e de espanto”.29 (Os números ao fim das citações indicam as páginas do livro).

Na previsão da derrota, insegurança

Napoleão esperava que as primeiras conquistas em território russo produziriam imediatamente uma sublevação das províncias da região a seu favor, o que obrigaria o czar Alexandre a enviar-lhe emissários com propostas de paz. E então ele, Napoleão, concederia benignamente a paz, em troca de tornar-se o senhor de todas as Rússias.

Mas a realidade passava ao largo de suas pretensões. Seu exército era continuamente fustigado nas extremidades por pequenas incursões dos russos, mas nunca se produzia uma batalha formal. De outro lado, o avanço em terra arrasada era desesperante. Foi assim que, pelos fins de julho, Napoleão chegou a uma grande cidade, considerável centro militar russo, que ele esperava tomar de assalto após vencer o exército que a defendia: Vitebsk, no nordeste da Bielorrússia.Entretanto, mais uma grande decepção: encontrou o campo vazio de russos e a cidade abandonada. Furioso, dirigiu-se a seus íntimos: “Vocês acham que eu vim de tão longe para conquistar esta favela?”

E os ansiados emissários do czar não apareciam… O futuro da campanha começa a tornar-se previsível: um avanço no nada. O que fazer? Que resolução tomar?

“Então ele delibera. E essa grande irresolução, que atormenta seu espírito, apossa-se de toda sua pessoa. É visto caminhar em seus apartamentos, como perseguido por esta maligna tentação. Nada pode detê-lo: a cada instante ele toma, deixa e retoma seu trabalho; caminha sem rumo, pergunta a hora, considera o clima; e inteiramente absorto, se detém; depois murmura com ar preocupado, e retoma a caminhada.

“Em sua perplexidade, ele dirige palavras entrecortadas àqueles que encontra: ‘Então, o que faremos?’; ‘Permaneceremos aqui?’; ‘Avançaremos?’; ‘Como deter-se num tão glorioso caminho?’. Não espera a resposta, e prossegue a caminhada. Parece procurar algo ou alguém que o leve à decisão.

“Por fim, sobrecarregado pelo peso de uma tão considerável preocupação, e oprimido por tão grande incerteza, joga-se sobre um dos leitos de repouso que fez estender sobre o assoalho de seus aposentos; seu corpo, que o calor e a tensão de seu espírito exaurem, cobre-se apenas por uma ligeira veste; é assim que ele passa em Vitebsk uma parte de seus dias”.

Foi ainda de Vitebsk que Napoleão – temendo que uma aliança com a Turquia viesse fortalecer a Rússia – escrevia a seu secretário de Estado, duque de Bassano (feito duque por ele), mandando-lhe “que anunciasse aos turcos a cada dia novas vitórias – verdadeiras ou falsas, pouco importava – contanto que essas notícias suspendessem sua paz com os russos”.

O saque de Moscou

Napoleão prossegue sua avançada, e a 14 de setembro entra em Moscou, tendo sido precedido por vários corpos de exército famintos e cansados. Uma pequena parte da cidade estava em chamas, e aos poucos ele pôde constatar que ela estava vazia. Daqui e dali, novos focos de incêndio vão aparecendo, até que se torna realidade o espetáculo impressionante da Moscou lendária, com seus palácios e suas riquezas, totalmente em chamas.

Foi em meio a essa convulsão que Napoleão autorizou aos seus soldados a pilhagem. Mas, “quando ele soube que a desordem crescia, que até sua velha guarda via-se arrastada por ela, […] que os diferentes corpos de soldados estavam a ponto de disputar violentamente entre si os restos de Moscou, que os recursos ainda existentes se perdiam por esse saque irregular, então ele deteve a pilhagem”.Despojou as igrejas do Kremlin de tudo o que pudesse servir de troféu para seu exército.

O governador de Moscou, conde Rostopchin, tinha não muito distante dali, em Voronowo, uma bela propriedade na qual atuava como uma espécie de senhor feudal da região. Ao aproximarem-se as tropas napoleônicas, o conde adiantou-se e a incendiou, sorrindo ao ver a destruição de sua soberba residência. Depois, com sua própria mão, escreveu sobre a porta de ferro de uma igreja que permanecera de pé: “Eu embelezei durante oito anos esta propriedade rural, e aqui vivi feliz no seio de minha família. Os habitantes desta terra, em número de mil e setecentos e vinte, a abandonam por causa de vossa aproximação. E eu ponho fogo à minha casa, para que ela não seja manchada por vossa presença!”.

