Budismo e Cristianismo


Nota do blog do Prof. Angueth – É impressionante perceber a profundidade de um texto de jornal da década de 20 do século passado na Inglaterra. Se compararmos com os jornais de hoje no Brasil, podemos perceber que nossa pobreza intelectual é desoladora. Pretendo postar mais textos de Chesterton, publicados em jornais ingleses do início do século XX.
G. K. Chesterton
G.K. Chesterton
Publicado no Illustrated London News, 2 de março de 1929
Um distinto cavalheiro militar anunciou recentemente neste jornal que um budista chinês visitará proximamente a Inglaterra com a firme intenção de, finalmente, abolir a guerra. Ele, o cavalheiro militar, explicou que Budismo é uma palavra que significa Iluminação e que somente ela pode abolir a guerra. Isso parece, em si mesmo, um simples processo de razão e reforma. Mas, eu não seria movido a criticar uma intenção tão nobre, se o missivista não tivesse recorrido ao fatigante e velho truque de comparar a condição de iluminação do Budismo com a situação de ignorância dos Cristãos. É verdade que, como muitos homens na atual confusão mental, ele, desnecessariamente, se desnorteou usando a mesma palavra em dois sentidos e em ambos os lados, além de colocar o Cristianismo contra si próprio. Budismo é Cristianismo, o Budismo é melhor do que o Cristianismo e o Cristianismo nunca será ele mesmo até que ele seja a tal ponto iluminado de forma a se tornar diferente. Mas, essa mera logomaquia não altera o essencial da opinião que muitos de nós temos visto, de uma forma ou de outra, há muito tempo. A chave da situação é que o crítico militar diz que “os Cristãos fracassaram” em abolir a guerra e que isso é devido ao lamentável fato que eles não são iluminados, ou, em outras palavras, ao curioso fato de que os Cristãos não são Budistas.
Para começar, um europeu normal não precisa nutrir nenhum sentimento negativo para com os asiáticos para sentir um moderado ressentimento ou mesmo revolta sobre esse tipo de coisa. Se o cavalheiro chinês está vindo com um infalível talismã para terminar toda a luta na Inglaterra, não deveria ser sugerido que ele ficasse onde está e acabasse com todas as lutas na China? Lutas e discórdias nunca foram hábitos apenas cristãos, nem as guerras totalmente desconhecidas fora da Cristandade. Pode ser que eremitas e homens santos, no ocidente e no oriente, tenham, individualmente, abandonado a guerra. Mas, não estamos falando sobre abandonar a guerra, mas sobre abolir a guerra. Em qual sentido os Cristãos fracassaram e os Budistas não? Em que aspecto o Budismo, que pode contemplar as lutas asiáticas por quatro mil anos, é mais eficiente do que o Cristianismo, que pode meramente olhar para dois mil. Eu não considero que isso desacredite nem o Budismo nem o Cristianismo. Mas, se barulhentos palestrantes e jornais, dez vezes por semana, nos contam que o Cristianismo fracassou por não ter sido capaz de acabar com a guerra, o que diríamos das chances do cavalheiro chinês fazer isso na Europa com uma nova religião, quando ele não conseguiu fazê-lo na Ásia com uma velha. De passagem, devo dizer que o apelo Cristão para a paz tem sido, freqüentemente, mais próximo da prática política do que a iluminação metafísica do Budismo. Sem fazer uma aposta muito alta nas chances de ambos, eu diria que seria algo remotamente mais provável um santo franciscano influenciar a política de um Ricardo Coração de Leão do que um monge budista (com sua mente embebida de Nirvana), parar uma marcha de um Genghis Khan. Mas, essa é uma conjectura menor e não tem importância. O mais importante é que, se o Cristianismo for acusado de fracasso por não ter abolido a guerra, o Budismo dificilmente poderá ser considerado uma garantia sólida de sucesso nesse mister. A verdade é, claramente, que toda essa conversa de abolir isso ou aquilo, dentre as muitas incompreensões e tentações da humanidade, mostra uma essencial ignorância sobre a natureza mesma da humanidade. Com isso não se deixa espaço para as centenas de inconsistências, dilemas, reparações desesperadas e ao devotamento imperfeito e parcial dos homens. Um homem pode ser, em todos os aspectos, um homem bom e um crente verdadeiro e, ainda assim, errar. De fato, o cavalheiro militar que escreveu a carta sobre o Budismo e a guerra, não precisa procurar muito por um tal exemplo. Por seus próprios padrões, ele é inconsistente em ser um soldado Cristão e ainda mais inconsistente em ser um soldado Budista.
