O Beato Pio IX: O Homem de Deus e da Igreja

Pio IX possuiu fama de santidade durante a sua vida e especialmente na ultima parte de seu Pontificado quando, caído definitivamente o poder temporal, tornou-se evidente o esforço que havia empenhado em construir e reconstruir o “tecido conectivo” da Igreja atormentada pelo racionalismo inclusive teológico, pelos nacionalismos, pela maçonaria internacional, pelo anticlericalismo, pelos apetites já então vorazes da mentalidade moderna, pela explosão da “questão social” e pelo marxismo ateu.
Nele brilhou acima de tudo a caridade em todos os níveis da vida pessoal e social, a caridade genuína, como resultado de uma fé inabalável em Cristo e na sua Igreja.
Era pessoalmente convencido de que a Igreja havia entrado em uma nova fase da sua história e se adequado.
Um Pontífice que não possuísse uma grande lucidez mental e uma profunda luz interior, emanações de uma intensa espiritualidade das quais transpareciam sempre coragem, generosidade e uma grande capacidade de amor teria sido sobrecarregado.  Resistiu impávido no timão da barca de Pedro e guiou a Igreja nas profundezas do agitado mar dos novos tempos ainda que tão diferentes daqueles nos quais houvesse sido educado.
 
A caridade o levou a compreender a necessidade das Reformas. As efetuou com decisão. Com igual determinação opôs-se ao partido da Revolução.
Bento XIV, o principal legislador do Direito Canônico para as causas de Beatificação e Canonização afirma que é necessário demonstrar antes da proclamação das virtudes heroicas que um servo ou uma serva de Deus os viveu em um grau heroico por pelo menos um período de dez anos antes de sua morte. Isso na vida do Pontífice foi o caso com certeza, de acordo com o juízo unânime dos contemporâneos e dos depoimentos processuais muitas décadas anteriores da sua piedosa morte.
Pode-se sem sobre de dúvida afirmar que em Pio IX a profissão das virtudes cristãs e das virtudes sacerdotais emerja com clareza no fim do ano de 1823, quando empreende junto ao Delegado ou Núncio Apostólico S.E. Mons. Muzzi, a viagem ao Chile, na qualidade de membro da Delegação Apostólica.
E certamente destacam-se na sua vida todas as virtudes teologais e, entre as Cardinais, se evidenciam de modo extraordinário a fortitude e brandura.
(…)
Os eventos do Pontificado de Pio IX nos ajuda particularmente a compreender a diferença entre reforma, ou melhor, entre reformas e Revolução. Existem de fato as reformas, concretas e plurais, não existe a reforma no singular e com letra maiúscula, a menos que não se considere como tal a reforma protestante do século XVI, que não foi uma autentica reforma, mas uma verdadeira Revolução Religiosa.
Existe por outro lado, e foi bem descrita e definida, a Revolução no singular e com letra maiúscula, como fenômeno de subversão radical não de uma ordem histórica específica, mas da ordem por excelência que é aquela promovida e instaurada pela Igreja, ou seja, pela Cristandade, ou Civilização Cristã, “realização nas contingências do tempo e do espaço da única e verdadeira ordem entre os homens”. (1)
As reformas podem em certos momentos conduzir à Revolução, mas são atos de qualidade e natureza diversas dela. As reformas se situam no interior de um sistema que pretendem melhorar, a Revolução se situa fora de uma ordem que pretende destruir, a ordem social cristã. A Revolução frequentemente serve-se da máscara das reformas para formar raízes. Isso ocorre com a revolução protestante e com a revolução francesa, que pode ser considerada o Arquétipo de todas as revoluções. Se mostrasse a sua face, a sua essência ideológica niilista e destrutiva, a Revolução perderia o apoio daqueles dos quais necessita para se realizar. Pio IX viveu dramaticamente o contraste entre reformas e Revolução que se formou dentro de seu Estado.
Sobre o fato de que Pio IX abre seu Pontificado com uma série de relevantes reformas políticas, sociais e administrativas não existe dúvida.  Entre a anistia concedida aos presos e exilados políticos de 16 de Julho de 1846, primeiro ato de seu Pontificado, e a concessão do Estatuto fundamental para o governo temporal do Estado da Igreja, em 14 de Março de 1848, se situam a introdução do Comitê para a reforma da administração pública, a criação do Conselho de Estado, constituído de dois corpos legislativos eletivos, a concessão de uma ampla liberdade de imprensa, e assim por diante. Nenhum desses atos podem ser considerados revolucionários por si mesmo, no sentido de determinarem uma subversão radical do Estado Pontifício. Nas intenções do Pontífice, tais medidas eram motivadas por um sincero desejo de melhorar as condições materiais e morais dos seus Estados, aceitando as questões políticas e sociais que foram abordados por varias partes.  Postos lado a lado e instrumentalizados, eles vieram a ser parte de um processo cujo exito foi uma autêntica revolução.
O próprio Pio IX traçou uma minuciosa história desse itinerário na alocubração Quibus, quantisque (2), publicada em Gaeta em 20 de Abril de 1849. O maior âmbito desse documento não é doutrinal (como é o caso, por exemplo, da Qui pluribus e da Quanta Cura) mas histórica, por que constitui-se de uma analise retrospectiva, por assim dizer, uma interpretação autêntica dos primeiros três anos  do Pontificado do Papa Mastai, da sua eleição até a República romana. A Quibus, quantisquerepresenta realmente, como observou Spada, “…o compêndio de todos os eventos mais importantes do Pontificado (nos primeiros dois anos), a enunciação das intenções primevas e das decepções sofridas por obra de um partido que ele acreditava, com o perdão, poder corrigir e apaziguar.”(3)
