Quidni fratres in unum?

Breve resumo histórico

Na minha pátria amada, poucos sabem sequer o que aconteceu no curto período de vinte anos de resistência de alguns padres e leigos Católicos frente às novidades que sobrevieram assolando todo o território nacional como um tornado. E, longe de querer escrever um artigo histórico sobre isso, quero apenas fazer o leitor despertar do que chamo de sonho tupiniquim: este torpor odioso contra qualquer movimento tradicional, por parte daqueles que, há alguns anos ou (vergonhosamente) meses, sequer sabiam que existia a Missa Tridentina. Este torpor repulsivo à Tradição Católica, embora não seja exclusividade Brasileira, ocorre, no Brasil, de maneira peculiar e é sobre isso que quero falar.

Antes de 2002, quando a então Associação Sacerdotal São João Maria Vianney (ASSJMV) ainda não se havia convertido em Administração Apostólica São João Maria Vianney, as únicas identidades conhecidas como genuinamente tradicionalistas eram a TFP e os já mencionados Padres de Campos, tendo à frente seu Bispo Dom Antonio de Castro Mayer, e, claro, alguns outros bispos mais ou menos simpatizantes da resistência contra qualquer manifestação modernista, tais como Dom Geraldo de Proença Sigaud e similares. Fora do círculo destes grupos, a Missa Tridentina era tida como um apego exagerado e retrógrado, sobretudo depois das Sagrações Episcopais que ocorreram em 1988 em Écone, Suíça, quando Mons. Lefebvre e Dom Castro Mayer incorreram na pena de excomunhão latae sententiae por sagrarem bispos sem o mandato pontifício. (Curiosamente, outro bispo fizera o mesmo, sem cair em excomunhão, e o sagrado seria, ainda, nomeado cardeal [!]: o que acredito ser fruto de bons contatos. Afinal, o que uma amizade com quem tem poder não pode fazer? Mas, não é este meu objeto de discussão.)

Desde que conheci o movimento tradicionalista americano, por meio da FSSP (Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, que iniciou com sacerdotes que não queriam as Sagrações de 1988, e, sob o Pontificado de JPII, receberam Direito Pontifício), vi que a situação era outra. Semanas antes de minha chegada aos EUA, em Abril de 2012, um sacerdote da SSPX (Sociedade de São Pio X, no Brasil conhecida como Fraternidade Sacerdotal de São Pio X – FSSPX) havia cumprido com seu ofício divino rezando o breviarium romanum numa paróquia da FSSP: não encontrando nenhuma paróquia aberta e sabendo que ali havia um sacerdote tradicionalista, pediu e amigavelmente foi recebido pelo pároco. Isso ocorreu na Paróquia de São Miguel Arcanjo, cidade de Scranton, Pensilvânia.

Este tipo de atitude eu nunca vi no Brasil durante o curto período de tempo que fui seminarista, e tampouco ouvi algo semelhante sequer da boca de sacerdotes, como o Pe. David Francisquini, o qual jamais foi bem recebido pela ASSJMV, pelo simples fato de ser um sacerdote amigo da TFP (a qual — desculpem-me a falta de ordem — era contra as Sagrações de 1988).

O CVII e a Missa Nova

Existem vários grupos tradicionalistas no mundo, com diferentes estratégias e, até mesmo, princípios; uns defendendo o CVII e a Missa Nova, outros rejeitando-os veemente e abertamente ou não.

FSSP (que não celebra a Missa Nova) foi obrigada a aceitar o CVII, sem o poder criticar abertamente, mas não o quer ver perto de seus seminaristas, padres e leigos.

SSPX (ou FSSPX) combate explicitamente o CVII e a Missa Nova, lutando contra ambos abertamente e opondo-se às novidades deles provenientes; recusa-se a ter uma regularização canônica, perdida já anos antes das Sagrações de 1988. Sem cair em qualquer erro doutrinal ou sequer cisma, é tão Católica quanto qualquer boa ordem que guarde o que recebeu dos Apóstolos: a Fé Católica. Trabalhou auxiliando os Padres de Campos até que estes resolveram separar-se em 2002, iniciando a Administração Apostólica São João Maria Vianney, com a Sagração do então Pe. Fernando Arêas Rifan.