Tomei esse texto de jornal diário porque, todos sabemos, a religião de nossos pais está sendo permanentemente apedrejada por tais textos. E mesmo independentemente de qualquer lealdade à minha fé, tenho lealdade suficiente a meus pais e à reputação e os feitos do homem Inglês e Europeu para sentir que é tempo para que tais insultos sejam tratados como eles merecem. Não é nenhuma desgraça para o Cristianismo, não é nenhuma desgraça para alguma grande religião, que seus conselhos de perfeição não tenham feito uma só pessoa perfeita. Se depois de séculos, uma disparidade é ainda encontrada entre seus ideais e seus seguidores, isso somente significa que essa religião ainda mantém vivo o ideal e que seus seguidores ainda precisam dele. Mas, isso não deve surpreender um filósofo em toda a sua sabedoria. De fato, seria muito mais razoável usar esse insulto contra o sem religião que o usa, do que contra o religioso, contra o qual ele é usado. É exatamente o pessoal que mais faz uso desse insulto, os secularistas e humanitários, que promete milênios de paz e prosperidade. São os novelistas e ensaístas da escola cética que anunciam, periodicamente, a Guerra que Acabará com a Guerra, ou o Estado Mundial que imporá a paz universal (1). O Cristianismo nunca prometeu que imporia a paz universal. Ele tinha um respeito excessivo à liberdade individual. Aos teóricos céticos é permitida a criação de uma Utopia atrás da outra, sem serem repreendidos quando elas são contrariadas pelos fatos, ou uma pela outra. O infeliz crente é considerado o único responsável, e tem de pagar, por quebrar uma promessa que nunca fez.
Sem dúvida, esse tipo de sarcasmo é tão injusto ao Budismo quanto ao Cristianismo. O ideal de Buda pode ainda ser o melhor para os homens, mesmo que milhões de homens continuem a preferir algo inferior. Se o ideal de Buda é melhor para os homens é uma questão muito mais ampla, que não pode ser, devidamente, desenvolvida aqui (2). De fato, há muita opinião divergente sobre o que era, realmente, o ideal de Buda, especialmente, entre os Budistas. Esse é, também, um insulto vulgarmente usado contra os seguidores de Cristo, que pode muito bem ser usado contra os seguidores de Buda. O misterioso cavalheiro chinês pode impor a todas as nações da terra a mesma definição de paz e, ainda, ter uma tarefa delicada quando tentar impor a todos os Teosofistas a mesma definição de Teosofia. Mas, pelo menos alguns dos discípulos do grande Gautama interpretam seu ideal, tanto quanto posso entender, como o da absoluta liberação de todo o desejo ou esforço, ou de tudo que os seres humanos chamam de esperança. Nesse sentido, a filosofia apenas significará o abandono das armas, porque significará o abandono de quase tudo. Ela não desencoraja a guerra mais do que o trabalho. Ela não desencoraja o trabalho mais do que o prazer. Ela diria ao guerreiro que o desapontamento o espera quando ele se tornar o conquistador e que não vale a pena vencer a sua guerra. Mas, também e presumivelmente, dirá ao amante que seu amor não vale a pena ser conquistado e que a rosa murchará tanto quanto o laurel. Ela dirá, provavelmente, ao poeta que seu poema não vale a pena ser escrito, que pode (em certos casos, cuja identificação é desnecessária) ser, de fato, o caso. Mas, ela, dificilmente, pode ser considerada uma filosofia inspiradora da criação de bons, mais do que da a criação de maus poemas. Pode ser que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é ameaçado pelo Budismo. Pode ser, também, que essas pessoas estejam enganadas sobre o que é prometido pelo Cristianismo. Espero que essa tenha sido a última vez que ouvimos algo de pessoas confusas, descontentes e mundanas, que amaldiçoam a Igreja por não salvar o mundo que não quer ser salvo e que estão prontas a aceitar, contra ela, qualquer teoria – mesmo a louca teoria pela qual o mundo seria destruído.
1. Qualquer semelhança com a ONU terá sido mera profecia.
2. Para uma discussão mais profunda sobre o tema, ver o Capítulo VII deOrtodoxia, de G.K. Chesterton, Editora LTR, São Paulo, 2001.

