Compêndio de Teologia Ascética e Mística


Agora você pode ter o Compêndio de Teologia Ascética e Mística, A. Tanquerey! O caráter sistemático, a profundidade de conceitos, o enraizamento nos mestres da espiritualidade cristã e as bases escriturísticas e teológicas sólidas fazem desta obra um clássico imprescindível.

Você pode baixar o livro numa versão em Português AQUI, ou em Espanhol podendo copiar o texto como esta abaixo, a qual igualmente pode ser baixada AQUI.

Experiência Mística – exclusiva dos grandes místicos?


O termo experiência, do latim experientia, tem vários significados, porém, a maioria deles possui em comum o fato de referir-se a uma apreensão imediata de uma realidade ou de “processos internos”. Filosoficamente, experiência tem dois sentidos fundamentais: como confirmação ou possibilidade de confirmação empírica de dados e como vivência de algo “dado”, antes de qualquer reflexão ou predicação. A experiência pode, portanto, designar a apreensão de “evidências” de caráter não-natural, isto é, místicas . Neste último caso, a experiência, o fato de ter “sentido”, “provado”, é fundamental para tornar crível o testemunho de quem fala do sobrenatural, de Deus . A palavra mística, do grego mystikós (o que concerne aos mistérios), por sua vez, pode ser definida como a atividade espiritual que procura efetuar a união da alma com a divindade. O contato com o divino, para o neoplatonismo, provoca uma iluminação interior que permite conhecer o ser da realidade divina . A mística é a união da alma com o seu Primeiro Princípio.

Experiência mística seria propriamente uma experiência do divino, o encontro com o divino de pessoa a pessoa; é um “sentir” a presença de Deus, um sentir-se tocado por Ele no mais íntimo. Esse “sentir” dá a certeza de que é Deus mesmo quem fala. A mística possui um extraordinário poder revelador, prefigurando a própria visão beatífica . É distintivo da experiência mística, ademais de unir o homem ao Absoluto, uma forma de conhecimento espiritual que não se deixa apreender conceitualmente nem se traduz em palavras . Outro elemento constitutivo da experiência mística é a absoluta manifestação, a absoluta iniciativa divina, que penetra no ser humano transformando-o, ampliando seus limites, fazendo-o apreender diretamente e sem mediações a presença do Infinito .
Sao_Joao_da_cruzSão João da Cruz, ao descrever as purificações da alma nas noites escuras e a posterior luz que a invade, elevando o espírito a um sentir divino, estranho e alheio a todo modo humano, assim se expressa: “a alma virá a ter um novo senso e conhecimento divino, muito abundante e saboroso, em todas as coisas divinas e humanas, que não pode ser encerrado no sentir comum e no modo de saber natural; porque então tudo verá com olhos bem diferentes de outrora, – diferença essa tão grande, como a que vai do sentido ao espírito” . Acrescenta, ainda, que esse conhecimento místico e amoroso ilumina a vontade e, ao mesmo tempo, fere e ilustra o entendimento, infundindo certo conhecimento e luz divina, com tanta delicadeza e suavidade, que a vontade se afervora extraordinariamente .
Composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis , o ser humano necessita das exterioridades para, através de uma ação harmônica e complementar dos sentidos e da inteligência, conhecer o mundo. Ou seja, é pelos sentidos que se dá o conhecimento natural. O conhecimento sobrenatural ou místico não tem necessidade de passar pelos sentidos, é uma comunicação direta de Deus no fundo da alma. É uma espécie de iluminação que, atuando sobre a inteligência, vontade e sensibilidade, transporta o espírito humano para uma ordem metafísica e sobrenatural. A impressão causada pela experiência do divino proporciona uma clareza especial de visão, produzindo um amor que eleva a pessoa acima do seu próprio nível e a enche do desejo de dedicação, tornando-a entusiasmada e ansiosa por entregar-se .
A duração dos fenômenos místicos pode variar; geralmente eles são muito curtos, algo à maneira de um relâmpago ou flash, entretanto, deixam na alma marcas indeléveis. Nesse sentido, Santa Teresa, tratando das manifestações da “Sacratíssima Humanidade” de Jesus Cristo, afirma: “E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima, que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar” . Longe de ser uma “via extraordinária”, exclusiva dos grandes místicos experimentais, a mística faz parte da experiência transcendente comum, “ordinária”. Sem “sentir” a proximidade do Ser Absoluto – causa primeira e fim último de todas as coisas –, sem “experimentar” a possibilidade de unir-se a Ele, o ser humano ficaria abalado em sua certeza axiológica e ontológica, perderia a noção do seu próprio ser.