Após a tomada de Moscou, tornada cidade fantasma e reduzida a escombros, o que resta a Napoleão fazer? Em suas próprias fileiras começam as desavenças, e a fatídica palavra “retirada” se faz ouvir. Para Napoleão, porém, “Moscou não é uma posição militar, é uma posição política. Pensam que sou general, mas eu sou imperador. Em política é preciso nunca recuar, jamais voltar sobre seus passos, guardar-se bem de admitir um erro, pois isso traz desconsideração. Quando a gente se engana, é preciso perseverar, pois isto nos dá razão”.

Com suas manobras ao largo, o general russo Kutusof, zomba de Napoleão: “Ele o sente, mas se encontra engajado tão à frente, que não pode mais nem avançar, nem permanecer, nem recuar, nem combater com honra e sucesso”.212

De Moscou a Paris

Por fim, sem qualquer chance, Napoleão não teve outra saída senão promover a retirada, “mas foi necessário um esforço cruel para que ele pudesse arrancar de si mesmo uma ordem de marcha que lhe era tão nova! Este esforço foi tão penoso, custou tanto ao seu orgulho, que nesse combate interior ele desmaiou”.

Os feridos abandonados

Iniciada a retirada, os soldados, já muito dizimados, começaram a morrer às dezenas – de fome, de cansaço, de frio que principiava. Iam retornando pelos caminhos que percorreram na ida, e de repente depararam com os restos de uma batalha: “Sobre o chão desolado jaziam 30 mil cadáveres semi-devorados. O imperador passou rapidamente. Ninguém se deteve: o frio, a fome, o inimigo impunham pressa”. Nisso,“uma das vítimas daquela jornada sangrenta foi percebida ainda viva e rasgando o ar com seus gemidos. Acudiram até ela: era um soldado francês. Suas duas pernas tinham sido quebradas no combate, ele havia caído entre os mortos e aí fora esquecido. O corpo de um cavalo estripado por um obus fora de início seu abrigo; em seguida, durante 50 dias, a água pantanosa de um barranco, para onde ele havia rolado; e a carne putrefata dos mortos serviu de amparo a suas feridas e de sustento a seu ser moribundo”.

No caminho, “revimos a grande abadia de Kolotskoi, transformada em hospital.Apesar da fome, do frio, da completa ausência de tudo, o devotamento de alguns médicos e um resto de esperança sustentavam ainda um grande número de feridos nesse lugar fétido. Mas quando eles viram o exército que retornava, que eles iam ser abandonados, que não havia mais esperança, os menos fracos se arrastavam até a porta, bordejavam o caminho e nos estendiam suas mãos suplicantes”.

“Durante esta parada, vimos uma ação atroz. Diversos feridos foram colocados sobre as charretes dos vivandeiros. Esses miseráveis, que tinham suas viaturas sobrecarregadas com despojos de Moscou, […] se deixaram então ficar para trás e jogaram em barrancos todos esses infortunados confiados a seus cuidados. Só um sobreviveu o suficiente para ser recolhido pelas primeiras viaturas que passaram: era um general”.

Quando a coluna imperial se aproximou de Gjatz, encontramos cadáveres de prisioneiros russos que acabavam de ser mortos pela coluna da frente. “Cada um deles tinha a cabeça quebrada, e o cérebro ensangüentado se esparramava a seu lado. O general Caulaincourt [tinha o título de Duque de Vicence, dado por Napoleão]exclamou: ‘Isso é uma crueldade atroz! É essa a civilização que nós trazemos à Rússia!’. […] Napoleão guardou um silêncio sombrio, mas no dia seguinte essas matanças haviam cessado. Contentávamo-nos em deixar esses infelizes morrer de fome nos arredores das cidades, onde eram abandonados durante a noite como animais. […] A retirada havia se transformado em fuga; e era um espetáculo bem novo ver Napoleão compelido a ceder e fugir”.

Mais adiante ouviam-se “gritos de desespero que partiam dos bosques vizinhos, nos quais acabavam de ser abandonados os grandes comboios de feridos, inutilmente trazidos desde Moscou”.

O peso insuportável da retirada

“Ele [Napoleão]quis se aliviar do peso insuportável da responsabilidade por tantos males”. Assim, passou a acusar um “ministro russo vendido aos ingleses, de ter fomentado essa guerra”. O artificialismo da acusação caiu mal até entre seus generais: “O duque de Vicence, talvez muito impaciente, se irritou; fez um gesto de cólera e incredulidade e interrompeu a fala, retirando-se bruscamente dessa penosa conversa”.