Chesterton: O padre Brown vira papa


Paolo Gulisano escreve ficção com o herói de Chesterton
ROMA, domingo, 3 de julho de 2011 (ZENIT.org) – Há pouco menos de um século, o gênio literato de G. K. Chesterton inventou seu melhor personagem, o padre Brown¹, sacerdote detetive que, junto com seu colega, o ladrão convertido Flambeau, fascinou gerações de leitores. Chesterton abandonou o personagem na Primeira Guerra Mundial para se dedicar a outras obras.

Paolo Gulisano, biógrafo de Chesterton, vice-presidente da Sociedade Chestertoniana Italiana, é um dos maiores peritos em literatura inglesa moderna. Escreveu sobre Tolkien, Lewis, Wilde. E é autor de uma ficção histórica que muda o conclave de 1939, no qual Eugenio Pacelli foi eleito papa, para eleger em seu lugar um tal cardeal Brown: ninguém menos que o padre Brown da literatura.

O Destino do Padre Brown abrange o período de 1917, quando Chesterton abandonou o personagem, até o conclave definitivo.

Encontramos o padre Brown no fronte bélico italiano, em Caporetto, entre Cadorna e o agente secreto Kipling; também o vemos na Irlanda revolucionária de Michael Collins, na Roma da Marcha de Mussolini e na Turim de Frassati com Dom Sturzo.

Um padre Brown que se torna primeiro monsenhor e depois cardeal, amigo e colega de Eugenio Pacelli, a serviço de Pio XI e de um misterioso cardeal anglo-espanhol, Rafael Merry del Val, que o usa em missões secretas para o Vaticano.

Além dos personagens históricos, entre os quais estão Churchill e Tolkien, encontramos no livro um Flambeu que se mudou para a Espanha, com um filho que, segundo a imaginação de Gulisano, se ordena padre e mais tarde vira secretário do cardeal Brown.

Encontramos os amigos de Chesterton, como Beloc e o padre McNabb, e personagens literários como Basil Grant e Patrick Dalroy.

É uma novela, enfim, onde a história verdadeira do século XX se entrelaça com a ficção e puxa o leitor para uma trama divertida e emocionante.

Para saber mais, ZENIT entrevistou Paolo Gulisano.

– Depois de tantos anos como ensaísta, uma ficção particular…

– Gulisano: Pois é. Eu optei pela novela de ficção, que é um gênero literário pouco praticado na Itália, mas muito difundido no mundo anglo-saxônico. Basta você pensar no Senhor do Mundo, de Robert Hugh Benson. Eu quis refazer a história da primeira metade do século XX, entre as duas guerras mundiais, através de um personagem excepcional, que é o padre Brown, de Chesterton. Agora ele vive novas aventuras, não mais como o “padre detetive”, mas como um monsenhor que está a serviço mais ou menos secreto de Sua Santidade.

– Um padre Brown que está fazendo cem anos…

– Gulisano: Exatamente: faz cem anos que o gênio de Chesterton criou o personagem do padre Brown. Chesterton é um dos autores mais importantes da cultura inglesa e europeia do século XX, um ensaísta brilhante e um jornalista que já encantava os leitores ingleses fazia uma década, com páginas brilhantes, e que deu vida a um personagem original, seu personagem mais famoso.

– Qual é o segredo do sucesso das histórias do padre Brown?

– Gulisano: O padre católico foi criado antes que Chesterton terminasse o seu caminho de conversão, que se aconteceu em 1922. Mas o personagem já trabalhava para defender a Verdade na caridade. Chesterton mostrou como testemunhar a fé numa sociedade indiferente, não só a católica, mas toda a sociedade cristã. Os relatos do padre Brown são uma homenagem à Verdade. Eu retomo esse personagem no meio de figuras históricas, como o cardeal Merry del Val, que na minha novela vira o grande mentor do padre inglês. E Eugenio Pacelli, e o papa Pio XI. Fiz um padre Brown que é um investigador da Verdade.

– O seu padre Brown, que é monsenhor e depois cardeal, chega até o conclave de 1939 e é eleito papa. Uma figura valente, que enfrenta os dramas da Primeira Guerra Mundial, que vê nascer as ditaduras, que as combate, que vive diversas aventuras apaixonantes. Mas como padre, como pastor de almas, o que é que ele diz para os leitores?