O desenvolvimento da vida espiritual


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Irmã Maria Cecília Seraidarian, EP


Em sua Teologia da Perfeição Cristã, o Pe Royo Marín (1968, p 273) salienta que :

Cada alma segue seu próprio caminho rumo à santidade sob a direção e o impulso supremo do Espírito Santo. Não há duas fisionomias inteiramente iguais no corpo nem na alma. Contudo, os mestres da vida espiritual tem tentado diversas classificações atendendo às disposições predominantes das almas, que não deixam de ter sua utilidade ao menos como ponto de referência para precisar o grau aproximado de vida espiritual em que se encontra uma determinada alma. (…)

São três, parece-nos, as principais classificações que foram propostas ao longo de toda a história da espiritualidade cristã: a clássica das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; a do Doutor Angélico, baseada nos três graus de principiantes adiantados e perfeitos; e a de Santa Teresa de Jesus em seu genial Castelo interior ou livro das Moradas.
A obra de Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas, é tomada como exemplo pela maioria dos autores de vida espiritual, pois explica de modo excelente as fases da vida cristã rumo à santidade, baseando-se nos graus de oração. Esta Doutora da Igreja compara a alma a um castelo e os diversos graus da vida espiritual, aos aposentos desse castelo: “consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de limpidíssimo cristal. Neste castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas” (1981, p. 19).
Santa Teresa divide o desenvolvimento da vida espiritual em sete moradas:
a) Primeiras Moradas (ibidem, p. 19-37) – considera a beleza de uma alma em estado de graça e lamenta aquelas almas que jamais entram no castelo, ficam ao redor dele, obstinadas no pecado. Afirma ainda que a porta de entrada desse castelo é a oração. Trata da hediondez de uma alma em estado de pecado mortal e da importância da humildade e do conhecimento de si mesmo, através do conhecimento de Deus. Adverte também sobre as artimanhas do demônio para impedir que as almas progridam dessas primeiras moradas para as seguintes. Nesse estágio, as almas desejam não ofender a Deus e praticar boas obras, no entanto, estão ainda absorvidas pelo mundo.
b) Segundas Moradas (ibidem, p. 41-49) – aqui as almas já se preocupam em servir a Deus, fogem das distrações fúteis e buscam uma vida de oração e recolhimento, embora com muitas quedas e falhas. Têm aversão ao pecado mortal, porém, pouco cuidado em evitar as ocasiões. Sofrem por sentirem cada vez mais claro o chamado de Deus e não terem ânimo suficiente para se entregarem inteiramente. Nesta fase, a Santa encoraja-as a não desanimarem diante dos ataques do demônio mas serem humildes e se confiarem à Misericórdia Divina, a fim de perseverarem.
c) Terceiras Moradas (ibidem, p. 53-68) – nestas moradas as almas passam a ter mais oração e recolhimento, evitam os pecados veniais e fazem penitência. Quando são provadas pelo Senhor com securas e aridezes, desanimam porque ainda são débeis. Aconselha a estas almas a fuga das ocasiões e a perseverança na humildade e na oração, sem fazer caso de provações ou de consolações.
d) Quartas Moradas (ibidem, p. 71-95) – é nesta etapa que ocorre a transição da ascética para a mística. As tentações trazem benefícios e são ocasião de mérito. Tem-se o início das orações contemplativas. Santa Teresa ressalta a importância de crescer no amor, condição para progredir às moradas seguintes.
e) Quintas Moradas (ibidem, p. 99-130) – a Santa Doutora descreve longamente a união da alma com Deus na oração contemplativa. A experiência mística é intensificada e aumentam as purificações passivas. As almas experimentam grande amor ao próximo e têm necessidade de muita vigilância para não cair nas sutilezas do demônio.
f) Sextas Moradas (ibidem, p. 133-224) – nesta fase as almas recebem grandes favores e padecem terríveis provações; Deus opera maravilhas naqueles que alcançam estas moradas. O amor a Deus é levado até o esquecimento de si mesmo. Os fenômenos místicos se multiplicam. As almas têm desejo de unir-se intimamente a seu Senhor, abandonando esta vida.
g) Sétimas Moradas (ibidem, p. 227-260) – Perfeição – dá-se o “matrimônio espiritual”, a união transformante em que a alma se faz uma com Deus, sente em si a inabitação da Santíssima Trindade. As almas atingem um estado de paz e tranqüilidade inalteráveis, preocupam-se unicamente com a glória de Deus.
Diante dessa impressionante descrição de Santa Teresa de Jesus, um dos luminares da mística experimental, percebe-se o belo mas árduo caminho a percorrer para alcançar a santidade, uma vez que é preciso arrancar da alma todo o apego às coisas terrenas e o apego a si mesmo para poder seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 9, 23): “se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (BÍBLIA SAGRADA, 1996). Sem um constante auxílio de Deus, que com sua graça atrai as almas, sustenta-as e faz avançar nas vias da santidade, não seria possível ao homem chegar à perfeição por suas próprias forças.