O “partido” que Pio IX enfrentou no primeiro biênio do seu pontificado foi aquele que, segundo a famosa fórmula leninista, pode ser definido como dos “revolucionários profissionais”. Esses constituiam em Roma, como nos demais estados italianos, uma minoria organizada que, segundo as palavras de Luigi Salvatorelli, dirigia as agitações populares “aproveitando a oportunidade das conseções de Pio IX, ampliando e modificando seu significado, fazendo pressões para obte-las sempre novamente” (4). Isto explica como após a concessão da anistia, irrompeu em torno do nome de Pio IX, aquilo que o padre Martina definiu como “o início de um delírio coletivo de opinião pública” (5).
Nas intenções do “partido da Revolução”, as reformas pontifícias eram fases para conseguir de maneira gradual, porém rápida a substituição do Estado da Igreja por uma “República Romana” que devia se constituir como o centro promotor da republicanização de toda a península. Este plano tornou-se evidente para Pio IX após a primeira semana de 1848, como ele mesmo se recorda na Quibus quantisque, revocando os dias promulgação do Estatuto com essas palavras:
“E aqui queremos manifestar ao mundo inteiro que ao mesmo tempo aqueles homens, firmes em seu propósito de perturbar o Estado pontifício e toda a Italia, Nos propuseram que proclamassemos não uma Constituição, mas uma República, como o único refúgio e defesa da salvação seja Nossa, seja do Estado da Igreja. Temos ainda presente a memória daquela noite,  e temos ainda diante dos olhos alguns, que miseravelmente iludidos e fascinados pelos  conspiradores, não duvidaram em apadrinhar as suas causas e nos propor a proclamação da República. Isso, além de muitos outros problemas graves demonstra que aqueles que sempre pedem por novas instituições e progresso tem em mente unicamente manter vivas as agitações, a eliminar todo principio de justiça, de virtude, de honestidade, de religião, e introduzir, propagar e dominar amplamente em todos os lugares, com gravíssimo dano e ruína de toda a sociedade humana, o horrivel e fatalíssimo sistema socialista, ou até mesmo o Comunismo, contrario principalmente ao direito e a propria razão natural.” (6)
Este passo é de grande importância por que nos ajuda a iluminar a celebrada alocubração Non Semel de 29 de Abril de 1848 (7) com a qual Pio IX, recusando-se a liderar a guerra contra a Áustria, rompe definitivamente com o partido da Revolução.
Muitos acreditam que a principal razão da “transformação” de Pio IX fosse o temor de um cisma na Igreja Católica austríaca, controlados como possível pelo Nuncio de Vienna Viale Prelà, depois do início da guerra contra a Austria, iniciada por Carlo Alberto em 23 de Março de 1848, com a participação de voluntários e milicias pontifícias regulares. A hipótese não é desprovida de fundamento e é explicitamente evocada pelo próprio Pio IX na sua alocubração, mas não é decisiva (Cfr. Roberto de Mattei – Pio IX, Piemme 2000. E também: R. de Mattei – Prolusione al Convegno della Fondazione “Cajetanus” – 23 set. 2000, Milão).
A interpretação de certos atos de Pio IX é muito mais profunda, racional e convincente. (…)
Se nenhum cristão pode jamais ser um revolucionário por que a destruição da ordem presente, ainda que seja insatisfatória, requer derramamento de sangue, guerras e lutas sem fim, mais ainda um sacerdote ou um bispo devem se empenhar em enfrentarem todas as formas de contraposição sanguinária.
Por que a lei fundamental da fé cristã é a profissão e a prática do amor.
Nisso e por isto Pio IX apareceu e foi irremovível.  Discípulo heróico e fiel de seu Mestre e aceitou com infinita paciência a solidão, a incompreensão, o deserto da aula, o martírio do coração.
Mesmo em idade avançada continuou a apontar ao mundo, como Vigário de Cristo, o amor e o caminho da paz.
Introduz assim o Pontificado Romano e a Igreja Católica na época moderna, interpretando para essa, aquelas exigências de fraternidade, de solidariedade e de paz que parecem as únicas estradas praticaveis pela Igreja e pelo mundo.
Notas:
(1) Plinio Corrêa de Oliveira, Rivoluzione e Contro-Rivoluzione, Cristianità, Piacenza 1978, p. 94.
(2) Cfr. il testo integrale, in versione italiana, della allocuzione Quibus, quantisque, in Ugo Bellocchi Tutte le encicliche e i principali documenti pontifici emanati dal 1740, vol. IV, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 1995, pp. 57-71.
(3) Giuseppe Spada, Storia della Rivoluzione di Roma dal 1° giugno 1846 al 15 luglio 1848, Firenze 1868-69, vol. III, p. 3879.
(4) Luigi Salvatorelli, Pio IX e il Risorgimento, in Spiriti e figure del Risorgimento, Le Monnier, Firenze, 1961, pp. 253-257.
(5) Giacomo Martina s.j., Pio IX, vol. I, Gregoriana, Roma 1974, p. 101.
(6) Pp. 60-61.
(7) Pio IX, Allocuzione Non semel del 29 aprile 1848 in U. Bellocchi, pp. 44-48.

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PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

O Beato Pio IX: O Homem de Deus e da Igreja, 2014, trad. br. por Italo Lorenzon, Rio Claro, SP, Brasil, jan. 2014, em “http://italolorenzon.blogspot.com.br/2014/01/monsenhor-carlo-liberati-o-beato-pio-ix.html”.

de: “Il beato Pio IX: l´uomo di Dio e della Chiesa”, por Monsenhor Carlo Liberati em L´Osservatore Romano, Segunda-Terça, 3-4 de Setembro de 2001, “http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=82”.

CONTATO:
allan.santosbr@gmail.com

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