– Gulisano: Ele diz que o cristianismo no transcurso da história sempre ressuscita, porque está fundado num Deus que conhece o caminho para sair do sepulcro. As civilizações do mundo podem passar, entre dramas e tragédias, emoções e desilusões, mas as palavras de Cristo não passam. A tarefa do padre Brown, nas ruas de Roma e na sede pontifícia, é fazer as palavras de Cristo ressoarem, neste mundo que as rejeita. Nós temos que ter esperança: o pessimismo não é próprio dos seres cansados do mal, mas dos seres cansados do bem.

(Antonio Gaspari)
____
¹ Aproveitamos e deixamos a dica do excelente livro A Inocência do Pe. Brown:

"A dificuldade em explicar "Por que sou católico?" é que há 10 mil razões para isso, e todas se resumindo a uma única: o Catolicismo é verdadeiro". G. K. Chesterton


Um “Pai da Igreja, forçado pela necessidade dos tempos e do ministério a pregar num estilo burlesco às multidões dos cétigos e dos gaudérios”, um novo “Abram de Domenico Cavalca, que enfiou um capuz sobre a armadura e ataviou-se com belas vestes para entrar no local de perdição a fim de converter a sobrinha”, um “bispo vestido de palhaço” (E. Cecchi). Um “gênio colossal”, o “Chesterbelloc” (G. B. Shaw), “tão alegre que se poderia quase ficar tentado a acreditar que ele de fato encontrou Deus” (F. Kafka), “um presente oferecido à comunidade católica (e toda a humanidade) diretamente por Deus” (Cardeal G. Biffi), “um dos melhores que existem” (E. Hemingway), “talvez nenhum autor me tenha proporcionado tantas horas felizes como Chesterton” (J. L. Borges), “Crianchesterton” (Pe. J. O’Connor), “defensor fidei” (Papa Pio XI).

Partindo das mil maneiras utilizadas para definir esse homem, logo perceberemos que estamos diante de um gênio, um homem excepcional sob todos os pontos de vista. E Gilbert Keith Chesterton foi excepcional de verdade. EM sua Autobiography [Autobiografia] ele afirma, mostrando toda sua personalidade amável e polêmica, humorística e cheia de alegria:


“Curvando-me com certa credulidade, como costumo fazer, ante a mera autoridade e a tradição dos meus antepassados, fruindo superticiosamente uma história que, quando acnteceu, não me foi possível controlar como experiência pessoal, tenho a mais convicta opinião de ter nascido no dia 29 de maio de 1874, em Campden Hill, Kensington, e de ter sido batizado, segundo as fórmulas da Igreja Anglicana, na igrejinha de São Jorge, situada na frente da torre da caixa d’água que domina aquela paisagem elevada.”


Mas de onde provêm essa personalidade tão vivaz e essa alegria profunda e contagiante que deixaram nos leitores parca tão forte? A pergunta se faz óbvia diante de homens de tal quilate. Tudo leva a pensar que se trata de um presente, como diz o cardeal Biffi, um presente inesperado. É como uma semente caída numa terra que não esperava outra coisa. Uma feliz intuição de liberdade da razão e otimismo em relação à vida; germina num contexto familiar afetuoso e receptivo ao belo e ao bom, cresce primeiro nas margens e depois no lugar onde tudo isso se sente em casa, a Igreja. Assim nasce um autêntico gênio do pensamento e da vida. Chesterton.


Nasce numa família não muito comum: o pai de Edward trabalha no setor imobiliário, sócio com seu irmão Sidney de uma agência que existe até hoje; sereno e despreocupado, transmite aos filhos o amor pela arte e literatura, o gosto pelo fantástico e uma desenfreada paixão por brinquedos, em primeiro lugar pelo teatro de marionetes. “Inglês no grau máximo”, uma espécie de Pickwick, dirá Gilbert, liberal e unitarista, mais propenso às discussões que ao fervor religioso. A mãe é Marie Louise Grosjean, cujo pai era suiõ (pregador leigo calvinista) e a mãe escocesa. A avó escocesa é que vai abrir para Gilbert as portas do “ensolarado país das fábulas”, para o qual ele tecerá loas pela primeira vez em The Defendant [O réu] e ao qual atribuirá um fundamental valor moral e teórico em Ortodoxia. Terá ao seu lado outro irmão, Cecil, ele também jornalista, nas batalhas jornalísticas e culturais.


