Sobre a Inveja e os pecados derivados


539. 1. Noção. A inveja é uma espécie de tristeza com o bem alheio que se considera como um mal para nós, enquanto que rebaixa nossa glória e excelência. Se opõe diretamente a um dos efeitos da caridade, que é o gozo espiritual pelo bem do próximo.

Se distingue do ódio, enquanto que este deseja ao próximo um mal e entristece-se do mesmo próximo, enquanto a inveja considera o bem do próximo como um mal a si mesmo. É facílimo, no entanto, passar da inveja pra o ódio.

Não se confunda a inveja com uma legítima tristeza de ver triunfar o mal enquanto mal. (ex. Aos perseguidores da Igreja, aos pecadores públicos, etc.); esta última recebe o nome de indignação ou nemesis, e é boa se ordena-se a um reto fim e com a devida subjeção à ordem da Divina Providência.

Tampouco a inveja, senão nobre e legítima emulação, desejar ter as virtudes boas e qualidades do próximo, com gozo e satisfação de que tenha ele.

540. 2. Malefício. A inveja é um dos pecados mas vis e repugnantes que se podem cometer. É indicio de uma alma ruim e inteiramente alheia ao espírito do evangélico, que resume-se em caridade e amor ao próximo. É em si um pecado grave contra a caridade, a não ser por escassez de matéria (ex. por havermos vencido uma competição esportiva), ou por imperfeição do ato, ou seja, sem a suficiente advertência ou consentimento. Entristecer-se do bem espiritual do próximo, ou seja, de sua própria santificação, é um pecado gravíssimo contra o ESPÍRITO SANTO! (Cf. nº 269, 4.º)

A inveja geralmente produz-se entre pessoas do mesmo ou semelhante estado e condição social; não entre condições muito desiguais, já que os inferiores não aspiram conseguir a posição dos magnatas, que consideram inacessível e não deseja, por eles mesmos, sua inveja ou ambição.

541. 3. Pecados Derivados. A inveja nasce da soberba, que é “o apetite desordenado da própria excelência”, e dela procedem o ódio, a murmuração, a difamação e o gozo nas adversidades do próximo.

C) A discórdia

542. Se entende por tal, A DISSENÇÃO (DIVERGÊNCIA) DAS VONTADES, NO TOCANTE AO BEM DE DEUS E DO PRÓXIMO. Se opõe a paz e a concórdia entre os homens.

Não se refere a divergência de opiniões, que é lícita em matérias opináveis e não se opõe à caridade, contato que mantenha-se dentro dos limites da delicadeza e correção para com os que pensam de outro modo. Sendo a divergência das vontades que não querem unir-se em nome da caridade e da concórdia. Em matéria grave é pecado mortal, embora cabe o pecado venial por insuficiência de matéria ou imperfeição do ato. Nasce do desordenado amor próprio à vangloria, que nos faz amar nada mais do que apenas a própria vontade e opinião.

A contenda

543. A contenda ou perfídia é a altercação ou discurso violento com as palavras. Se opõe também a paz, fruto da caridade.

É pecado mortal, quando impugna-se intencionalmente a verdade (sobretudo em matéria de fé e costumes: pecado gravíssimo), o se falta gravemente à caridade fraterna, ou se produz grave escândalo. Mas, seria somente venial, se produzisse apenas por certo espírito de contradição, que procede muitas vezes de um caráter defeituoso, mais que de má vontade ou desafeto ao próximo.

Nasce também da vanglória, que impulsiona a reportar a vitória sobre o adversário, com razão ou sem ela.

A Rinha (Rixa)

544. Da discórdia e da contenda, incitadas pela ira, geralmente nasce a rinha (ou Rixa), que é uma briga, entre pessoas privadas, a base de golpear ao próximo ou ferimentos. É como uma pequena guerra particular (Ex. do tradutor: Caso Hatfields & McCoys).

É pecado mortal ao agressor, a não ser que se trate de uma coisa rápida e sem escândalo algum, e que ocorra poucas vezes sem, de fato, se golpear o próximo. No agredido injustamente não será pecado algum se limitar-se a defender-se sem ódio e com a devida moderação; pecará venialmente se se exceder um pouco na defesa, E gravemente se se exceder consideravelmente ou proceder com ódio interior.

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PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO: Sobre a Inveja e os pecados derivados, 2014, trad. br. por Rodolpho Loreto, São Gonçalo, RJ, Brasil, Mar. 2014. de: “Pecados opuestos a la caridad para con el prójimo”, visto em  “http://bibliotecacatolicadigital.org/MORAL/ROYO/402-422_CAP3_PECADOS_CONTRA_CARIDAD.htm”.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
allan.santosbr@gmail.com

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Jovem blogueira é convidada por sacerdote para falar sobre Modéstia e Pudor


Pe. Eduardo, pároco da Paróquia JESUS de Nazaré, Complexo da Maré, RJ, convidou a jovem blogueira (e também catequista de crisma) Bárbara Lores, que foi acompanhada de sua amiga Málova Negreiros, para testemunhar a alegria de viver a santa modéstia cristã, a virtude do pudor, temas relacionados à sexualidade católica e afins. A palestrante não teve medo de ensinar para as jovens e mulheres presentes a grande riqueza de guardar a castidade nos gestos e palavras do dia-a-dia; tratou de temas de difícil exposição como o beijo no namoro e todos os outros demais afetos desordenados que em muitos meios católicos são omitidos, esquecidos ou mesmo rechaçados conscientemente.

O Padre Eduardo, além das obras físicas da paróquia, como a criação do altar da Comunhão, e toda uma renovação esplendorosa do átrio do templo, também não se cansa de promover o piedoso uso do véu e a escravidão à Santíssima Virgem segundo o método de São Luis Maria G. de Montfort. Assim, esperamos confiantes que o Imaculado Coração Triunfe o quanto antes para que este pequeno gesto, não obstante tão assombroso para o inferno, seja cada vez mais frequente em todas as nossas paróquias.

Embora a palestra tenha sido adaptada para o público presente, todo o conteúdo é inspirado no excelente livro sobre namoro católico da quadrante e nos textos do Pe. Royo Marín, disponíveis em espanhol e português aqui em nosso blog.

O desenvolvimento da vida espiritual


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Irmã Maria Cecília Seraidarian, EP


Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.
A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).
Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:
a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.
b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.
c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.
d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.
e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.
f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.
g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.
Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.