A Adminstração Apostólica celebra hoje a Missa Nova que outrora expurgava, a começar por seu bispo, Dom Rifan. Assim como eles, são igualmente birritualistas o Mosteiro de Barroux, na França, e os padres de São João Câncio, aqui nos EUA.

A FSSP teve, em meados de 2000, um grupo de padres progressistas que queriam a Missa Nova num momento turbulento de perseguição vinda de alguns cardeais e bispos. Teve um superior eleito não pelo conselho de padres, mas imposto por Roma. Passado este momento difícil, sequer a Missa de Quinta-Feira Santa celebram segundo o Novus Ordo, o que não ocorre com o Instituto de CRISTO Rei, obrigado a celebrar a Missa Nova neste dia.

Depois, em 8 de setembro de 2006, veio o Instituto do Bom Pastor, que está na mesma condição e postura da FSSP, mas com mais liberdade de falar das novidades do CVII e de tecer críticas à Missa Nova. Não tem, porém, Direito Pontifício, tendo que atuar sempre com receio de ser extirpado da noite para o dia.

Vale a pena lançar anátemas uns contra outros?

Muitas são as comunidades e diferentes são os casos em que vivem ou a postura que decidiram ter. Mas uma coisa há em comum: o modernismo é o grande inimigo. E todas, perfeitamente ou não, querem extirpar este mal que é, como disse São Pio X, a síntese de todas as heresias.

Tentando encontrar uma resposta à pergunta que faço a mim mesmo, digo que não vale a pena ficar lançando anátemas, inventando mentiras e exagerando defeitos, pondo-se uns contra os outros. O que receberemos em troca senão o crescimento dos modernistas?

Sou sim, como leigo que possui liberdade de ajuizar sobre uma questão não definida pelo Magistério, defensor da tese do Pe. Álvaro Calderón da SSPX, o qual afirma que as novidades trazidas pelo CVII não possuem qualquer grau de autoridade, sequer ao modo ordinário, devido ao defeito da intenção de impor uma novidade doutrinal que comprometesse o magistério infalível, implantando o diálogo entre a autoridade e o Povo de DEUS ao modo democrático. O que não me impede de viver por defender a FSSP ou ir  a uma Missa celebrada pelos Padres de Campos. Igualmente não me impede de ser um dos organizadores do evento sobre o CVII realizado pelo IPCO no Rio de Janeiro.

No Brasil não temos sequer uma revista tradicionalista que fale de maneira exclusiva da Missa Tradicional e de seus eventos similares. Não conseguimos sequer apoiar as peregrinações piedosas de grupos que, por motivos ou outros, discordamos. A Peregrinação ao CRISTO Redentor, iniciada por mim e meus amigos, sofreu boicote por dois anos seguidos. A peregrinação da SSPX à Aparecida do Norte, que até Igreja consegue para celebrar a Missa, só é mencionada pelos blogs e sites da mesma SSPX, nada mais.

Fratres in unum

Meus amigos comigo gravaram dois simples vídeos ao modo de bate-papo informal, e recebi “refutação” ao modo de tese [?], ofensas pessoais quanto ao meu passado por ter mudado de seminário duas vezes [?]. Ofensas pessoais, igualmente recebeu a minha namorada, a qual ainda está conhecendo a Fé Católica e que se encontra, ainda, em estado de cisma material (visto que nasceu na Rússia de lá só saiu para estudar na China e me visitar no Brasil). Por que não se contentar em atacar-me?

Defendo e defenderei que as injustiças sofridas pela SSPX em todo o mundo — como hoje sofrem os Frades da Imaculada e o IBP, como sofreu também a FSSP — são razões suficientes para se esperar do Papa, e de mais ninguém, qualquer resposta definitiva, sem indicações fantasmas como as de Bento XVI, que dizia ter a SSPX problemas doutrinais, sem dizer quais sejam e dialogando à maneira escondida acerca algo que deve ser imposto e ensinado por cima dos telhados.

Não vale a pena ficarmos destruindo matrimônios, moças e rapazes, os quais querem viver dos sacramentos e cumprir os mandamentos, tais como cridos há pouco mais de cinquenta anos, sem as desastrosas novidades intocáveis como o ecumenismoliberdade religiosa e afins.

Ganha-se algo maldizendo, ou mesmo caluniando, pessoas que apenas querem viver a Fé Católica de sempre? O que vocês ganham anatematizando os grupos sem regularização canônica, enquanto os Papas querem que o espírito de Assis permaneça com a Igreja?