Sua infância é serena, cheia de brinquedos e de afeto; não brilha de modo especial nos estudos e no fim da escola superior precisa acertar as contas com a solidão e a depressão: desorientado diante da vida e do futuro, tenta a universidade sem obter nenhum êxito, em seguida uma escola de arte (será também bom pintor e desenhista); perde o contato com seus caros amigos do Junior Debating Club, todos na universidade, e fecha o jornal que juntos haviam fundado, The Debater; praticao espiritismo, do que se arrependerá amargamente.


Essa é uma confusão desgastante para um homem fundamentalmente bom e inocente como ele é e será a vida inteira. Mas no fim sai de modo milagroso (essa é a expressão mais adequada) desse túnel aparentemente sem saída (no qual acalentou, como ele mesmo admite, até a ideia mais insana), graças à leitura do livro bíblico de Jó. A esse respeito contará depois numa carta a um amigo bastante estranho, uma experiência mística. “Tenho certeza de que cada coisa é o que é porque assim deve ser. Agora a visão está desvanecendo na vida do dia a dia e me sinto feliz por isso. É embaraçoso falar com Deus cara a cara, como se fala com um amigo.”


A partir de então, a partir da inesperada granítica certeza (ou melhor, confirmação depois da prova) da intrínseca positividade da existência, envereda por uma vida totalmente nova, sentindo um desejo incontrolável de dizer ao mundo que a vida é bela, que estamos aqui e poderíamos não estar e que se pode preservar o dom inestimável da inocência sem renunciar a nada da vida. São os motivos que fundamentam o pensamento de Chesterton, e deles nascerá toda a sua vasta reflexão.


Isso é o que alegrará todos os anos de sua vida, literalmente dedicados à máxima difusão da feliz descoberta, sem poupar energias. São intuições naturais, que percorrem sem trégua sua obra inteira, como um rio subterrâneo que aparece e desaparece, mas que sabemos estar sempre por trás de cada linha, cada palavra.

Descobre seu talento de escritor e começa a colaborar com muitos jornais; consegue em pouco tempo um sucesso imprevisto. Cresce cada vez mais o número de pessoas que se perguntam quem será esse “GKC” que assina aqueles artigos tão originais, bem escritos, cheios de inelutáveis paradoxos e bom senso. Os primeiros artigos resultam no volume The Defendant [O réu] de 1901 (uma defesa do indefensável, desde as pastorinhas de porcelana aos thrillers de dez tostões…), e depois de alguns textos poéticos ele, ele assina em 1904 seu primeiro romance, The Napoleon of Notting Hill [O Napoleão de Notting Hill], narrativa surreal onde encontramos o seu amor pelas pequenas pátrias que o caracterizará por toda a vida, a coragem de lutar pela própria casa e o próprio lar, princípio de toda ousadia, e os ecos da guerra anglo-bôer. Paradoxalmente Chesterton ganha notoriedade opondo-se ao imperialismo britânico, considerado pelos ingleses mais do que uma lei religiosa, e colocando-se na defesa dos camponeses bôres num país em que isso é comparável a uma blasfêmia e alegremente provocando, junto com Hilaire Belloc, seu amigo de toda a vida, até mais do que algum materialismo safanão por essa causa.


Desse ponto em diante temos um homem novo que delineará uma imagem absolutamente inédita do escritor, brilhante e apaixonado amante da verdade e do bom humor, jamais separados.


Não deixa de ser verdade o que dele disse Emilio Cecchi: é um bispo vestido de palhaço, alguém obrigado a pintar o nariz de verde a fim de atrair nosso olhar para a verdade. Ele se faz paladino da vida normal, da família, da ordem contra o caos, do senso comum. Mostra ao mundo com o entusiasmo de um apóstolo e a alegria de uma criança que há mais aventura na vida “normal” do que em qualquer romance de aventura, mesmo numa família onde nenhuma “aventura” acontece.


O padre Ian Boyd, presidente do Chesterton Institute for Faith and Culture, sublinha que “a exuberância e o modo divertido que caracterizavam o jovem Chesterton foram elementos decisivos na criação de uma imagem pública. Ele cheava a ser citao por quem nunca havia lido nenhuma de suas obras. As suas frases tornaram-se rapidamente proverbiais”. Sua fama de arguto debatedor rapidamente se faz enorme. Ele é “a delícia dos cartunistas” (Ian Boyd) por seu perfil inconfundível (ele, que na adolescência era um sujeito alto e enxuto, com o passar dos anos torna-se um gigante com mais de um metro e noventa de altura pesando cento e trinta quilos (ou mais), que alimenta histórias e lendas de todos os tipos (uma delas é a seguinte: Chesterton se levantava no ônibus e de repente havia espaço para três mulheres se sentassem…).