A cada instante, no caminho, uma queda brusca no gelo arrastava as viaturas para o fundo. Para sair, era necessário subir a rampa gelada, mas as patas dos cavalos não conseguiam fixar-se. “A todo momento eles e seus condutores caíam esgotados, uns sobre os outros. Imediatamente os soldados esfomeados se lançavam sobre esses cavalos abatidos e os despedaçavam; em seguida, sobre fogueiras alimentadas por restos das viaturas, assavam essas carnes ensangüentadas e as devoravam”.

A superfície da neve “esconde profundezas desconhecidas, que se abrem perfidamente sob nossos passos. Lá o soldado afunda, os mais fracos se entregam e aí permanecem sepultados”.

Nas aldeias, exalações mefíticas

Chegados a uma pequena aldeia, os generais procuravam nela abrigar-se. Mas os soldados, “mesmo os da guarda imperial”, sem víveres, sem abrigo, condenados a passar a noite na neve, assaltavam as casas de madeira.“Aproveitando a escuridão, arrancavam tudo, portas, janelas e até os madeirames dos tetos, não se incomodando de reduzir os outros, quem quer que fossem, a acampar como eles”. Os generais os repeliam inutilmente, até que “eram obrigados a abandonar as casas, de medo que elas desabassem sobre eles. […] Em todo o exército aconteciam, cada noite, cenas semelhantes”.

Napoleão chegou a Smolensk em 9 de novembro, e havia sido precedido por diversas colunas. “O amontoado de cadáveres nas casas, nos pátios e jardins, e suas exalações mefíticas, empestavam o ar. Os mortos matavam os vivos. Os empregados, como muitos militares, haviam sido afetados; uns se haviam tornado como imbecis; choravam ou fixavam na terra um olhar perdido e constante. Havia aqueles cujos cabelos se haviam endurecido, levantados e enrolados como corda; depois, em meio a uma torrente de blasfêmias, de uma horrível convulsão ou de um riso ainda mais atroz, eles caíam mortos”.

Dizimação em massa

“O exército havia saído de Moscou com 100 mil combatentes; em 25 dias, estava reduzido a 36 mil homens”.

“Napoleão entrou em Orcha com 6 mil guardas, restos dos 35 mil; o general Eugênio, com mil e oitocentos soldados, restos dos 42 mil; o marechal Davout, com 4 mil combatentes, restos dos 70 mil. Este marechal havia perdido tudo: estava sem roupa interior e extenuado de fome. Lançou-se sobre um pão que um de seus companheiros de arma lhe ofereceu, e o devorou”.

Em Viazma “vimos Napoleão queimar, com suas próprias mãos, todas aquelas suas roupas que pudessem servir de troféu ao inimigo, se ele sucumbisse. Ali foram infelizmente consumidos todos os papéis que ele havia colecionado para escrever a história de sua vida, pois tal havia sido seu projeto quando partiu para esta funesta guerra”.

Um exército de espectros

Mais adiante encontraram o que restava do corpo de exército do marechal Ney:“Eles contaram que em 17 de novembro haviam saído de Smolensk, aí abandonando 5 mil enfermos à discrição do inimigo. […] Às portas da cidade, uma mãe abandonou seu filho de cinco anos – apesar de seus gritos e lágrimas, ela o repeliu de seu trenó, muito carregado! Ela mesma gritava, com ar perdido, que ‘ele nunca vira a França, e não a lamentará; ela conhecia a França e queria revê-la’.Duas vezes Ney fez recolocar o infortunado nos braços de sua mãe, duas vezes ela o repeliu na neve gelada”. Como punição, essa mãe desnaturada foi abandonada na neve, e a criança foi entregue a outra mãe.

Ao aproximar-se de Borizof, o aspecto do exército era desolador: “Um arrastar de espectros, cobertos de trapos, de mantos de mulheres, de pedaços de tapetes ou de sujas capas chamuscadas ou furadas pelas balas, e cujos pés estavam envolvidos em farrapos de toda espécie; […] soldados descarnados, de olhar aterrorizado e cobertos de uma barba repugnante, sem armas, sem honra, caminhando confusamente, a cabeça baixa, os olhos fixos na terra, em silêncio, como um rebanho de cativos; […] numerosos coronéis e generais esparsos, isolados, que não se ocupavam senão de si mesmos, não pensando senão em salvar seus restos e suas pessoas; caminhavam misturados com seus soldados, que nem sequer os percebiam, aos quais eles nada mais tinham a mandar, dos quais eles nada mais podiam esperar; todos os laços estavam rompidos, todas as fileiras apagadas pela miséria”.