[Teologia da Perfeição Cristã] Princípios fundamentais da vida cristã


Teologia da Perfeição  Cristã

Por Royo Marín, O.P.

PRIMEIRA PARTE

Princípios fundamentais da vida cristã

CAPÍTULO I

O fim da vida cristã

A consideração do fim é o que primeiro se impõe no estudo de qualquer obra dinâmica. E sendo a vida cristã essencialmente dinâmica e propensa à perfeição – ao menos no nosso estado de peregrinos -, é preciso que antes de tudo saibamos para onde iremos, ou seja, qual é o fim que pretendemos alcançar. Por isso que Santo Tomás inicia a parte moral de seu sistema – o retorno do homem para DEUS – pela consideração do fim último [1].

À vida cristã se podem assinalar dois fins, ou, se desejar, um somente com duas modalidades distintas: um fim último ou absoluto e outro próximo ou relativo. O primeiro é a glória de DEUS; e o segundo, nossa própria santificação. Vamos examiná-los separadamente.

I. A glória de DEUS, fim último e absoluto da vida cristã

36. É clássica a definição da glória: clara notitia cum laude. Por sua própria definição, se expressa como algo extrínseco ao sujeito a quem afeta. Entretanto, em um sentido menos estrito, podemos distinguir em DEUS uma glória dupla: a intrínseca, que brota de sua própria vida íntima, e a extrínseca, proveniente das criaturas.

A glória intrínseca de DEUS é a que ELE busca em si mesmo no seio da TRINDADE Beatíssima. O PAI – por via de geração intelectual – concebe de si mesmo uma idéia perfeitíssima: é seu Divino FILHO, Seu VERBO, no que se reflete a Sua vida mesma, sua mesma beleza, sua mesma imensidade, sua mesma Eternidade, suas mesmas perfeições infinitas. E ao contemplar-Se mutuamente, se estabelece entre as Duas Divinas Pessoas – por via de procedência – uma corrente de indizível amor, torrente impetuosa de chamas que é o ESPÍRITO SANTO. Este conhecimento e amor de Si mesmo, este louvor eterno e incessante que DEUS se profusa a si mesmo no mistério incompreensível de sua vida íntima, constitui a glória intrínseca de DEUS, rigorosamente infinita e exaustiva, e à que as criaturas inteligentes e o universo inteiro nada, absolutamente, podem acrescentar. E é no mistério de Sua vida íntima onde DEUS encontra uma glória intrínseca absolutamente infinita.

DEUS é infinitamente feliz em Si mesmo, e, absolutamente, nada necessita das criaturas, que não podem aumentar-LHE sua felicidade íntima. Mas DEUS é Amor [2], e o amor dele é comunicativo. DEUS é o Bem infinito, e o bem tende de si mesmo a expandir-se: bonum est diffusivum sui, dizem os filósofos. Eis a razão da criação.

DEUS quis, com efeito, comunicar suas infinitas perfeições às criaturas, desejando com isso sua própria glória extrínseca.  A glorificação de DEUS pelas criaturas é, em definitivamente, a razão última e finalidade suprema da criação [3].


[1] S. Th. I-II, 1.
[2] S. Th. I 109 4, 16.
[3] De maneira belíssima, expressa Santo Tomás de que maneira com sua glória intrínseca e extrínseca se reúne em DEUS em grau muito perfeito a plenitude de todas as felicidades possíveis: «Quanto de desejável há em qualquer classe de felicidade, tudo preexiste de modo mais elevado na bem-aventurança divina. Por isso, no que se refere à felicidade comtemplativa, possui a contemplação contínua e certíssima de si mesmo e de todas as outras coisas, e enquanto a ativa, possui o governo de todo o universo. Da felicidade terrena, que segundo Boécio, consiste em prazeres, riquezas, poder, dignidade e fama, por deleite e gozo de si mesmo e de todas as outras coisas; a abundancia que a riqueza promete; por poderio, a onipotência; por dignidade, o governo de todos os seres, e por fama, a admiração de todas as criaturas» (1, 26,4).