Em 1905, escreve Heretics [Heréticos], o ensaio mostra, na crítica das idéias e das figuras em voga em seu tempo, seu distanciamento pessoal em relação ao “pensamento moderno” segundo qual “a verdade cósmica tem um peso tão insignificante que nada do que alguém diga pode ter importância alguma”. E mais adiante: “Em volta de qualquer inocente mesa de chá, todos os dias acontece de ouvir-se alguém sentenciar: ‘A vida ao vale a pena’. E ninguém acha que essa consideração difere desta outra: ‘Hoje o tempo está bom’; ninguém pensa que isso exerça algum efeito nos homens e no mundo.” Toda a sua vida será uma alegre luta contra esse mal de viver; dirá de fato em outra passagem: “Desentocar e combater o mal é o princípio de todas as alegrias” Só assim é possível compreender Chesterton e seus vibrantes personagens.


Escreve num ritmo torrencial artigos sobre qualquer assunto que deve discutir (Alberto Castelli dirá que sua vida foi uma única interminável discussão), praticamente sobre tudo, aonde quer que o empurre seu elã vital milagrosamente reconquistado. Trava batalhas em qualquer campo, como, por exemplo, na polêmica antieugênica. Sua produção jornalística é imensa, um “desperdício de artes e de idéias” que “causa uma sensação quase angustiante” (Emilio Cecchi). Sua assinatura aparece, em outros, em periódicos como “Daily News”, “The Speaker” e “The Illistrated London Newis”. Tmabém publica sólidos ensaios sobre literatura enfocando R. L. Stevenson, Browning, Tennyson, Blake e outros autores, e mais adiante lança The Victorian Age in Literature (A época vitoriana na literatura), obra que muitos consideram de grande valor.


Em 1908 Chesterton atinge um momento de extraordinária clarza acerca do objetivo de sua vida obra, e dá à luz dus de duas obras-primas, mas quais tamvez seja mais vibrante e eficaz toda a lucidez recebida como dom inesperado: The Man Who Was Thursday (O homem que era Quinta-Feira) e Ortodoxia, reelaboração literária e teórica das passagens fundamentais de sua experiência humana até aquele ponto: o renascer a partir do absurdo e da redescoberta da fé cristã mediante a experiência da razão aberta à realidade. Essas obras foram com razão definidas como “autobiográficas” (Ian Boyd).


A primeira é uma espécie de romance policial metafísico – dizem empregando uma expressão feliz – com o significativo subtítulo de Um pesadelo. Obra visionária, entre o místico e o grotesco, altamente poética e simbólica, ela faz um relato muito autobiográfico da descoberta da beleza e bondade da vida que é um mistério, e a possibilidade real da felicidade para o ser humano. E um livro repleto de referencias ao Livro de Jó, ao qual Chesterton deve sua salvação. Gabriel Syme, o protagonista, e no fundo Gilbert, o homem com olhar de poeta, que descobre o ponto de fuga, presente em todas as coisas, que conduz ao Mistério, a origem de tudo. O monsenhor Ronald Knox, amigo de Chesterton e, como ele, brilhante autor de romances policiais e convertido ao catolicismo, afirma: “Trata-se de um livro extraordinário: e como se o editor Ihe houvesse pedido para escrever um romance do gênero O peregrino empregando o estilo de As aventuras do sr. Pickwick”, E a historia do homem, de cada um de nos, que depois de mil confusões de forte sabor policial (porque no fundo numa vida normal há muito mais aventura do que em qualquer romance de detetive…) descobre o segredo da vida.