A luta infernal

Ao chegar a Studzianka, o nono corpo de exército, bombardeado pelos russos, tinha como único caminho uma frágil ponte, para prosseguir na retirada.Todos se precipitaram sobre ela, formando um espantoso amálgama de homens, cavalos e carros. “Uns, decididos e furiosos, abriam para si, a golpes de sabre, uma horrível passagem. Muitos desobstruíam para seus veículos um caminho ainda mais cruel; eles os faziam avançar impiedosamente através dessa multidão de desafortunados, e os esmagavam. Em sua odiosa mesquinhez, sacrificavam seus companheiros de infortúnio para salvar suas bagagens”. Em meio a esta horrível desordem, a ponte se rompeu, “a onda humana, que vinha atrás, ignorando essa catástrofe, não ouvindo os gritos dos primeiros, os empurraram para a frente e os lançaram no abismo, no qual eles próprios se precipitaram em seguida. […] Nesta horrível confusão, os homens pisados e sufocados debatiam-se debaixo dos pés de seus companheiros, aos quais se agarravam com unhas e dentes. Estes os repeliam sem piedade, como se fossem inimigos. […] Nesta coluna de desesperados, que se amassavam sobre a única tábua de salvação, elevava-se uma luta infernal, na qual os mais fracos ou os mais mal colocados foram precipitados no rio pelos mais fortes”. Houve também nobres gestos de desinteresse.

Quando os marechais sem soldados quiseram fazer a Napoleão um relato circunstanciado do que estava ocorrendo, ele os interrompeu e lhes disse: “Por que quereis tirar-me a minha calma?”.

Os feridos que iam sendo abandonados pelo caminho “rolavam de desespero sobre a neve ensangüentada”.405A muitos dos que ainda caminhavam, “as armas lhes caíam das mãos, e eles próprios caíam a alguns passos de suas armas.[…] Uma sedição era impossível, teria sido um esforço a mais, e cada um empregava todas as suas forças em combater a fome, o frio e o cansaço”.

Napoleão abandona o exército

A 5 de dezembro, em Smorgony, Napoleão comunica a seus generais que vai abandonar os restos do exército, deixando o comando a Murat, para dirigir-se incógnito a Paris, pois, segundo ele, isto era indispensável para a França. A única vez que reconheceu sua temeridade, foi com estas palavras: “Se eu tivesse nascido sobre um trono, se eu fosse um Bourbon, ter-me-ia sido fácil não cometer faltas”.

“Até chegar ao Reno, ele foi um desconhecido, fugitivo através de uma terra inimiga”.

À notícia da fuga de Napoleão, os oficiais restantes, mesmo generais e coronéis, já não obedeciam a mais ninguém. “Foi um salve-se quem puder, […] não havia mais soldados, nem armas, nem uniformes. […] Foi uma multidão de lutas isoladas e individuais, […] nada de fraternidade de armas, nada de sociabilidade, nenhum laço de união; o excesso de males os havia embrutecido […] como selvagens, os mais fortes despojavam os mais fracos”, corriam junto aos moribundos e não esperavam que morressem, disputavam os pedaços das carnes de cavalo como cães devoradores. “A frieza inflexível do clima havia passado para seus corações”. Houve nobres exceções.

Canibalismo

Quando aparecia algum abrigo ao longo do caminho, “soldados e oficiais, todos, aí se precipitavam, amontoavam-se como animais, apertavam-se uns contra os outros em torno de alguma fogueira; os vivos, não podendo afastar do fogo os mortos, deitavam-se sobre eles, para aí expirarem por sua vez e servir de cama para novas vítimas. Logo outra multidão chegava, e não podendo penetrar nesses asilos de dores, os assaltavam. […] Na aldeia de Ioupranoui, os soldados queimaram casas inteiras para se aquecer durante alguns instantes. O clarão desses incêndios atraiu outros infelizes exaltados até o delírio, que com ranger de dentes e risos infernais precipitavam-se nesses braseiros, onde pereciam com horríveis convulsões. Seus companheiros famintos os olhavam sem horror, e houve mesmo quem puxasse para si esses corpos desfigurados e grelhados pelas chamas, e é inteiramente verdade que eles ousaram levar à boca este revoltante alimento. […] Este era o exército saído da nação mais civilizada da Europa”. O frio era de 28 graus negativos.

Ao sair de Kowno, última cidade do império russo, o “grande exército, em lugar dos mais de 400 mil combatentes, estava reduzido a um milhar de pálidos e gelados infantes e cavaleiros ainda armados, nove canhões e 20 mil infelizes cobertos de trapos, cabeça baixa, olhar extinto, rosto cinzento e lívido, a barba longa e eriçada pela neve”.

__________________________
PARA CITAR ESTA POSTAGEM:
Decisiva derrota de Napoleão na Rússia, 2014, por Cid Alencastro, São Paulo, RJ, Brasil, como visto em jan. 2014

em: “http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=186”.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
allan.santosbr@gmail.com

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