Enfim, só vejo como inútil o ódio contra os movimentos tradicionais. E, por isso, permanecerei lutando pela SSPX, FSSP, IBP, ICRSP, FFI, TFP e outros. Pois, como quero ser um excelente pai de família, quero ver meus filhos tão puros e belos como os que vejo nestas comunidades. Sonho com o dia que verei minha prole amando a Tradição Católica e espero que, depois que olharem para meu túmulo, digam: papai não se deixou levar pela briga entre os grupos, pois ele entendia que ser Católico é muito mais que ficar preso a um grupo específico.

__________________________
PARA CITAR ESTA POSTAGEM:
Quidni fratres in unum?, 2014, Allan L. Dos Santos, Ferndale, MI, EUA, jan. 2014.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
allan.santosbr@gmail.com

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4 thoughts on “Quidni fratres in unum?

  1. Caríssimo Allan,
    Muito bom dia e

    Salve Maria.

    Não sei de vossos problemas com o Frates mas, se os houver ( como parece ), que sejam resolvidos o mais rápido possível.

    Sem qualquer espécie de ‘tradiecumenismo’ ( o que me parece estar ao gosto moderno ), mas, ao contrário, procurando o consenso em torno da Verdade de Deus, da Sã Doutrina da Igreja de Sempre, digo contigo: somos todos Católicos, Apostólicos e Romanos, antes de tudo, antes dos grupos.

    Somos o que somos diante de Deus, e nada mais.

    Se o exército não se alinhar em torno da oração, do estudo e do trabalho pela causa de Deus, jamais estará posto em ordem para a batalha… a nossa desunião só favorece o inimigo.

    Deus o abençoe por vosso equilíbrio e lucidez, por Maria.

    Um grande abraço e,
    Conforme o exemplo de São José,
    Nos SS Corações de Jesus e Maria.

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    • Nobre Alexandre, confesso que ri quando li seu comentário, não pelo seu texto preocupado, mas porque sou amiguíssimo do editor do site Fratres in Unum!

      A expressão por mim utilizada em latim, nenhuma referência faz ao blog, que é totalmente tradicional, mas aos “brigões de plantão” que preferem ver um irmão na fé numa verdadeira desgraça.

      Ademais, concordo com tudo o que nobre diz.

      E grato pelas palavras de elogio.

      Abraço!

      LAVS DEO!

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  2. ‘Gato escaldado tem medo de agua fria’: de tanto lidar com gente intrigante e desfazer intrigas, acabamos ficando meio paranoicos ( como se o termo em latim utilizado fosse alguma espécie de indireta ), rsrs…

    É a realidade do Catolicismo que vivemos.

    Igualmente, um grande abraço,
    Conforme o exemplo de S José,
    Nos Corações de Jesus e Maria.

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  3. Allan, o Cardeal Josyf Slipyj, Arcebispo-maior dos católicos ucranianos, por você mencionado, e que ordenou sem mandato apostólico um bispo que depois foi seu sucessor (Cardeal Husar), o fez em razão de uma diferença do direito canônico oriental para o latino. No direito oriental, é direito do Patriarca, enquanto chefe de uma Igreja sui iuris, ordenar novos bispos sem necessidade de mandato apostólico. Portanto, o Cardeal Slipyj não poderia ser excomungado por este motivo, ainda que se questione a regularidade do procedimento, pois ele ordenou um súdito seu, mas em território italiano.
    A situação é distinta daquela de bispos latinos, pois o Papa, além de chefe da Igreja Universal, é o chefe (“Patriarca”) da Igreja sui iuris latina. E é o Patriarca da Igreja sui iuris que nomeia os bispos. Ora, um bispo latino, subordinado que está ao Papa também enquanto este último é chefe da Igreja Latina, não pode ordenar outro bispo sem o mandato do seu “Patriarca”.
    Portanto, a comparação feita entre o caso do Cardeal Slipyj e o caso de D. Lefevbre não é adequada. A situação de D. Lefevbre somente pode ser explicada, para os que entendem que sua atitude foi legítima, pelo recurso ao estado de necessidade. A siutação do Cardeal Slipyj se explica com uma simples remissão ao direito oriental, que permite ao Patriarca ordenar bispos sem mandato do Papa.

    Um abraço,

    Vítor

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