Ortodoxia relata a tentativa do autor no sentido de encontrar as respostas para o mistério da vida e sua descoberta de que tudo o que ele procurava esta no Credo dos Apóstolos; e a intuição da razão que caminha assombrada e feliz rumo a fé, ocasionada pelo desafio de G. S. Street, que depois de ler sua obra Heretics (Hereges) fizera o seguinte comentário: “Com minha filosofia […] começarei a preocupar-me depois que o sr. Chesterton tiver apresentando a dele”

Chesterton, com uma comparação fulminante e engraçada — a historia de um homem que deixa a Inglaterra em seu barquinho e aporta diante do pavilhão no litoral de Brighton convencido de ter descoberto uma nova terra selvagem —, narra sua tentativa de inventar uma nova religião (e ele, portanto, o iatista* fantasioso, que vamos encontrar em outros textos) e a descoberta de que ela já foi “inventada”, e o cristianismo. Mais uma vez afirma o padre Boyd:


Chesterton acreditava que no fundo de todas as realidades mais profanas cada um fosse capaz de encontrar a Dens. Poucas vezes ele escreveu sobre temas religiosos, mas nos acontecimentos da vida quotidiana, ou nos objetos de gesso, ou nas ruas urbanas, ele conseguiu descobrir o mistério religioso presente no fundo de todas as coisas.


Chesterton chega assim a conclusão de que o cristianismo e para o ser humano a maior fonte de sanidade mental”. Ortodoxia contem paginas inteiras de autentica e agudíssima compreensão da vida, pela qual devemos ser eternamente gratos.

Dessa sua consciência nasce um fantástico romance, breve e muito intenso, Manalive (O homem vivo), publicado em 191L Narra a historia de Inocêncio Smith (nome e sobrenome nada casuais, personificação da inocência e da normalidade), que empreende uma viagem pelo mundo e também e iatista, e depois e acusado (pelo olhar míope de alguns inquilinos da mesquinha Casa Beacon) de homicídio, furto, abandono da família e poligamia, pelo simples fato de ele ter ido visitar sua família, sua única e amada mulher e sua casa com a caixa de correio vermelha e o lampião verde na frente, que ele havia perdido na paralisia da rotina quotidiana. Um homem, diz Chesterton, que não aceitava estar morto enquanto ainda estava vivo. Em outras palavras, ele mesmo.

Essa, como praticamente todas as suas obras narrativas, apresenta aspectos nitidamente autobiográficos, embora dispersos no surreal. Sua intenção e falar da própria vida que e a vida de qualquer homem, e do mistério que nela existe, para não morrer.


Mas O homem vivo esta em cada um de nos (um verdadeiro e adequado motivo poético para Chesterton) e precisa de ajuda; precisamos de alguém que nos empurre no Mistério e para o Mistério, e que do serviço quotidiano prestado ao Mistério tenha feito sua vida: padre Brown, sacerdote católico romano (como dizem os ingleses), detetive primeiro da alma e depois das coisas materiais. O primeiro de uma longa e feliz serie de contos que tem como protagonista o semi-invisível padrezinho inglês foi lançado em 1911, e se inspira numa das pessoas mais importantes na vida de Gilbert e de sua mulher Frances Blogg, o padre John O’Connor, sacerdote irlandês que se estabeleceu na Inglaterra, homem de extraordinária inteligência e argúcia, bem descrito num capitulo memorável da Autobiography [Autobiografia]. A primeira característica do padre Brown e o fato de ele não ter características, e sua importância consiste em não parecer importante, tudo contrastando com sua atenção e inteligência insuspeitadas. Este homenzinho resolve mistérios e delitos mergulhando, gramas a sua experiência de padre e confessor, na mente de quem cometeu o delito, compartilhando com ele tudo exceto o ato de delito final, como explica o próprio Chesterton em O segredo do padre Brawn.


Em 1914 Chesterton foi acometido por uma grave enfermidade que quase Ihe custou a vida, deixando aturdida aquela Inglaterra que, embora por ele muitas vezes criticada, correspondia sinceramente a seu amor. Nesse mesmo ano sai um romance profético e visionário, The, Flying Inn (A pousada voadora); e a historia de uma Inglaterra em que se instala um governo filoislamico com o objetivo de eliminar no pais todos os bares e casas onde se vendem bebidas alcoólicas, mas que encontra em Patrick Dalroy o herói que — tendo atrás de si um barrilote de rum, uma peça de queijo e o distintivo do pub ‘velho marinheiro’? — conduz a rebelião contra a insensatez e desumanidade desse tipo de governo. E um hino ao bom humor cristão e contra os sincretismos impossíveis.


Em 1922 ele opta pelo catolicismo. Não faltou nisso a colaboração de amigos como o padre O’Connor, o padre Vincent McNabb (vibrante dominicano irlandês defensor, como ele, do distributivismo) e Hilaire Belloc. É o ancoradouro definitivo, nada fácil nem mesmo depois de toda uma existência devotada a demonstrar ao mundo a sensatez da vida crista. Naquele abençoado dia? em sua casa em Beaconsfield, Gilbert declara: aos sábios tem mapas que desenham universos densos como arvores, agitam a razão com mil peneiras que retém a areia e deixam passar o ouro; para mim tudo isso vale menos que o pó porque meu nome e Lazaro e estou vivo”. A conversão origina também maior reflexão. e um Chesterton parcialmente diverso do brilhante jornalista em voga nos anos anteriores; isso lhe custara a perda de muitas amizades em sua própria casa (no fundo a desconfiança em relação ao Roman Catholic não morre facilmente nem nos dias de hoje).


No ano subseqüente a conversão Chesterton publica a biografia de São Francisco de Assis, talvez o santo por quem mais se apaixonara por seu poder de profeta e menestrel, de amante e forte contestador de seu tempo.


Em 1925 sai O Homem Eterno. Começa com o recorrente motivo da viagem e uma excursão histórica do homem sobre esta terra, com a qual o nosso Autor prova que o cristianismo é o fator supremo de civilização em todas as épocas. Do mesmo modo que se fala do cristianismo como fonte de sanidade mental para o homem, nessa obra se fala do cristianismo como fator de civilização para o mundo. Se Ortodoxia é uma resposta ao desafio de Street, O Homem Eterno é a resposta a The Outline of History, de H. G. Wells, e seu “darwinismo histórico”.

A partir de agora Chesterton viaja muito, especialmente pelo Canadá e Estados Unidos, aquele pais criticado por ele mas que lhe reserva acolhidas triunfais, em suas turnês que se tornarão proverbiais. Visita a Palestina, a França, varias vezes a Itália, que muito amava da mesma forma que amava os países católicos como a Irlanda e a Polônia (são “esses onde ainda se canta, se dança e se vestem roupas vistosas e onde a arte vive ao ar livre” afirmava Chesterton), que também visita.


Em 1933 publica a biografia de santo Tomas de Aquino, definida por Etienne Gilson como a mais bela obra sobre o “Boi mudo”. “Ao lê-la não se pode pensar em outra hipótese que não seja a do gênio…” Colabora também em transmissões radiofônicas na BBC, conseguindo imensa popularidade.


Mas quem define Chesterton? Chesterton ama a gente comum porque Deus “criou muita gente assim”, sua querida mulher, a tradição por ser “a democracia dos mortos”, a cerveja e os bares “onde tinha seu trono” e “extravasava humorismo” (R, Church); nele liberdade e dogma são sinônimos; ele ri feito criança e é sábio como um velho de muitos séculos. Ama os bebes e a inocência (isso mesmo, a inocência!) que transforma na quintessência do homem verdadeiro e, sobretudo, vivo; participa das festas geralmente entediado e mata o tempo atirando cenouras no ar para depois apanhá-las com a boca fazendo rir as crianças presentes; ele é alguém que sai de casa para se casar, mas não deixa de passar pela padaria, freqüentada na infância com sua mãe, para beber um copo de leite, como também não deixa de levar consigo uma pistola, porque o casamento, senhores, é uma grande aventura e então é bom que se vá ao encontro dele devidamente armado…


Uns afirmam que.ele é conservador, outros que é progressista; lamento dizer isso, mas rotulá-lo assim significa ter lido pouco ou apenas trechos de sua obra. Chesterton só descobriu a vida, seu segredo a ser defendido com sacrifício e ate como próprio sangue, a ser difundido discursando sobre os telhados e chegando para isso ate a loucura, a ser sempre defendido na vida sempre tendo em vista sua Fonte, o próprio Deus, cuja casa é a Igreja católica. Talvez ele não seja muito politicamente correto, tanto ontem como hoje. Mas esta errado?


Morre em Beaconsfield (Buckinghamshire) no dia 14 de junho de 1936, onde está sepultado até hoje, no pequeno cemitério católico junto à igreja paroquial de Santa Teresinha do Menino Jesus (uma santa quase menina, veja só…), junto com a mulher Frances e a quase filha e secretaria Dorothy Collins.



Marco Sermarini

Presidente da Sociedade Chestertoniana da Italia

Retirado de PORQUE CREIO